Ricardo Cardia: “Temos as condições para conseguir superar os objetivos da empresa” em 2023
A filial da Viagens El Corte Inglés em Portugal deu por terminada a sua reorganização interna, tendo em vista o seu reposicionamento no mercado. O Turisver falou com Ricardo Cardia, diretor-geral da Viagens El Corte Inglés em Portugal, sobre a nova organização, os objetivos que se pretendem alcançar com as alterações introduzidas e sobre o novo rumo a seguir.
Quando assumiu as funções de diretor-geral da Viagens El Corte Inglés em Portugal, já encontrou uma casa em pleno andamento?
Sim, encontrei uma casa em pleno andamento, com definições muito específicas daquilo que pretendiam fazer mas muito desconectada daquilo que era a realidade das mudanças em Espanha, que tinha uma nova gestão, vinha de uma fusão, e criou uma nova identidade de negócio. Por isso, o importante foi perceber a casa e, vindo eu de uma outra realidade, tentar encontrar uma forma de me juntar àquilo que era a realidade mais clássica da Viagens El Corte Inglés, aceitando tudo aquilo que de bom existia e tentando melhorar o que não estava tão bem.
Essa outra realidade de onde vinha era a Logitravel, uma agência de viagens online que é o pior demónio das agências físicas. Como é que isso foi encarado pela equipa que estava na empresa em Portugal, que é uma agência tradicional, física?
O que a minha entrada trouxe foi aquilo que de melhor existe na Logitravel, que é tudo menos um demónio, que é a dinâmica, a criação de oportunidades, agressividade, a possibilidade de em pouco tempo montarmos e fazermos acontecer coisas. Olhando para aquilo que é uma empresa um pouco mais estática, formada de algum classicismo prudente, o que viemos acrescentar foi alguma “maldade” mas não um demónio, esse está, muitas vezes, numa certa passividade, na pouca vontade de ir mais além, na pouca vontade de criar opções para avançar. Penso que aquilo que a empresa quis com a minha entrada foi somar aos bons profissionais que existiam, um pouco de agressividade e “maldade” que é importante para conseguirmos sobreviver dentro deste negócio.
Dotar a Viagens El Corte Inglés uma maior força, disponibilidade e visibilidade é o objetivo
O facto de existirem bons profissionais está refletido no novo organograma que divulgaram recentemente?
Sem dúvida. É fácil entrar numa empresa como a Viagens El Corte Inglés que tem uma posição estável, segura e credível dentro do mercado e achar que chegou o demónio – as palavras são suas – e vai criar instabilidade e achar que o bom é tudo o que está fora. Foi exatamente o contrário, o bom estava dentro, a história, a vontade, o amor pela empresa estava dentro, a única coisa que tive que fazer foi identificar e depois potenciar e hoje tenho a certeza que tomámos as decisões corretas para elevarmosaquilo que existia e vamos continuar a restruturar internamente para dotar a empresa de uma força, de uma disponibilidade e visibilidade que até agora não tinha.
No dia em que a administração do grupo o chamou e lhe disse que tinha um novo desafio para si, acreditamos que é capaz, as nossas exigências são…
As exigências foram, basicamente, replicar na empresa a estratégia que foi definida para um grupo. Não podemos esquecer que pertencemos ao maior grupo ibérico de distribuição de viagens, que temos seis mil trabalhadores, que temos a maior força de contratação e o maior produto disponível no mercado e o que me pediram foi aquilo que tentei fazer: ser humilde na gestão com pessoas, ser agressivo naquilo que são as nossas condições e ser competente no dia a dia, que é o que temos feito desde o início.
“O que pretendemos trazer para dentro daquilo que é o universo da Viagens El Corte Inglés em todo o seu esplendor é uma empresa disponível, feliz e que dê condições não só a quem trabalha mas também a quem quer vier a trabalhar connosco”
Costuma dizer-se que uma equipa nunca está fechada mas ao ser divulgado o organograma, o grosso do que vai ser a direção em Portugal, a vários níveis, está definido. O facto de não ter havido muitas alterações, valoriza quem estava já na equipa?
A ideia é exatamente essa. Apesar de entrar uma nova ideia, mais focada na rentabilidade e naquilo que é a maior empresa da Península Ibérica, a premissa inicial foi sempre a de aproveitar e dotar de todos os colaboradores de ferramentas que possam ser importantes para o seu desempenho, nomeadamente ferramentas tecnológicas mas também ferramentas emocionais que muitas vezes são colocadas em segundo plano. O que pretendemos trazer para dentro daquilo que é o universo da Viagens El Corte Inglés em todo o seu esplendor é uma empresa disponível, feliz e que dê condições não só a quem trabalha mas também a quem quer vier a trabalhar connosco.
Olhando para o novo organograma, como é que pretendeu potenciar determinados departamentos?
Quando entramos numa empresa com 28 anos em Portugal, não olhar para o passado é não fazer um plano para o futuro e não olhar para as pessoas que têm disponibilidade para continuar com a mesma luta e a mesma vontade que tinham no primeiro dia. Nesse sentido, criámos a ideia de ter dois elementos da direção que possam dotar a empresa daquilo que cada um faz melhor e para o que tem melhor disponibilidade e competência. Depois, criámos a figura do diretor de rede porque um diretor-geral ou um departamento transversal pode apoiar mas não de decidir e nós neste momento, com um mercado dinâmico e muito forte, necessitamos de uma decisão, um acompanhamento e um carinho mais presente. O diretor de rede é uma pessoa que há 22 anos que está na empresa, há 22 anos que se dedica a 100% e a ideia é que dê todo o acompanhamento, ao nível dos desafios do dia a dia mas também ser a presença da direção, no sentido de poder apresentar questões e soluções que nos possam ajudar na nossa decisão.
Com a saída do Angel Dominguez, que é um histórico da empresa, que teve a sua função na Viagens El Corte Inglés em Portugal durante mais de 20 anos, a empresa achou que nesta altura fazia sentido refrescar ideias, refrescar decisões e refrescar equipas e, essencialmente, refrescar tudo aquilo que é o nosso poder negocial junto dos nossos clientes e dos nossos potenciais parceiros.
Nesse sentido, acabámos por levar para a direção de Business Travel uma das pessoas mais importantes da casa, tecnicamente perfeita, uma pessoa que tem um grande conhecimento do universo Viagens El Corte Inglés e tem uma dedicação e uma gestão operacional inequívoca e que irá dar todo o apoio a esta nova fase que será essencialmente operacional, serviço, consciência daquilo que é a necessidade do cliente porque angariar, baixar, fazer descontos, não será, decididamente, o nosso futuro – nós queremos ter clientes, sejam Business Travel, sejam clientes individuais, que acreditem na marca, no serviço e, essencialmente, naquilo que podemos oferecer e que não é só preço mas um conjunto de serviços que desde a primeira hora caracterizaram a marca.
Na área do produto reorganizámos totalmente o departamento, achámos que precisávamos de “músculo”, dinamismo, decisão e coordenação. Contratámos uma pessoa de fora, que vem do universo Logitravel e que trabalhou comigo durante os últimos anos, uma pessoa em quem tenho uma confiança total, nomeadamente na sua capacidade de ter um olhar diferente sobre a operação, a gestão de pessoas, e a possibilidade de levar este departamento a uma outra dimensão. Unificando os departamentos de marketing e produto, vamos ter também aqui uma maior agilidade na decisão, que era algo que nos condicionava e tornava os processos mais demorados.
Acredito que uma das primeiras coisas que fez, para além de olhar para a equipa que ia dirigir, terá sido olhar para os balanços comerciais dos anos anteriores, nomeadamente de 2019. Quando olhou para esses números o que é que sentiu? Que havia muito para fazer, muito para crescer?
Senti que era a realidade que ia ter, ou seja, o trabalho que foi feito foi com as ferramentas, com as ideias e com a estratégia que era implementada na altura. A partir do momento em que eu entro, os pressupostos são outros, mas todos se disponibilizaram, por um lado, a ajudar a empresa a melhorar e, por outro, a encontrar uma cultura que pudesse ser mais interessante, mais feliz e mais rentável.
Este verão correu dentro da perspetiva que já existia?
Penso que todos nós fomos muito defensivos nos orçamentos que fizemos para 2022. O orçamento foi feito antes da fusão mas, mesmo no que foi feito depois, aquilo que sentíamos é que era muito difícil orçamentar porque a cada dia acontecia uma coisa nova que vinha alterar um pouco aquilo que era a nossa ideia e por isso fomos bastante conservadores. Hoje, o que podemos dizer é que cumprimos com aquilo que era o nosso orçamento para 2022, baseado no que tinha sido feito para 2019, mas acreditamos que podemos fazer muito melhor, e naturalmente que para 2023, com uma ideia mais concreta, estando nós já mais estabilizados, temos as condições para conseguir superar os objetivos da empresa.
Amanhã, no Turisver.pt pode ler a segunda parte da entrevista a Ricardo Cardia, diretor-geral da Viagens El Corte Inglés em Portugal, onde são abordados, entre outros temas:
- Estratégia de expansão
- Objetivos para o segmento business travel
- Mudança de paradigma ao nível do produto
- Programação própria


