Nascido “num berço hoteleiro” Ricardo Rodrigues foi o vencedor do Xénio 2026 para o ‘Melhor Diretor de Alojamento’
Ricardo Rodrigues, do Marriott Cluster Salgados Resort, foi o vencedor dos Prémios Xénios 2026, iniciativa da ADHP, na categoria de ‘Melhor Diretor de Alojamentos’. Há 16 anos na hotelaria, o profissional que considera “uma enorme honra” ter recebido este prémio, confessou ao Turisver a aspiração, para a qual não coloca prazo, de vir a ser diretor de um hotel direcionado ao segmento de luxo.
Ricardo, o que é que representa para si ter sido distinguido como o melhor diretor do alojamento pela ADHP?
Para mim é uma enorme honra, tenho 16 anos de experiência na hotelaria, recordo-me quando estava a estudar, de acompanhar o congresso da ADHP e as nomeações, e sempre pensei que um dia seria a minha vez, e esse dia chegou.
A ADHP é uma associação de muito prestígio, e como disse ao receber o prémio, ‘success is never final’, e o próximo prémio espero que seja o de melhor diretor do hotel. Não estabeleci qualquer prazo para isso acontecer, mas passou a ser um objetivo.
O que é que o levou a abraçar esta área de trabalho?
Nasci num berço hoteleiro, o meu pai é chefe de cozinha, a minha mãe era governanta-geral, e desde sempre estive muito habituado a circular entre hotéis, entre as construções de hotéis, entre as aberturas de hotéis, entre quartos. Como pode imaginar, a conversa durante o jantar era sobre fichas técnicas de produção e quartos que ficaram por ser inspecionados. Portanto foi inevitável, o bichinho da hotelaria apanhou-me muito cedo.
Vive há muitos anos no Algarve? É da região?
Não, de todo. Nasci em Barcelos, o meu pai é de Vila Verde, e a minha mãe é de Barcelos, mas desde tenra idade que vivo no Algarve, mais propriamente em Quarteira. Tive uma breve passagem pelo Porto Santo, onde acompanhei o meu pai na abertura do Vila Baleira, em 2000, mas toda a minha vida foi passada no Algarve.
Hoje, depois de várias experiências, está num grupo internacional. Teve que alterar alguma coisa no seu posicionamento, na forma de agir e de liderar, por estar num grupo como a Highgate?
Absolutamente nada. Tenho 16 anos de experiência, grande parte dela com cargos de liderança e de chefia, numa propriedade icónica do Algarve, o Pine Cliffs Resort, o maior resort de luxo do sul da Europa, que apesar de ser uma companhia internacional é muito familiar, o proprietário tem uma ligação muito próxima da propriedade. Ao mudar para a Highgate, uma empresa com poucos anos em Portugal, que é uma subsidiária da Highgate dos Estados Unidos, o estilo do modus operandis e de liderança é diferente, temos que nos adaptar e foi isso que eu fiz. São três hotéis, três equipas diferentes, três marcas distintas, o produto é muito diferente de unidade para unidade, portanto, a adaptação foi inevitável e teve que acontecer.
Está na Highgate desde o início da aquisição das unidades nos Salgados ou entrou recentemente?
Gosto de dizer que entrei num comboio em andamento, entrei dia 1 de abril, tínhamos um mês para ter o hotel em condições e ter a autorização de abrir por parte da Marriott, mas a Highgate iniciou muito mais cedo, no final de 2022, início de 2023, e as propriedades começaram a ser renovadas em novembro de 2024.
“A minha missão é sempre proteger a reputação dos nossos hotéis, providenciando o melhor serviço de excelência e a melhor experiência aos nossos hóspedes, o que passa, também, por desenvolver o talento dentro da empresa para que isso aconteça”
Muita gente no setor do turismo, muitos dos nossos leitores, não sabe muito bem o que é a função de um diretor de alojamento. Como se exerce essa função?
O diretor de alojamento é a pessoa que tem que proteger a reputação do hotel, tem que proteger o cuidado a ter com o hóspede, e tem também que saber envolver as pessoas para que isso possa acontecer. O meu dia a dia nunca é igual, eu gosto muito de rotina mas é extremamente desafiante quando temos três hotéis diferentes, três posicionamentos diferentes.
A minha missão é sempre proteger a reputação dos nossos hotéis, providenciando o melhor serviço de excelência e a melhor experiência aos nossos hóspedes, o que passa, também, por desenvolver o talento dentro da empresa para que isso aconteça.
Quando se está num hotel 5 estrelas, paga-se por essas 5 estrelas e existe determinado padrão, e quando se está num 4 estrelas ou num hotel apartamento, as exigências serão de outro tipo, o que tem também a ver com o que o cliente paga. Destas 3 unidades, que são diferenciadas em preço e na qualificação, o padrão é igual para todos, ou o cliente do 5 estrelas é mais mimado?
O que é transversal a todos é a nossa missão enquanto hoteleiros, que é cuidar dos hóspedes e providenciar o melhor serviço para a sua estada, antecipar as necessidades, olhar para o guest journey e vermos o que é que conseguimos fazer.
Entramos aqui noutro debate, que é o que é o do luxo na hotelaria, e para mim, o luxo é um sentimento. Obviamente que num hotel cheio de mármores, recheado de flores naturais, com mobílias que vêm da Itália, com piscinas interiores, tudo isso cai quando o serviço não está lá, e esse serviço é providenciado pelas pessoas, por isso, apesar de termos um posicionamento diferente entre os três hotéis – temos o Marriot Residences, de 4 estrelas, apartamento, residencial – o que é comum a todos é que têm que servir o hóspede, e nós estamos cá para servir, por isso é que somos hoteleiros.
Obviamente que depois temos o Westin Salgados e o Algarve Marriott que, sendo unidades de 5 estrelas que, pelas especificidades das marcas, exigem muito mais daquilo que é a brand quality do que as branded residences, mas para nós, o hóspede é o número 1, a equipe é o número 1 e o negócio é o número 1 – as prioridades são sempre essas.
“O cuidado que nós temos, a nossa empresa, é que tenhamos a fundação, temos que ter equipa para que esta consiga ser a guardiã do que é o bom serviço, e o que são os standards de serviço, para que depois consigam replicar, ensinar e formar estes trabalhadores temporários”
O diretor de alojamento tem que ter a preocupação com o hóspede, desde que o cliente entra no hotel e vai para a receção, até à cama ser confortável para ele fazer o seu descanso. É assim?
É exatamente isso. Para o diretor de alojamento, é crucial conseguirmos agarrar o que é a jornada do hóspede, e essa jornada começa antes da chegada, cada vez mais a reserva é feita através do nosso website – a reserva tradicional pelo telefone cada vez está a cair mais em desuso -, e tem que haver aqui uma pré-chegada, seja uma chamada, seja um email, temos que antecipar tudo o que sejam as necessidades do cliente, ver se há upgrades se não há, a que horas é que hóspede chega, as suas preferências, se tem alergias, e durante a chegada temos que estar preparados para receber o nosso hóspede, fazer o acompanhamento ao quarto, que tem que estar com as especificidades pedidas. Depois, temos que acompanhá-lo durante a sua estadia e depois da saída também tem que haver um contacto, temos que garantir que todos os hóspedes estão satisfeitos quando saem do nosso hotel.
Em relação à área do alojamento, o quarto de hotel, propriamente dito, hoje muitas unidades, e penso que vocês também, trabalham com equipas de outsourcing, de empresas que lhes fornecem esse serviço. Tem que se ter um cuidado especial porque a equipa não é da casa, é uma equipa que vem de fora?
Principalmente num destino tão sazonal como o Algarve, em que vamos de 15%-20% de ocupação no inverno, e agora na Páscoa que é um pequeno verão, vamos atingir os 80-90% de ocupação, temos que ser honestos e reconhecer que o trabalho temporário é importante, porque os recursos humanos de mão de obra qualificada são cada vez mais escassos, e não é só em Portugal, é por toda a Europa.
O cuidado que nós temos, a nossa empresa, é que tenhamos a fundação, temos que ter equipa para que esta consiga ser a guardiã do que é o bom serviço, e o que são os standards de serviço, para que depois consigam replicar, ensinar e formar estes trabalhadores temporários.
Mas quem é que manda nessas equipas, por exemplo, para fazer quartos? Quem é que dirige e orienta diretamente essa equipa, principalmente quando estamos a falar de muita gente, dadas as dimensões dos hotéis que vocês têm?
Nós o que fazemos é, solicitar sempre colaboradores de trabalho temporário com alguma especificidade, se é para o F&B ou para a receção, o que não é tão comum, não basta só saber falar português, exigimos que fale inglês, que fale outros idiomas, que tenha alguma apresentação. Mais especificamente no housekeeping, onde a percentagem de trabalhadores temporários é superior, quem coordena estas pessoas é sempre a nossa equipa, seja a governante geral, sejam os supervisores de housekeeping, porque é crucial que essas pessoas sejam acompanhadas e que sejam ensinadas, porque eles não estão lá simplesmente para fazer uma cama, estão lá também para desenvolver esse talento.
“Gosto muito de trabalhar com marcas de luxo, em resorts de praia, ainda não tive a oportunidade de trabalhar num hotel de cidade, será também um dos meus objetivos antes de terminar a minha carreira, mas o meu posicionamento será definitivamente um hotel de luxo, não muito grande”
Já me falou da expectativa que tem de, um dia, poder vir a ser diretor-geral de uma unidade hoteleira. Disse que isso não está datado, mas traçou algum perfil de unidade que mais o atraia em termos de direção?
É como disse, não gosto de colocar prazos porque a vida dá muitas voltas. Tinha um objetivo quando saí do meu curso de hotelaria, o tipo de propriedade de que eu gosto e com a qual me identifico mais, são marcas internacionais, é algo que eu gosto de trabalhar, não porque no estrangeiro se faça melhor, mas sim porque nós temos de conseguir elevar também o posicionamento da hotelaria em Portugal através desta ajuda.
Gosto muito de trabalhar com marcas de luxo, em resorts de praia, ainda não tive a oportunidade de trabalhar num hotel de cidade, será também um dos meus objetivos antes de terminar a minha carreira, mas o meu posicionamento será definitivamente um hotel de luxo, não muito grande.
Fez a sua carreira no Algarve. A exigência que coloca para com as suas equipas, para com o serviço que é prestado ao cliente, gostava de ver isso transmitido ao Algarve, enquanto região, ou seja, quando o turista sai a porta do hotel, para dar um passeio, para ir a um restaurante fora da unidade?
Absolutamente, mais do que tudo é a autenticidade das pessoas, dos serviços e é isso que é importante, não é algo que se pratique e que se ensine nas escolas hoteleiras, nós focamos muito na técnica, focamos muito na maneira de servir, mas a realidade é que o turista o que procura é a autenticidade. Estamos agora em Elvas, e quero é saber como é que são as pessoas de Elvas, e enquanto turista, quando vou a um restaurante quero saber o que é que realmente se come no lugar que estou a visitar. Esta é a arte de receber que nos caracteriza enquanto portugueses, que caracteriza também o Algarve, isto apesar de agora haver na região um grande mix de nacionalidades a trabalhar no setor da hotelaria e restauração, mas mais do que bem servir é importante sermos autênticos, hospitaleiros a recebermos bem os nossos turistas.


