Senegal: Onde tudo é África, onde tudo é “teranga”! (1ª parte)
Diz uma lenda que o seu nome nasceu do rio Sunu Gaal, que significa “a nossa canoa”. Tem como símbolo a “Árvore da Vida”, o baobá. Tem de um lado a África árabe e do outro a África negra, e um povo que toma como muito seu o espírito da hospitalidade, a tal de “teranga”. Tem como capital Dakar, nome originário da palavra “dakhar” que em wolof, o principal idioma local, significa tamarindeiro. E é também o último país africano a ver o pôr-do-sol. O seu nome é Senegal, e fomos descobri-lo a convite da Soltrópico.
Por Fernando Borges
Poderíamos começar pelo que poderia ser o final. Poderíamos começar por dizer que o Senegal não é um país para ser visitado, mas sim para ser sentido entre o que parece ser um bailado de sons, imagens, cheiros e movimento. É o constante buzinar de um carro que se mistura entre os gritos de um muezim, esse responsável por proferir o adhan numa mesquita, o chamamento islâmico para as cinco preces diárias, enquanto vendedoras montam as suas bancas de fruta sob um sol sempre quente à beira de ruas e estradas onde o asfalto e a terra batida se vão substituindo. É o verde das florestas interrompido pelo castanho dourado das estradas feitas de terra e de pó, e de outros caminhos que atravessam campos igualmente dourados pelo capim, para junto ao Atlântico mostrar as suas águas azuis, ou mais castanhas dos rios, cenários de um “postal” cheio de magia que marca o ritmo das suas gentes.
Sim, tudo no Senegal tem o seu ritmo; as palavras melodiosas ditas em wolof, o idioma de todas as conversas, a comida que ferve lentamente sobre o crepitar do fogo que sai de um monte de lenha feito de pedaços de madeira “roubados” ao mato e alimentado por excrementos de vaca, dos passos dos homens e mulheres vestidas nos seus tradicionais “boubou” que caminham estrada fora ao ritmo do calor intensamente africano, para aqui e ali uma nuvem de pó nos dizer que um “bando” de miúdos descalços corre atrás de uma bola e do sonho de um dia serem um Sadio Mané, esse senegalês que saiu de uma pequena aldeia para se tornar num dos maiores jogadores africanos de todos os tempos. E enquanto estes ritmos acontecem sente-se que estamos em terras de “teranga”, a palavra wolof que evoca hospitalidade, partilha e respeito pelos outros.
Dakar, uma cidade sem pausas
Comecemos esta viagem pela sua capital, Dakar, uma cidade com os “olhos” virados para o mar e para o horizonte, como que um elo de ligação com a Europa, as Américas e o resto do continente africano, uma cidade de contrastes que justapõe descaradamente as torres modernas do Planalto, os movimentados mercados de Sandaga, as praias onde, quando o sol começa a pôr-se, treinam os Mbër, esses lutadores de Laamb, a luta livre senegalesa transformada em desporto nacional, lutadores de corpos musculados e agilidade de gazela que são celebridades veneradas no país, combinando força física com rituais espirituais e místicos.
Esta é também a cidade que transpira cultura, pois foi nela que nasceu Youssou N´Dour, um incontornável nome da música africana e mundial, o escritor Boubacar Boris Diop, onde se encontra o Museu das Civilizações Negras (IFAN), que nos leva numa viagem pela cultura, crenças, e saber dos povos africanos, desde a antiguidade até aos dias de hoje. Assim como é a cidade da agitada e mil vezes fotografada praia de Soumbedione, onde as “gaal”, essas pirogas de cores vivas tradicionais que fazem parte das entranhas de vida desta região de África, e outras embarcações de pesca preenchem ao longo de quilómetros as suas águas descarregando milhares de toneladas de peixe transportadas para as areias da praia por centenas e centenas de homens e mulheres que se misturam com carroças puxadas por cavalos que, também eles, entram pelo mar ao encontro das embarcações para trazerem para o areal o que o mar deu, criando ao entardecer sobre a Corniche de Dakar um verdadeiro espetáculo de vida que ficará para sempre guardado na retina e na memória.
Entre rinocerontes, girafas, jacarés… e os sérerè”

Mas havia que deixar a vibrante capital senegalesa, que tem no Monumento do Renascimento Africano, uma estátua que simboliza a liberdade do homem negro, o seu principal ícone, uma obra do escultor Pierre Goudiany e que é a maior estátua erigida em África, e seguir ao encontro de outras faces de uma terra cheia de expressões, onde a criação é abundante, muitas vezes empenhada e sempre ousada, e quase sempre na companhia do “mbalax”, esse género musical popular internacionalizado por Youssou N´Dour.
E foi ao som do “mbalax”, entre estradas de asfalto esburacadas, “picadas”, olhares curiosos, acenos de “bandos” de miúdos à beira das estradas, de mulheres sentadas à ombreira das suas casas, de homens que à sombra dos ramos de mais um baobá esperam que o tempo passe, de vozes em wolof e a vastidão dos intermináveis espaços que chegámos a Bandia, uma reserva de vida selvagem por onde andam em liberdade girafas, rinocerontes, zebras, búfalos, elandes…, ara ali ao lado, nas margens do rio e enquanto almoçamos num varandim de madeira suspenso sobre as águas, dezenas de jacarés descansam e outras dezenas apenas flutuam à espera de uma presa mais distraída ou para se refrescarem do intenso calor que se apodera de tudo o que é respirável e vivo, perante a indiferença de centenas de tecelões que vão construindo de uma forma acrobática os seus ninhos.
É um calor que repetidamente nos acompanha e que parece ganhar mais vida quando chegamos a uma aldeia de etnia sérère, esse grupo etnoreligioso milenar com uma cultura profundamente ligada à terra e baseada em tradições espirituais e orais com raízes que remontam à pré-história, onde entre casas feitas de argila e adobe, cobertas por “telhados” de folha de palmeira, somos recebidos por muitas crianças de todas as idades, mulheres, algumas delas muito jovens mas que já carregam um filho às costas seguro, como é tradição em África, por uma colorido pano enrolado e preso à cintura, e pelo ancião da aldeia que nos observa atentamente enquanto as mulheres mais velhas nos mostram o interior das suas pequenas cabanas e o seu modo de vida, para no final nos desafiarem a acompanhá-las numa dança tradicional, marcada pelo ritmo de um batuque feito de um alguidar de metal, para alegria excitada da miudagem.
Fadiouth, o lugar onde mora o espírito da harmonia e da tolerância
Mas há que continuar a viagem, seguir por estradas onde o asfalto se mistura com a terra e marcadas por constantes buracos e lombas, e por outras feitas apenas de terra que vão levantando nuvens de um pó seco que entranha pela pele até atingir os pulmões entre cenários feitos por florestas de baobás, de mais uma aldeia e de mais uma manada de vacas que se atravessa à nossa frente indiferente à nossa presença, intensificando as nuvens de pó e criando uma auréola castanha de tons amarelos que nos circunda.
E é neste ritmo de vida compassado pelo sol que chegamos a Joal, um pequeno povoado que viu nascer o “pai” da nação senegalesa, Léopold Sédar Senghor, o primeiro presidente de um país que nasceu em 1960, um presidente que se distinguiu pela sua “africanidade tolerante” e por várias vezes candidato ao Prémio Nobel da Literatura. Joal separada por uma ponte pedonal de 500 metros feita de madeira do nosso objetivo, que está logo ali do outro lado do Rio Saloum, da ”Terra da Concórdia”.
E ali está ela, a ilha de Fadiouth, também conhecida por “Ilha das Conchas”, uma ilha artificial nascida da acumulação ao longo de séculos de conchas de moluscos e grãos de areia, conchas mais pequenas e maiores que pavimentam ruas por onde se estendem pequenas lojas de artesanato e casas de paredes em parte também feitas de conchas misturadas com tijolos e que nos mostram o dia-a-dia da sua gente. Uma ilha que foi um antigo assentamento português no tempo das descobertas e que continua a albergar uma população maioritariamente católica, com a igreja de São Francisco Xavier a anunciar que aqui, nesta ilha, Alá ficou do outro lado da ponte.
Talvez por esta razão, nesta ilha enormes porcos percorrem livremente as ruas entre a comunidade local e turistas, enquanto outros deambulam entre homens, mulheres e crianças que mais abaixo andam na apanha de bivalves. Uma ilha com um património cultural rico, que se orgulha da coexistência harmoniosa de diferentes comunidades religiosas, que também é conhecida pelos seus tradicionais celeiros sobre palafitas que são usados para armazenar milho-miúdo e outros grãos, e pelo seu cemitério que também é coberto de conchas e por onde se estendem campas em que católicos, muçulmanos e alguns animistas estão enterrados lado a lado, realçando o sentimento de tolerância e paz religiosa que este lugar transmite. Mais abaixo embarcarmos numa piroga e seguimos à força de braços de um “pirogueiro” que, com a ajuda de um simples pau a servir de leme e de motor, vai levando a sua rudimentar embarcação, feita do tronco de uma árvore, ao longo das margens do Delta de Saloum.
Da exuberância da natureza ao repouso na beira do Atlântico
É ao longo deste mesmo delta e do seu rio, mais à frente, que somos desafiados mais uma vez a partir, agora entre labirínticos canais, impenetráveis mangais e pequenas ilhas que são habitat de milhares de aves que ali vivem todo o ano e outras que por aqui passam no seu projeto migratório, como flamingos e pelicanos, também de golfinhos e tartarugas marinhas, um complexo e vasto sistema que faz parte da Reserva de Biosfera da UNESCO, um lugar especialmente único que se mostra exuberante e excêntrico, virgem e cru de sentidos.
Mas o Senegal é também sinónimo de extensas praias banhadas pelas águas do Atlântico que aqui se tornam calmas e recebem o calor de um sol que teima em estar presente em qualquer dia do ano. Praias que se estendem pela Petite Côte onde floresceu uma vasta oferta hoteleira focada na desconexão e no conforto, em especial na zona de Saly, hotéis para todos os gostos e desejos, desde os grandes all-inclusive familiares feitos de betão, como o Riu Baobab, aos mais exclusivos que parecem esconder os seus bungalows entre a vegetação luxuriante feita de palmeiras e floridos jardins, criando uma atmosfera que nos diz que “aqui é África”, como o Royal Horizon Baobab, ou os que com facilidade incluímos na “secção” boutique-hotel, como o Africa Queen.
E assim, ainda respirando e saboreando intensamente todas as experiências vividas, deixamos o Senegal. Deixamos, trazendo nos nossos olhos e na nossa memória intensas imagens, sensações e emoções que se foram apoderando de nós de uma forma tão natural e genuína a cada minuto passado neste país tão fascinante. Dizem que é o tal de feitiço que se apodera de quem pisa terras de África! E no final, na hora do que esperamos ser um “até breve”, apenas nos resta dizer “dieuredieuf Senegal, niokobok”, que é como se diz em wolof “obrigado Senegal, estamos juntos”.
O Turisver viajou até ao Senegal a convite do operador turístico Soltrópico
























