Senegal (2ª parte): Ilha de Gorée, as memórias da História contadas entre pétalas de acácia
Encostada à costa atlântica de África, entre o azul do mar e do céu, ergue-se, quase que submissa perante esse mar, uma ilha que dá pelo nome de Gorée. Mas ela não é apenas mais uma ilha. Nem é apenas mais um nome inscrito na lista de Património Mundial da Humanidade pela UNESCO. É, principalmente, memória de um dos episódios mais trágicos da Humanidade e uma homenagem ao Homem Livre e à reconciliação.
Por Fernando Borges
A fam trip do operador turístico Soltrópico ao Senegal levou o grupo de agentes de viagens, e o representante do Turisver, à ilha de Gorée, ou “Ilha dos Escravos”, como também lhe chamam. Embarcámos num velho ferry no porto de Dakar, entre mulheres cobertas de coloridas e tradicionais roupas da África Ocidental muçulmana, oferecendo uma atmosfera exuberante num velho cais onde se agitam gentes locais e turistas.
O destino é uma ilha que parece flutuar não muito longe do porto onde embarcamos. Primeiro, começa por se mostrar como que um pequeno bocado de terra esquecido no meio de um oceano. Depois, já mais perto, são as paredes de uma fortaleza que se vão agigantando para depois dar a descobrir casas do tipo colonial, pintadas de vários tons pastel, revelando uma ilha que mais parece uma pintura capaz de impressionar qualquer crítico de arte. E desembarca-se junto a uma praia onde crianças, indiferentes a quem chega, brincam entre coloridos e frágeis barcos e canoas de pesca feitas de madeira.


Desembarca-se entre os apressados passos de quem conosco viajava nesse ferry para abrir as suas pequenas lojas de artesanato e bancas de coloridas e aromáticas frutas para, logo a seguir, termos perante nós um terreiro que de um dos lados olha para o mar, enquanto do outro começa a revelar ruas apertadas por muros e casas coloridas da segunda metade do século XVIII, entre legados familiares, galerias de arte, pousadas e hotéis, também testemunhos de que por esta ilha passaram portugueses, holandeses, ingleses e franceses ao deixarem as suas influências e pormenores arquitetónicos nestes edifícios.
Por entre ruas de tons amarelos e ocres
São ruas que se prolongam até nos mostrarem mais um terreiro demarcado por coloridas paredes que circundam mais um baobá que dá sombra aos corpos de homens que parecem descansar indiferentes a quem passa, mesmo que sejam esbeltas mulheres de pele bem negra que caminham elegantemente nos seus coloridos “boubou”, como que desfilando numa mostra da moda tradicional senegalesa.


E abre-se mais uma rua onde se perfilam no chão coloridos quadros encostados a paredes amarelas e de múltiplos tons ocre. Mas esta não é uma rua qualquer. No meio dela existe uma parede num tom rosa escuro e um enorme portão verde encimado por uma placa corroída pelo tempo com a inscrição “Maison des Esclaves”. E é através desse portão que iniciamos uma viagem emotiva, fascinante, arrebatadora e de profunda reflexão. Também de homenagem.
Em memória de exaltação ao Homem e à Liberdade
É com as emoções já a tomarem conta de nós que damos os primeiros passos por esta casa cuja história se escreve à volta de duas escadas em meia-lua que ligam o piso superior, de aposentos grandes e arejados reservados aos “senhores” e aos negociantes de escravos, ao piso térreo onde, à volta de um pátio, se perfilam minúsculas e sombrias celas para onde eram atirados e separados homens, mulheres e crianças à espera de serem negociados. Gente empilhada e acorrentada que tinha sido retirada por europeus e por outros africanos das entranhas da sua África e que aqui apenas tinham duas saídas: a morte ou a “Porta Sem Retorno”, uma pequena porta aberta diretamente a um mar infestado de tubarões ou às naus para seguirem em direção do Brasil, das Caraíbas ou da América, e aí continuarem na sua condição de escravos.


Por aqui, por estes espaços, continuam a difundir-se as sombras e os espíritos dessa gente entre paredes marcadas pelo desespero, onde parecem ainda ecoar os gemidos e os gritos, agora mudos e nus, daqueles a quem um dia foi negada a condição de “Ser Humano”.
Por nós, passam imagens de grilhões, bolas de ferro e máscaras metálicas. Em silêncio e incontornavelmente em reflexão, continuamos a olhar para esses espaços onde um dia se pesava e avaliava pessoas como se de gado se tratasse, onde se decidia quem era atirado ao mar e quem partia para o outro lado do Atlântico. Assim como percorremos essas pequenas masmorras onde o preço do homem era marcado pelo seu tamanho, enquanto o das mulheres pela sua beleza e das crianças pelo seu estado de saúde.
Tranquilamente entre baobás e o odor das acácias
É com o coração pesado que deixamos a “Casa dos Escravos”, que passamos das trevas do passado para a luz do presente que faz realçar as cores das paredes em tons pastel entre o odor das acácias, das cameleiras cheias de flores rosadas e o ar quente que teima em acompanhar os nossos passos.
Agora, tudo está calmo na ilha de Gorée, mesmo que ali ao lado um grupo de rapazes lutem por uma bola num “estádio” de futebol feito de terra batida demarcado num lado por um muro que nos permite ver roupas marcadas pelo tempo e pelo uso suspensas a secar numa corda, e no outro por mais casas coloridas que se abrem a lojas de artesanato, enquanto sob a sombra de um baobá se estende uma banca onde mulheres entre conversas vendem bananas, abacaxis, mangas, peixe acabado de desembarcar e algumas verduras. Aqui, a vida é tecida de uma forma calma, simples e harmoniosa pelos gestos, quase que criativos, de quem nos vê passar.
E seguimos por outras ruas de uma ilha onde não há carros. Voltamos a ver a praia onde continuam crianças a brincar. E as muralhas da fortaleza. Subimos por mais uma rua apertada entre as paredes de mais alguns testemunhos da arquitetura colonial que ajudam a criar essa imagem de um postal ilustrado até nos encontrarmos com o planalto de Castel, onde se ergue uma estátua que homenageia a libertação da escravidão. É esse planalto que nos encaminha para a fortaleza onde podemos olhar o Memorial de Gorée, outro local de homenagem e reflexão, que abriga o Centro Internacional de Memórias, um museu dedicado aos direitos humanos e ao diálogo entre os povos, e a partir da qual podemos desfrutar de uma vista panorâmica de toda a ilha e estender o olhar até Dakar que, lá ao fundo, parece submissa perante os encantos e as histórias da História que se contam e se sente em Gorée.
Mas há uma hora, marcada por um magnetizante sol, que nos diz que temos que partir, que temos de deixar para trás esta ilha que, apesar da história brutal e desumana que viveu, parece evocar o perdão em cada pétala de acácia. Talvez a forma mais bela de nos pedir para que não esqueçamos essa mesma triste história da Humanidade.
Leia a 1ª parte da reportagem sobre o Senegal, aqui.
O Turisver viajou para o Senegal a convite da Soltrópico, operador turístico do Grupo Newtour.









