“Sustentabilidade no turismo em Portugal: uns fazem, outros fingem!”, por Paulo Brehm
Neste artigo, Paulo Brehm faz uma síntese do percurso que tem sido feito em Portugal em matéria de sustentabilidade no turismo, desde as certificações iniciadas no setor da hotelaria, seguidas dos processos de certificação de destinos turísticos e, um pouco mais tarde, das agências de viagens e operadores turísticos.
Paulo Brehm
Consultor de Sustentabilidade
Falar de sustentabilidade no turismo em Portugal é falar de um percurso que não começou ontem. Embora a última década tenha sido marcada por uma maior estruturação – em particular ao nível das certificações – as preocupações com o ambiente, a responsabilidade social e a gestão do impacto do turismo têm raízes mais antigas no setor.
Há que reconhecer que é na hotelaria que estas preocupações ganham expressão mais consistente, assumindo um papel claramente pioneiro no contexto nacional. Desde pelo menos 2007, com a entrada da Green Key – de origem dinamarquesa – pela mão da Associação Bandeira Azul, o setor começou a adotar práticas ambientais de forma mais sistematizada. Este percurso contribuiu para que esta seja hoje a certificação de sustentabilidade hoteleira mais difundida em Portugal.
Alguns anos mais tarde, em meados da década de 2010, surgiu a Travelife for Accommodation, de origem holandesa e atualmente gerida pela principal associação do setor das viagens no Reino Unido. A sua presença veio complementar o panorama existente, oferecendo uma abordagem estruturada e alinhada com referenciais internacionais, num setor que já vinha, progressivamente, a integrar preocupações de sustentabilidade.
Para este percurso, muito contribuiu também o trabalho da Associação da Hotelaria de Portugal. Desde 2013, a AHP tem vindo a desenvolver um conjunto consistente de projetos na área da sustentabilidade e responsabilidade social, com destaque para o programa HEART (Hospitality, Environment and Responsible Tourism). Este programa, que evolui do anterior HOSPES, agrega a ação do setor em torno dos pilares social, ambiental e económico, promovendo a economia circular através da reutilização e doação de bens hoteleiros, a gestão responsável de resíduos, o combate ao desperdício alimentar, bem como iniciativas de voluntariado e emprego inclusivo.
O HEART não substitui uma certificação, mas pode, inclusive, servir como ponto de partida para processos de certificação mais exigentes e auditados.
A proliferação de iniciativas da AHP neste domínio resulta, acima de tudo, da convicção e do compromisso com a sustentabilidade por parte da sua liderança. No contexto associativo, essa convicção pessoal é, muitas vezes, uma condição sine qua non para que a sustentabilidade deixe de ser um mero discurso – como tantas vezes se vê – e passe a traduzir-se em ação estruturada e contínua. Quando as lideranças não têm convicções, por mais ativismo que exista nos níveis operacionais, as ações dificilmente passam do plano das intenções.
No domínio dos destinos turísticos, a evolução foi igualmente relevante, embora com uma lógica distinta. Sistemas como a Green Destinations (de origem neerlandesa), a EarthCheck (com origem na Austrália) e a Biosphere (nascida nas Canárias, Espanha), afirmaram-se como certificações especializadas neste segmento, focadas na gestão integrada dos territórios, pese embora algumas tenham evoluído para oferecerem soluções a empresas.
Ao trabalharem ao nível do destino, estas certificações introduziram ferramentas de planeamento estratégico, monitorização de impactos, governação participada e definição de políticas públicas, contribuindo para uma transformação progressiva do papel das DMOs.
Em Portugal, a presença da Green Destinations tem-se afirmado sobretudo ao nível local, com destaque para municípios e regiões nos Açores, Alentejo, Algarve, várias áreas do Centro de Portugal, e destinos como Cascais e Sintra, entre outros. A presença regular de destinos portugueses no programa Top 100 Stories desta certificação tem contribuído para dar visibilidade internacional a boas práticas nacionais.
Já no segmento das agências de viagens e operadores turísticos, o percurso foi mais tardio. Aqui, o grande impulsionador foi a Travelife for Tour Operators, introduzida em Portugal (apesar de já existir, à data, um membro no país) no âmbito do Sustour, um projeto europeu cofinanciado pelo programa COSME, através da ECTAA, com participação da APAVT. Portugal destacou-se como um dos países com melhores resultados neste projeto, tendo sido esse o momento determinante para lançar as bases da sustentabilidade no setor da distribuição turística.
Atualmente, a Travelife – a única certificação de sustentabilidade especializada neste segmento – está presente em Portugal através de representação própria e continua a ser aquela que reúne o maior número de agências e operadores.
No domínio da animação turística, numa fase mais inicial, começa a notar-se uma evolução progressiva, com um número crescente de empresas a incorporar práticas mais sustentáveis nas suas operações. A introdução de sistemas como o Good Travel Seal, integrado no universo da Green Destinations, poderá desempenhar um papel relevante na qualificação deste subsetor, apoiando as empresas na estruturação das suas práticas e contribuindo para reforçar o seu posicionamento num contexto cada vez mais exigente e orientado para a sustentabilidade.
A par de todas estas iniciativas, merece também destaque o programa Empresas Turismo 360º, do Turismo de Portugal. Não sendo uma certificação, mas uma ferramenta de diagnóstico e reporte, veio dar um contributo importante para o aumento da consciência sobre a sustentabilidade entre as empresas do setor.
Mas há um tema que começa a emergir – e que importa clarificar. A ideia de que, por serem pequenas, as empresas do setor deveriam ter acesso a certificações mais simples, mais baratas ou até gratuitas. Este argumento, que se vai ouvindo aqui e ali, sobretudo nos segmentos da distribuição e da animação turística, revela muitas vezes não uma dificuldade real, mas uma falta de compreensão do que está em causa.
A sustentabilidade não é um selo para comunicar modernidade. É uma responsabilidade de gestão. E é, acima de tudo, uma questão de consciência. De convicção.
Facilitar excessivamente os processos de certificação pode parecer inclusivo, mas arrisca desvalorizar o próprio conceito de sustentabilidade. Mais do que simplificar, o que importa é adaptar – sem abdicar de rigor.
A prova de que é possível existe: em Portugal, já foi certificada com a Travelife for Tour Operators, apesar de toda a exigência que lhe é reconhecida, uma agência com apenas duas pessoas. Isso demonstra que, sendo exigente e trabalhoso, o caminho é viável – mesmo para microempresas. A diferença não está na dimensão, está na vontade.
Em síntese, o setor do turismo em Portugal fez um caminho relevante, mas esse caminho está longe de estar concluído. Persistem diferenças claras entre segmentos, níveis de maturidade muito distintos e, em alguns casos, uma adesão ainda demasiado dependente de incentivos externos.
A sustentabilidade nas empresas do turismo já não precisa de mais sensibilização – precisa de exigência. Precisa de sair do domínio das boas intenções para entrar no centro das decisões de gestão.
Há quem já o esteja a fazer com consistência. Há quem ainda não. Mas a diferença, no futuro, não estará entre quem quis e quem não quis – estará entre quem fez e quem ficou para trás.
A questão é simples: onde quer estar?


