Preços na hotelaria começam a ser um constrangimento à atividade das DMC, considera Paulo Barroso da Luz da HighSun
Sedeada em Torres Novas, a HighSun DMC, fundada em 2025, caracteriza-se por construir experiências autênticas e personalizadas para os seus clientes aos quais providencia vários serviços à medida. O Turisver falou com Paulo Barroso da Luz, diretor-geral do DMC para saber um pouco mais da empresa, do seu trabalho e objetivos.
Como é que correu o ano passado para a HighSun DMC?
O ano passado veio na sequência dos anos anteriores, foi um ano em crescendo, de muito trabalho, mas com resultados positivos. Houve um forte investimento da nossa parte, com uma presença mais assídua em várias feiras internacionais. Investimos também internamente em recursos humanos, e continuamos nessa senda. Além disso, estamos a investir numa nova plataforma informática digital, que nos vai permitir obter melhores resultados já em 2026, se bem que existe uma preocupação latente este ano com os mercados internacionais.
Vocês têm uma área geográfica internacional privilegiada de atuação?
Em termos de mercados, trabalhamos a nível global, temos mercados que vão do Japão à América do Sul, passando obviamente pela Europa. No nosso arranque o primeiro grande mercado com que contactámos foi o chinês, numa ida à feira internacional de Macau.
O mercado asiático é um mercado que vocês já trabalham há muito tempo, ou é novo?
Temos vindo a crescer nesse mercado, se bem que os resultados ainda não são aqueles que nós mais gostávamos, mas achamos que neste caso é um mercado que se baseia na confiança, porque temos de ser nós a mostrar que somos uma empresa de confiança, que vai prestar um bom serviço, e que entrega aquilo que com eles contrata, nomeadamente no que diz respeito às refeições. Eles são cada vez mais exigentes e sabem que nós, em Portugal, temos uma oferta gastronómica diferenciada da deles, e a sua adaptação a essa cozinha não é a melhor, por isso procuram a garantia de que daremos aos seus clientes comida asiática, tailandesas, chinesa ou outras, dependendo das nacionalidades, e nós, felizmente, cada vez mais temos isso em Portugal. Mesmo a nível da hotelaria já estamos muito melhor a esse nível.
Os mercados asiáticos que vocês recebem, vêm encaminhados por agências espanholas, ou já vêm diretamente para Portugal?
Nós trabalhamos esses mercados diretamente, os tours é que estendemos a Espanha, porque em muitos casos o turista asiático viaja em média semana e meia, e não se desloca apenas para conhecer Portugal, quer ver mais, e aí temos tours que vão ao país vizinho, mas é a nossa empresa que acompanha toda a viagem.
Em termos de Portugal, quando apresentam os circuitos que têm, o que é que o mercado asiático mais procura visitar?
Diria que eles gostam de visitar um bocadinho a correr, gostam de ver muitas coisas em pouco tempo, não vêm tanto pelas experiências mas sim para conhecer e tirar muitas fotografias. São turistas bem diferentes dos americanos, que querem ter um conhecimento diferente, porque eles não têm história, não têm um índice de cultura como nós temos e, portanto, quer em Portugal, quer em Espanha, procuram coisas mais culturais como os monumentos.
“Como participamos em muitas feiras, em muitos workshops, às vezes há um cliente que fica, que mantém contacto, que gera negócio, e depois nós tornamo-nos especialistas nesse mercado”
O que é que a HighSun DMC trabalha em termos de mercados europeus?
Trabalhamos um pouco os Países Baixos, a Bélgica, e a Inglaterra, basicamente. Os europeus que recebemos não vêm tanto em grupos, são mais individuais ou famílias, são clientes que procuram maior liberdade de movimentação, alugam uma viatura, com ou sem motorista, que a nossa empresa contrata.
Procuram sempre uma assistência muito personalizada em que lhes proporcionamos tudo aquilo de que necessitam, seja um hotel de 4 ou de 5 estrelas, seja motorista privado, ou um circuito partilhado. Há uma série de coisas que nós fazemos diferenciadas à medida das solicitações dos clientes.
Quais são as áreas que têm mais peso no vosso negócio?
As Américas, não só a América do Norte, mas também o Canadá, Estados Unidos, e um pouco da América do Sul.
Quando apontam para um país de origem dos turistas que querem receber, como é que fazem a escolha?
Por vezes tem a ver com as oportunidades que nós criamos. Como participamos em muitas feiras, em muitos workshops, às vezes há um cliente que fica, que mantém contacto, que gera negócio, e depois nós tornamo-nos especialistas nesse mercado.
Muitas vezes as empresas locais já sabem qual é o DMC especializado naquele país chamado Portugal, e entram em contacto para pedir preços. E muitas vezes nós também nos servimos disso para dizer ‘olha, nós já estamos a trabalhar com o vosso país, temos experiência nisto assim e assim, sabemos que os vossos clientes gostam deste tipo de alimentação, sabemos que gostam deste tipo de vinhos, e, portanto, estamos aptos para os receber’.
Quais são atualmente os principais constrangimentos à vossa atividade?
Eu diria que Portugal é um país maravilhoso ao nível do turismo mas é cada vez mais difícil para trabalhar, e isto porque as duas preocupações que sentimos não são difíceis de ultrapassar, mas poucas pessoas no turismo parecem estar interessadas nisso.
A primeira tem a ver com a falta de recursos humanos qualificados, com a necessidade ou a falta de formação. Temos cada vez mais imigrantes a trabalhar no turismo, mas na maioria das vezes não têm qualquer formação, não conhecem a nossa cultura, as nossas tradições, e não as conseguem passar aos turistas. Não tenho nada contra a entrada de imigrantes no turismo, mas é preciso dar-lhes formação e conhecimentos, temos que ensinar o porquê de se comer bacalhau e de onde é que vem, o que é o vinho verde e o vinho do Porto, o que representa a imagem do Cristo Rei…
A outra situação que já está a ser complicada é a questão dos preços na hotelaria, que têm que ser de alguma forma acompanhados, porque não há só turistas com muito poder de compra. Recebemos 30 milhões de turistas e não podemos pensar que todos estão dispostos a pagar muito – precisamos dos outros turistas também.
“… qualquer operador turístico tem gosto em trabalhar com um cliente que tenha uma capacidade financeira superior, mas também precisamos dos outros clientes, e há grupos que têm que ser organizados com um valor do retorno mais baixo, daí essa preocupação com o facto de estarem a abrir apenas hotéis de 4 e 5 estrelas nas grandes cidades”
Conversávamos há pouco e dizia-me que qualquer dia não há hotéis de 3 estrelas em Lisboa e no Porto, porque só se constroem unidades de 4 e 5 estrelas. É esse tipo de dificuldades que vocês hoje já sentem?
Eu penso que qualquer operador turístico tem gosto em trabalhar com um cliente que tenha uma capacidade financeira superior, mas também precisamos dos outros clientes, e há grupos que têm que ser organizados com um valor do retorno mais baixo, daí essa preocupação com o facto de estarem a abrir apenas hotéis de 4 e 5 estrelas nas grandes cidades. Além disso, há outros destinos a nível mundial que estão a posicionar-se com valores mais simpáticos.
Hoje já há muita procura por segmentos como o turismo religioso ou o enoturismo?
Claramente, o turismo religioso é um segmento muito interessante e a crescer. Associamos ao turismo religioso outros tipos de oferta, como a gastronómica e o enoturismo, porque nem todos os peregrinos se dedicam apenas à área religiosa, temos muitos que gostam de conjugar várias coisas na mesma visita e, portanto, cada vez mais existe uma segmentação muito interessante que nos permite fazer uma programação diferenciada.
Pelo trabalho que têm vindo a desenvolver, se dissesse que este ano só podiam escolher três feiras e mercados onde estar, quais eram os escolhidos, e porquê?
Das três feiras, uma delas já estivemos presentes, que foi na FITUR, a outra o WTM em Londres, e estaremos muito provavelmente também em Rimini, na Itália.
Na FITUR, em Espanha, pela forte ligação que tem com os mercados da América do Sul e pela proximidade que tem com Portugal. O WTM por ser uma feira internacional, com cariz global, onde já estivemos presentes também vários anos, e em Rimini, porque fizemos uma primeira experiência que correu bem, e ficámos com vontade de ir todos os anos – é uma feira mais pequena, muito focada e que proporciona um trabalho diferenciado.
Depois, temos alguns mercados nos quais queremos apostar, nomeadamente o Brasil, onde estamos a procurar novas parcerias. Portanto, com as preocupações que existem, eu diria que a aposta para 2026 é manter aquilo que fizemos em 2025, com o objetivo de crescermos.


