Miguel Ferreira explica porque é que o preço do transporte aéreo entre Portugal e o Brasil não desce
O balanço do que, até agora, correu do ano foi o ponto de partida para a conversa do Turisver com Miguel Ferreira, CEO dos operadores turísticos Exoticoonline e Destinos. Os objetivos para 2025, os constrangimentos que se colocam à operação turística e as ligações aéreas entre Portugal e o Brasil, destino que é o ADN da Exótico, foram outros dos temas “em cima da mesa”.
Miguel, estamos em meados de setembro, já é possível fazer um balanço do ano dos vossos operadores Exótico e Destinos?
Tanto na Exótico como no operador Destinos, estamos, até 31 de agosto, com um crescimento já acima de dois dígitos, por isso estamos a ter um bom ano. O operador Exótico tem tido uma retoma da procura do Brasil muito sustentada, mas também crescemos na Madeira e no Dubai.
E m relação ao Brasil, foi benéfico para a vossa operação – sei que trabalha muito com a TAP -, haver mais companhias a voar e mais voos entre o Brasil e Portugal?
O facto de, para além da TAP, termos mais companhias a voar entre os dois países, acaba de ser benéfico para o mercado. Se bem que os voos diários da TAP permitem-nos ter uma versatilidade de produto, em que escolhemos os dias de embarque e o número de dias que os clientes querem permanecer no destino. As companhias aéreas brasileiras, no início da sua operação entre o Brasil e Portugal, tinham operações limitadas no tempo, por norma trimestrais ou semestrais, o que nos condicionava. Atualmente, a Latam aumentou as frequências e a Azul também está a aumentar.
Hoje em dia há mais voos entre o Brasil e Portugal, o que quer dizer que o número de lugares também aumentou. A concorrência entre companhias aéreas nestas rotas fez baixar o preço das tarifas aéreas?
Não, o preço médio mantém-se, porque embora a oferta tenha crescido de Portugal para o Brasil, cresceu muito mais do Brasil para Portugal, o que faz com que os preços do transporte aéreo nestas rotas não tenham grandes oscilações.
“Desculpe interromper mas queria deixar claro que a Exótico sempre foi o único especialista do Brasil em Portugal, o que é diferente da formulação da pergunta. Nós sempre fomos os especialistas no Brasil e vamos agregando outros destinos”
Ainda em relação às vendas da Exótico para o Brasil: venderam mais porque há mais portugueses a viajarem para o Brasil no global da tour operação, ou foram buscar quota de mercado a outros players?
Em relação à Exótico, fez agora um ano que lançámos a nova plataforma de vendas online, e esse é um dos fatores que possibilitou e motivou o crescimento, uma vez que passámos a estar disponíveis online, e no sistema antigo e com a pandemia isso não acontecia e estávamos menos bem.
Desta forma, passámos a disponibilizar um conteúdo Brasil onde propomos mais de 90 programas com circuitos no destino, como combinados entre cidades, ou seja, temos uma abrangência de oferta do produto final Brasil ao mercado que não tínhamos.
Vocês sempre foram especialistas do mercado do Brasil em Portugal …
Desculpe interromper mas queria deixar claro que a Exótico sempre foi o único especialista do Brasil em Portugal, o que é diferente da formulação da pergunta. Nós sempre fomos os especialistas no Brasil e vamos agregando outros destinos.
Hoje em dia, tirando o José Manuel Antunes, não há ninguém mais antigo. Há 30 anos que trabalho o mercado do Brasil, comecei na Master Turismo, depois foi a Convencional e a Exótico vai fazer 18 anos em 2026, atinge a maioridade.
No Brasil, para onde é que os portugueses estão viajar para mais?
Salvador da Bahia é o carro-chefe, é o destino principal. Alagoas tem vindo a subir muito graças ao excelente trabalho que as entidades oficiais do Estado têm feito no mercado português – há que salientar isto porque é um bom exemplo.
Mas Alagoas tinha uma hotelaria fraquinha até há poucos anos. Houve melhoria?
Muita. A abertura do Vila Galé veio dar uma amplitude e um produto que não havia até então, estávamos muito limitados a hotéis mais urbanos, em Maceió, e hoje já temos todo o litoral da Barra de São Miguel, toda a Barra de Santo António. Desde que abriu o Vila Galé, aquela zona melhorou muito, passámos a ter um produto de alto padrão de qualidade, o que veio agregar qualidade ao destino, e não apenas quantidade.
“Nem tudo o que é grande é bom. Mas passando a piada, a questão é que não há ninguém que esteja consecutivamente há 18 anos no mercado, a vender o mesmo destino, mesmo quando ele está em baixa”
Vender mais nem sempre significa ter mais rentabilidade. No vosso caso, conseguiram as duas coisas?
Tem que estar uma coisa indexada à outra, é regra do nosso grupo. Em bom português não trabalhamos para aquecer. Tem que haver equilíbrio entre o risco operacional, a escolha do produto, e o serviço entregue ao cliente.
Quando se fala da Exótico, muitas vezes as agências de viagens têm a ideia de que se trata de um operador minúsculo, e algumas até nem sabem que está há tantos anos no mercado. Como é que reage a isto?
Nem tudo o que é grande é bom. Mas passando a piada, a questão é que não há ninguém que esteja consecutivamente há 18 anos no mercado, a vender o mesmo destino, mesmo quando ele está em baixa. Ou seja, nós, como especialistas no destino mantemo-nos há quase 18 anos no mercado.
Nas épocas que se ouve falar mais da Exótico é quando colocam no mercado as programações para o final de ano e para a Páscoa…
Se analisarmos o mercado, também é no verão que se fala dos grandes operadores, que é quando há mais operações. Nós temos operações em determinados períodos do ano em que os nossos destinos são procurados, e depois chegamos ao verão e aparecemos menos com essas operações, porque o Brasil não se vende muito no nosso verão porque lá é inverno.
A Exótico tem participado, ao longo de vários anos, nas operações charter do final de ano para o Brasil. Pensa que os charters hoje em dia já faziam sentido no nosso verão?
Participamos há 16 anos consecutivos nos charters de fim do ano para o nordeste brasileiro, que fazem todo o sentido e por isso tem sido um sucesso, mas para mim
não faz sentido haver uma operação charter de verão, principalmente pela oferta que temos por parte da TAP, da Latam e da Azul. Nós não temos procura no mercado que permita manter uma operação de 52 semanas no Brasil.
Como é que o Dubai passou a ser um destino importante para a Exótico?
O Dubai foi o primeiro destino que nós lançámos, até foi Ras al-Khaimah, que é um dos sete Emirados, e que não estava no mercado. Já se tinha tentado fazer uma operação charter anteriormente, e nós pegámos no Ras al-Khaimah, e a partir dali veio o Dubai. Mas o que é importante salientar também é que temos lá um escritório próprio do grupo MTS, e nós tentamos sempre potenciar destinos onde temos recetivos próprios, escritórios próprios.
A Madeira é um destino também com muitos anos de trabalho?
É um destino que se vende o ano inteiro. Apesar de não ser um destino barato, é um altamente qualificado, tem procura o ano inteiro, e tem a vantagem de estar a uma hora e meia de voo, ou seja, é um destino de short break.
Temos um período de grande procura pela Madeira que é o réveillon, penso que nesta época temos três ícones mundiais, a Madeira, o Rio de Janeiro e Sidney, pelos grandes espetáculos de fogos de artifício que apresentam aos turistas.
Qual é o vosso objetivo de crescimento para este ano?
O nosso objetivo final é, como todo empresário, apresentar rentabilidade, mas o nosso foco principal é acabar o ano sem reclamações, e posso dizer que até ao dia de hoje temos zero reclamações. O nosso foco é o serviço que entregamos ao cliente, o atendimento que damos ao agente de viagens, dar mais condições e mais segurança aos nossos passageiros, como fizemos recentemente com o upgrade aos nossos seguros.
“Pela legislação vigente em Portugal, só podemos vender a quem tem RNAVT, e quem tem RNAVT são as agências de viagens”
Vocês aceitam vendas de freelancers?
Não. Pela legislação vigente em Portugal, só podemos vender a quem tem RNAVT, e quem tem RNAVT são as agências de viagens.
E nós, antes de registarmos as agências – apesar de não haver uma forma de controlarmos isso, que é um constrangimento que os operadores sofrem – temos que ir permanentemente à página do Turismo Portugal ver se os seguros, inclusivamente, estão ativos ou não, porque ninguém nos informa quando uma agência está em cumprimento com o seguro de responsabilidade civil perante o Turismo Portugal. Não há qualquer informação.
Por isso, a parte dos comissionistas, dos freelancers, chamemos-lhes o que quisermos, tem que estar sempre associada a um RNAVT.
A Exótico está num processo de certificação. Em que ponto estão para obterem o Certificado de Sustentabilidade?
A Exótico está muito próxima de atingir o nível partner, que é um dos principais. É uma aposta da empresa na sustentabilidade que está alinhada com as empresas do grupo onde estamos presentes. Não começámos este processo de certificação mais cedo porque como implementámos o site, andámos numa fase de muito trabalho e foi uma questão de prioridades.
A Certificação de Sustentabilidade Travelife, marca também a diferença para outras empresas concorrentes que estão no mercado. Posso adiantar que já há agências de viagens que nos perguntam se temos esta certificação, mas por vezes a nossa dificuldade é termos parceiros locais com certificações ou abertos a virem a ter, por isso tentamos passar-lhes a mensagem da sustentabilidade, o que num país como o Brasil é muito complicado.
Quais são as questões que mais gostava de ver resolvidas para facilitarem o trabalho do operador? O que é que está a prejudicar um melhor funcionamento?
O aeroporto de Lisboa é uma limitação também para nós. Às vezes temos operações pontuais, em especial grupos para que precisamos de fazer determinado tipo de operações, e torna-se complexo. O aeroporto tem problemas vai para cinco décadas e esperemos que não passe para mais uma década, porque realmente o aeroporto de Lisboa é mau para o outgoing e é péssimo para o incoming.
Vou dar um exemplo metendo-me numa área que não é a nossa mas que faz parte do turismo: hoje em dia, se tivermos uma família que vem em dois voos separados, ou um grupo 30 pessoas que chegam a Lisboa em dois voos, atingimos o ridículo de ter que operar com dois transferes, porque não sabemos quanto tempo demora a saída das malas nem dos passageiros, por causa das horas para passar pela UNEF [Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras].
E outros constrangimentos que sente?
Um constrangimento que nos afeta e que prejudica o nosso crescimento para destinos como o Brasil e outros que operamos, tem a ver com o facto de não podermos ter no mercado ofertas para determinados destinos, como ilhas paradisíacas, a serem vendidos com um preço médio muito mais baixo. Torna-se impossível competir com eles, até porque esses players têm companhias de aviação, grupos hoteleiros, e trabalham na base da consolidação. É por isso que procuramos outros destinos, ganhando competências nesses destinos e tornando-nos fortes para nos impormos pela forma de trabalhar.
Este ano o que provavelmente aconteceu foi que em julho e agosto tudo se vendeu, ou quase tudo, mas depois os meses de junho e setembro, que são as pontas das operações, foram difíceis e os preços praticados esmagaram o de outros destinos.
E o nosso destino Brasil, na comparação de preço, sai a perder. Basta ver que, por vezes, esses destinos paradisíacos surgem no mercado, em alguns períodos, com um preço final de pacote a ser mais económico do que só a tarifa do transporte aéreo para o Brasil. Mas é a dinâmica do mercado a funcionar.



