Príncipe: Uma ilha no “meio do mundo” com cheiro a cacau
Fica no Golfo da Guiné, bem junto ao ponto onde as linhas que separam o oeste do este e o norte do sul se encontram. É o ponto ‘0’ do nosso planeta. É uma ilha onde a brisa quente do mar, uma exuberante vegetação e um quase permanente odor a cacau e a café escolheram para se abraçarem. Chama-se Príncipe, a segunda parte de uma fam trip da Solférias ao arquipélago de São Tomé e Príncipe, da qual a Turisver fez parte.
Por Fernando Borges
Poucos minutos tinham passado desde que o Jet Stream 3200 da Sevenair tinha deixado a naturalmente excêntrica ilha de São Tomé quando, lá em baixo, rodeado pelas águas do Atlântico, se começava a vislumbrar um pedaço verde rodeado de azul, um verde que cada vez mais se ia aproximando de nós, começando a revelar uma tonalidade mais brilhante e exuberante, ora desenhando relevos montanhosos, ora delineando extensas linhas douradas das praias. Tudo dizia que estávamos a chegar ao nosso destino, à ilha do Príncipe.
E bastou abrirem-se as portas do Jet Stream para sabermos que estávamos no “meio do mundo”, onde o calor é “quente e suado”, onde a chuva “vem forte mas não dura”, onde nas florestas feitas de imbondeiros, bananeiras, ocás, abacateiros, mamoeiros, pitangueiras, acácias, árvores fruta-pão e cacaueiros, que marcam os limites de caminhos feitos de terra ocre, se instala a tal de garoa, essa chuva miudinha que faz com que o verde desta ilha seja particularmente viçoso, intenso e constante, um paraíso botânico que abriga mais de 700 variedades de flores e plantas, e 180 espécies de aves, muitas delas endémicas.


Talvez por esta bênção, o Príncipe seja igualmente a ilha onde, entre chuvas tropicais e o muitas vezes atónito ribombar de trovões, os dias pareçam fluir, mais do que na “irmã” ilha de São Tomé, entre o fatalismo e a paciência, ao ritmo dessa expressão tão sua, desse “leve, leve” que se alimenta da sensação de que existe um tempo onde os ponteiros do relógio não existem, de que este é um mundo distante de outros mundos.
Roças, um livro de história, cultura e resiliência
E é neste ritmo, que a cada minuto respirado vai tomando conta de quem chega, que nos encontramos com as casas de madeira sobre palafitas em tons pastel debutado ou com remendos de outras cores da sua “capital”, Santo António, que um dia se autoproclamou como a cidade capital mais pequena do mundo, uma aldeia de ruas onde quase nada se passa, a não ser o correr das crianças, o alegre saltitar pela estrada fora de outras crianças a caminho da escola, o passar de jovens mulheres com os filhos pendurados nas costas enquanto transportam à cabeça alguidares carregados de roupa acabada de lavar ou de coloridos frutos. Também há a presença dos homens que descansam, após mais um dia de faina no mar, à porta de um improvisado bar feito de tábuas entre conversas acompanhadas de um copo de vinho de palma, de uma aguardente destilada a partir da cana-de-açúcar ou de uma cerveja Rosema, a cerveja nacional, uma aldeia “cercada”, também ela, pela densa floresta e por uma baía onde repousam canoas feitas dos troncos de ocás, uma figura sempre presente em qualquer olhar.



Também se parte ao encontro do que faz com que a ilha do Príncipe esteja declarada pela UNESCO como Reserva da Biosfera, uma reserva que envolve o Roça Sundy, um dos três hotéis do grupo HBD Príncipe na ilha, um hotel que recuperou das ruínas o que foi a casa senhorial de uma roça de cacau, a sua galeria, os seus belos azulejos, os tetos e escadaria de madeira, as varandas, terraços e os jardins que se perdem entre folhas de bananeira e a fantástica vista que se tem para lá das plantações de cacau que teimam em existir.


Daqui, há também a visão que vai para lá dos telhados de edifícios à espera de serem recuperados e de outros já reabilitados para continuarem a contar histórias de outros tempos, da escola onde crianças entre correrias e brincadeiras também aprendem, do edifício da fábrica de chocolate orgânico Paciência, das paredes de um baluarte que em tempos tinha um sino pendurado que tocava anunciando que era hora dos escravos se reunirem no pátio em frente do casarão do senhor da roça para serem contados antes de partirem para as plantações ou delas regressarem, o mesmo baluarte onde também se prendiam os cavalos que puxavam sobre carris vagões carregados de cacau e protegia outros edifícios que agora compõem uma comunidade, parte de um programa marcado pela sustentabilidade ambiental e social, sem esquecer as tradições de quem ali vive, uma comunidade que tem como nome Terra Prometida.
E ali uma praia. E ao lado outra praia e mais outra…
Tudo o que nos rodeia parece ser mais um cenário do romance Equador, de Miguel Sousa Tavares, desafiando-nos a partir ao seu encontro. A partir por estreitos e íngremes caminhos feitos de pedras e de terra igualmente ocre que nos leva até à Praia Sundy, onde por entre uma densa vegetação se escondem as 15 vilas do Sundy Praia, o mais exclusivo dos hotéis do grupo HBD Príncipe na ilha, realçado pelo restaurante Oca, em formato de baleia, pela construção em bambu e pela cozinha marcada pelos produtos locais onde a criatividade do chef ganha um relevo especial, como a sopa de abóbora com sementes de abóbora, beringela gratinada com matabala palha, pintado de coco com barracuda grelhado ou uma deliciosa mousse de abacate com sorvete de fruros vermelhos, um restaurante também ele bem junto às areias de uma praia percorrida por palmeiras e águas azul-turquesa. Ou seguir por outros caminhos que nos levam até à Praia Banana, a mais famosa praia do Príncipe, mesmo ao lado de outro hotel HBD, o Roça Belo Monte, um hotel tranquilo que surgiu da recuperação de uma antiga plantação de cacau.
Mas há sempre mais um caminho que nos espera para nos surpreender. Como o que termina no Bom Bom, o mais conhecido e emblemático hotel HBD neste paraíso terreno, composto por 17 bungalows integrados, também eles, no interior de uma densa floresta mas com os “pés” na praia e parte do projeto do grupo que envolve a comunidade e a proteção da biodiversidade. Assim como há os que nos revelam a Praia Grande, a preferida pelas tartarugas para desovar, a Praia Boi, a Praia Macaco e a Praia Margarida, um criativo trabalho da natureza pensado para oferecer tranquilos mergulhos em águas onde a única companhia que muitas vezes têm é a da permanente floresta verde.
Porque o Paraíso existe e chama-se Príncipe
Sim, o Príncipe é um prodígio da imaginação e criatividade da Mãe Natureza e que nos é revelado quando percorremos outros caminhos e trilhos que atravessam terrenos montanhosos com os seus vestígios vulcânicos, como o Pico Papagaio, ou os que terminam junto a uma praia onde um pequeno barco nos espera para nos levar num passeio marítimo até à Baía das Agulhas, revelando o deslumbrante recorte no horizonte das montanhas da ilha contra o azul do céu, um passeio que é uma das atividades imperdíveis para quem visita a ilha do Príncipe e que permite fazer snorkeling em águas profundamente cristalinas.
E o resto… é tudo isto. E generosamente muito mais; entre gigantescas árvores que emolduram paisagens deslumbrantes entre florestas benevolentes, flores que exalam aromas irresistíveis e cores excêntricas, as águas da cascata O Qué Pipi, ou entre vestígios misteriosos e abandonados daquela que foi a primeira povoação do Príncipe, a Ribeira Izé. E se alguém nos disser que existe um paraíso na Terra, acreditamos. Porque o conhecemos. Ele está ali, em pleno Atlântico, no Golfo da Guiné.
*O Turisver viajou para São Tomé e Príncipe a convite do operador turístico Solférias, integrado numa fam trip que contou como o apoio da STP Airways, do grupo Pestana, da Privilege Tours, empresa de incoming responsável pela receção, acompanhamento e programação desta viagem, e ainda do grupo HBD.


















