“Vamos receber muitas visitas e a casa ainda não está arrumada”, por Nuno Abranja
À beira de mais uma época alta e face aos bons indicadores turísticos que o país continua a ter, Nuno Abranja deixa uma interrogação sobre se Portugal está preparado para gerir o seu sucesso no turismo. “Portugal tornou-se extremamente competente a vender o destino, mas continua relativamente frágil a organizar o crescimento dos seus territórios”, afirma neste artigo de opinião.
Nuno Abranja
Diretor do Departamento de Ciências Empresariais, ISCE–Instituto Superior de Lisboa e Vale do Tejo
CEO, OMelhorDoTurismo – Consultora de Formação
Investigador Integrado, CiTUR
A época alta vem aí e não temos a casa bem arrumada. Portugal entra novamente na estação turística alta com os indicadores praticamente todos no verde. O setor continua a crescer, as receitas continuam a bater recordes e o país mantém uma notoriedade internacional que parecia improvável há pouco mais de uma década. Os números impressionam. Em 2025, Portugal registou 32,5 milhões de hóspedes e 82,1 milhões de dormidas. As receitas turísticas chegaram aos 29 mil milhões de euros, um crescimento de 5% face ao ano anterior. O turismo representa hoje mais de 20% do PIB nacional e cerca de 1 em cada 4 empregos depende direta ou indiretamente do setor (Turismo de Portugal, I. P., 2026)[i], [ii], [iii]. Para reforçar este cenário, o relatório de tendências do número de projetos em construção hoteleira na Europa para o 1º trimestre de 2026, da Lodging Econometrics (Turisver, 2026)[iv], indica que Portugal é o quinto país europeu com mais hotéis em pipeline e Lisboa a terceira cidade da Europa.
Poucos setores em Portugal conseguem apresentar este nível de impacto económico e seria intelectualmente desonesto ignorar aquilo que o turismo tem feito pelo país, como o enriquecimento do Estado e das empresas, a regeneração de cidades, vilas e aldeias, a atração de investimento, a internacionalização de marcas portuguesas, a criação de emprego e a transformação de Portugal num destino muito premiado e globalmente desejado. Mas talvez tenha chegado o momento do setor fazer a si próprio a pergunta menos confortável: estamos realmente preparados para continuar a crescer desta forma? Porque basta sair das exibições institucionais e olhar para o terreno para perceber que existe uma tensão crescente entre o sucesso estatístico do turismo e a capacidade real do país para o absorver. Estamos a entrar num novo período de verão no nosso país com aeroportos congestionados, pressão sobre os transportes públicos, dificuldades na mobilidade urbana, falta de profissionais no setor, tensões na habitação e destinos turísticos, e, em determinados períodos e lugares, a aproximarmo-nos perigosamente da saturação.
Na prática, Portugal promove-se hoje como um destino premium com infraestruturas que continuam demasiado próximas de uma lógica low-cost. E isto começa a notar-se não apenas na experiência de quem visita, mas também na qualidade de vida de quem vive nos principais centros turísticos. A questão da habitação tornou-se o símbolo mais visível dessa tensão. Durante demasiado tempo, o debate público simplificou o problema entre “turismo bom” e “turismo mau”, quando a realidade é muito mais complexa. É evidente que o turismo tem tido impacto com o crescimento do alojamento local, da pressão imobiliária internacional e a atratividade das cidades portuguesas alteraram profundamente o mercado habitacional. Mas reduzir a crise da habitação apenas ao turismo é também uma forma conveniente de ignorar décadas de falta de construção, licenciamentos lentos e ausência de planeamento urbano consistente. É precisamente na gestão do próprio sucesso que o país parece menos preparado.
Portugal tornou-se extremamente competente a vender o destino, mas continua relativamente frágil a organizar o crescimento dos seus territórios. O setor vive ainda demasiado dependente da lógica do pico: pico de procura, pico de preços, pico de pressão e pico operacional. Apesar de todos os discursos sobre descentralização e combate à sazonalidade, continuamos estruturalmente dependentes de poucos meses, poucos mercados e poucos territórios, o que gera um desgaste silencioso dentro da própria atividade.
Para se juntar a este contexto periclitante, a falta de mão de obra deixou de ser também um problema conjuntural para se tornar estrutural, em que olhamos para hotéis, restaurantes, empresas de animação turística e operadores no geral a enfrentarem dificuldades permanentes em recrutar e reter profissionais. Já alguém parou realmente para pensar neste problema? Para mim, o paradoxo parece evidente: queremos posicionar Portugal num segmento de maior valor acrescentado, mas continuamos em muitos casos a oferecer carreiras marcadas por salários limitados, sazonalidade extrema, horários difíceis e pouca evolução e estabilidade de carreira. O setor fala muito, e bem, sobre crescimento, inovação e sustentabilidade, mas talvez esteja na altura de falar com igual frontalidade sobre sustentabilidade humana. Não existirá nunca hospitalidade premium sem pessoas autênticas e motivadas para a oferecer.
Eu sinto que Portugal ainda está longe da hostilidade turística que hoje se sente em cidades como Barcelona, Veneza ou Amesterdão, mas será um erro estratégico assumir que estamos imunes a esse risco. O nosso país construiu a sua reputação internacional com base numa combinação rara de segurança, autenticidade, hospitalidade e qualidade da experiência. O problema é que reputações turísticas são muito mais frágeis do que parecem e as perceções mudam depressa. Demoram-se anos a construir e pouco tempo a degradar-se. Se a experiência passar a ser marcada por excesso de pressão urbana, perda de identidade local, degradação do serviço ou sensação permanente de sobrelotação, Portugal arrisca continuar a crescer em números enquanto perde valor percebido.
Acredito que o principal desafio estratégico do turismo português hoje é perceber que crescer e evoluir já não são exatamente a mesma coisa. O país precisa, necessariamente, de melhor distribuição territorial, melhor planeamento urbano, melhores infraestruturas, maior qualificação profissional, mais valorização laboral, uma visão mais madura sobre capacidade de carga e de abandonar a lógica de sobrevivência sazonal que ainda domina demasiadas decisões. Todos os anos esperamos pela época alta como uma confirmação coletiva de sucesso económico e todos os anos ela expõe uma casa disfarçadamente desarrumada. Portugal continua a ser uma casa extraordinariamente atrativa para quem nos visita, mas talvez esteja na altura de perceber que hospitalidade não é apenas abrir a porta. É garantir que a casa funciona para quem lá vive e também para quem nos visita.
[i] Retirado de https://www.turismodeportugal.pt/en/Turismo_Portugal/visao_geral/Pages/default.aspx, em 23/05/2026.
[ii] Retirado de https://travelbi.turismodeportugal.pt/en/tourism-in-portugal/tourism-outlook-2025, em 23/05/2026.
[iii] Retirado de https://www.turismodeportugal.pt/pt/arquivo/Paginas/analise-wttc-turismo-portugues-continua-a-crescer-2025.aspx, em 23/05/2026.
[iv] Retirado de https://turisver.pt/portugal-e-o-quinto-pais-europeu-com-mais-hoteis-em-pipeline-e-lisboa-fecha-o-top-3-das-cidades, em 22/05/2026.


