São Tomé: Em ritmo “leve-leve” pela “ilha do chocolate”
A convite da Solférias, que contou com o apoio da STP Airways, do grupo Pestana, da Privilege Tours, empresa de incoming responsável pela receção, acompanhamento e programação desta viagem, e ainda do grupo HBD, a Turisver, na companhia de 10 agentes de viagens, andou por uma ilha que faz parte do arquipélago de São Tomé e Príncipe, o marco 0 do planeta Terra aninhado no Golfo da Guiné e no coração do Atlântico, esse lugar onde do Equador e o Meridiano de Greenwich se cruzam, por uma ilha que dá pelo nome de São Tomé.
Por Fernando Borges
Há no ar um quase permanente odor doce a manga, a goiaba, a cajamanga ou a tamarindo que, aqui e ali, se mistura com o do chocolate e do mar salgado, entre um intenso verde luxuriante, imponentes imbondeiros e ocás, essa árvore com que se fazem as pirogas que partem para a pesca no mar, de plantações de cacau, de gigantes orelhas-de-elefante ou de frágeis rosas-porcelana. E é entre estes odores e trilhos de terra batida de cor castanho avermelhado que se parte à descoberta e encontro com esta ilha onde a beleza é intemporal e com um sedutor património herdado da época colonial, formando um conjunto de imagens que convidam à evasão enquanto nos contam histórias de autenticidade e de vida.

Mas a melhor forma de a conhecer, de sentir a sua essência, é deixarmo-nos ir ao ritmo do “leve-leve”, essa maneira suave e despreocupada como somos recebidos pelas suas gentes e nos mostram a sua ilha, uma viagem que pode começar pela sua capital, São Tomé, recheada de muitos tesouros arquitetónicos que nos contam séculos de história, como o Forte de São Sebastião, um edifício amarelo do século XVI que continua a marcar a paisagem da cidade e a Baía Ana Chaves, um edifício que por falta de “piratas” já não precisa defender a cidade e que com o tempo se transformou em Museu Nacional, um lugar onde são contadas histórias através de vários objetos originais e obras de arte que nos transportam para um período que vai desde a chegada dos portugueses, quando esta ilha ainda não conhecia a presença humana, até à época colonial e ao início da plantação de cacau.



Enquanto isso, ali ao lado, erguem-se outros edifícios que são símbolos de um passado colonial, como o palácio que durante séculos foi habitação de sucessivos governadores da ilha para ser hoje o palácio presidencial, ou a majestosa Sé Catedral de Nossa Senhora da Graça, enquanto que, desenhando ruas e praças, se vão descobrindo outros edifícios que evocam épocas passadas, como as velhas casas senhoriais que pertenceram aos senhores das roças, muitas delas deixadas ao abandono e à degradação provocada pelo tempo, pelas chuvas e incúria dos homens, mas que continuam a ser, também elas, testemunhos históricos e culturais de um povo. Um povo que se anima entre esplanadas e cafés, ao longo da marginal, nas praças e ruas, das estradas, para se tornar mais esfuziante no mercado municipal, quase todo ele ao ar livre, onde, entre roupas coloridas, gestos e palavras animadas pelos ritmos do ússua e socopé, o género musical tradicional da ilha, se misturam as cores e cheiros de frutos tropicais com o do peixe seco salgado e das especiarias.
Reflexos feitos de histórias e tradições
Este talvez seja, porque aqui já “bebemos” e sentimos algum do sentir e da cultura de São Tomé, o melhor ponto de partida para a descoberta do que muitos dizem ser o principal postal ilustrado desta ilha que tem como apelido “chocolate”; a sua beleza natural e as paisagens deslumbrantes compostas por montanhas, praias e muito, muito verde. Paisagens que se unem para criar cenários perfeitos para os amantes da natureza, entre a “selvagem” serenidade de uma extravagante floresta que cobre montanhas, a tranquilidade das areias das praias onde o exotismo nos diz que esta é também uma ilha tropical feita de aldeias autênticas impregnadas de tradições.




E assim, no meio destes cenários “exageradamente” belos, atravessamos rios onde mulheres lavam e estendem as suas roupas nas verdes margens, enquanto “bandos” de crianças se entregam às suas brincadeiras e os homens preparam as suas embarcações feitas do tronco de um ocá para partirem para mais um dia de faina no mar. E assim nos encontrarmos com São João dos Angolares, uma pequena vila que conta uma das principais páginas da história de São Tomé e Príncipe, as que nos falam desse dia em que um navio negreiro vindo de Angola naufragou perto da costa libertando centenas de escravos que encontraram refúgio nesta região remota para se tornar numa área de liberdade durante vários séculos, um episódio que permanece gravado na identidade cultural dos seus habitantes. Mas foi também aqui, nesta vila com um passado único, que os portugueses criaram uma comunidade que serviria de exemplo para muitas outras onde, entre edifícios coloniais, hospital e escola no meio das roças de café e de cacau, comunidade que continua a refletir esse passado numa mistura de história, resiliência e património, fazendo deste lugar um destino cativante para quem deseja explorar a alma autêntica de São Tomé.
Por caminhos ao encontro de “extravagâncias” da natureza
Mas há sempre, no meio do generoso verde que inunda esta ilha, mais uma praia, mais uma roça para nos contar mais histórias, mais um rio onde se lava e seca roupa, mais um lugar feito de um passado rico com os seus vestígios históricos e autenticidade. Lugares como Neves, atravessado pelo majestoso Rio Lembá e que cativa pelo seu cenário pitoresco e reputação culinária; Guadalupe, uma pequena vila que é porta de passagem obrigatória para quem pretende explorar as riquezas naturais e culturais desta ilha “perdida” no meio do oceano, como a Roça Agostinho Neto; ou Santana, uma pequena vila que é, também ela, testemunho de muitas histórias de um passado feito de navegações e de cacau, e onde hoje se encontra, sobre as areias de mais uma encantadora praia, um dos mais luxuosos e desejados resorts de São Tomé, o Club Santana Beach & Resort.
Mas, para aqui chegar, ou a outro qualquer lugar, acontece obrigatoriamente um encontro constante com outras seduções da natureza, como a Cascata São Nicolau que, após uma vertiginosa queda de 20 metros, atira as suas águas estrondosamente sobre a terra para formar uma pequena piscina natural aos nossos pés, para depois passar por baixo de uma velha ponte que serve como varanda e a partir dela podermos admirar este momento de rara beleza e de demonstração da força da natureza.


E parte-se mais uma vez. Agora para bem ali ao lado, para bem perto do Monte Café, onde encontramos mais uma roça, a Roça da Saudade, e a Casa Museu Almada Negreiros, um artista multidisciplinar português que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas e à escrita, uma figura ímpar no panorama artístico português do século XX que nasceu e viveu o início da sua infância nesta casa que agora é um espaço dedicado à arte e à cultura, parte de um projeto que promove simultaneamente a educação social, cultural e oficinal das crianças da localidade, o turismo cultural e o desenvolvimento da região, um espaço que conta ainda com um restaurante com uma privilegiada vista sobre uma intensa natureza verde onde, entre uma decoração ”nativa”, se faz a degustação requintada da gastronomia saída dos produtos locais.
Sim, talvez seja por tudo isto, e por muito mais que não cabe em palavras, que também a esta “ilha do chocolate” chamem de “Éden Africano”.

















