Margarida Matos presidente da ACONVIT afirma que para ser associado o consultor tem de ter “ligação a uma agência de viagens”
Constituída em julho do ano passado, a ACONVIT – Associação de Consultores de Viagens e Turismo tem estado a apresentar-se ao setor do turismo, nomeadamente, entidades oficiais e associativas, operadores e agências de viagens. Em entrevista ao Turisver, Margarida Matos, presidente da direção da associação, explicou o porquê da criação da ACONVIT e deu a conhecer os seus objetivos.
Como é que surgiu a ideia de criar uma associação para representar os consultores de viagens e turismo?
Surgiu com a junção de vários profissionais do turismo e de várias áreas, de pessoas interessadas, umas pertencem a agências, outras não, e percebemos que havia aqui uma debilidade no setor, ou seja, que havia um “elefante” no meio da sala que todos faziam de conta que não existia mas que estava lá. E a questão é mesmo essa, a criação da associação prende-se com a necessidade de regulamentar a proteção de todo o setor, seja dos clientes, dos consultores, das agências… e por isso é que esta associação é de pessoas para pessoas.
Como as notícias já começaram a sair, há quem tente buscar subterfúgios, dizer que tem a ver com agências mas nesta associação não há agências, cada pessoa é representada por si só, em seu nome próprio, e isto é muito importante dizer porque tem havido algum ruído em torno desta situação.
Portanto, foi a junção de várias pessoas que sentiam várias dificuldades e uma necessidade acrescida que é inegável: a figura de consultor de viagens existe, isso é inegável, já são muitas centenas, e não havia ninguém que os representasse, ninguém que os defendesse, e mais ainda, ninguém que os unisse ou pelo menos tentasse, na medida do possível, unir todo este setor. Os consultores de viagens existem e não vamos ignorá-los, não vamos fazer conta, é um bocadinho como os táxis e os TVDEs – eles existiam e não vale a pena ignorá-los.
Para além desse objetivo, o que é que podem acrescentar a quem vier a associar-se à ACONVIT?
Uma das coisas fundamentais é a formação, não falo só de formação sobre destinos, mas principalmente da formação de ética, da formação comportamental, porque é preciso dar credibilidade a esta profissão, a esta figura que existe.
Também é fundamental diminuir drasticamente o risco para os clientes, para os consultores, para as agências a que estão associados, e há a questão que tem a ver com o seguro de responsabilidade. Fala-se muito que os consultores de viagens estão por conta própria mas isso não é verdade, e um dos critérios para que um consultor possa ser associado da ACONVIT é estar efetivamente ligado a uma agência de viagens. Eu não posso ser consultor de viagens só porque sim, tem que haver algum vínculo, algum contrato, que responsabilize tanto o consultor como também a agência, obviamente.
Perante os fornecedores, a agência é que é responsável?
Claro que sim, por isso é que é importante haver este vínculo para responsabilizar o profissional, porque se nós queremos profissionalizar, se queremos dar formação e dar um seguro aos clientes para que estes se sintam mais confiantes em contratar, temos que dar as condições necessárias e dar um apoio transversal, na área de direito ou da contabilidade, por exemplo.
“O requisito fundamental, e obrigatório, é que ele tenha uma ligação a uma agência de viagens e que a agência certifique esse vínculo. Nós pedimos o comparativo, o consultor para se inscrever vai ter que comprovar que tem um vínculo, seja de tipo comissionista, seja de tipo consultor, associado a uma determinada agência, que tem aquele número [RNAVT] certificado pelo Turismo [de Portugal]”
Uma das questões levantadas pelas agências de viagens que ainda não trabalham com consultores tem a ver com os impostos, ou seja, um consultor de viagens tem que ter uma ligação com as finanças. É nessa parte que vocês ajudam?
Nós ajudamos porque um consultor de viagens recebe uma comissão, recebe um proporcional definido, e para isso acontecer ele tem que ter atividade aberta – é isso que queremos clarificar. Nós queremos que os consultores de viagens tenham uma ligação efetiva e clara às agências de viagens, que tenham atividade aberta, e que, obviamente, possam exercer a atividade, que estejam formados, que estejam seguros, porque isso é essencial.
Se me perguntar se qualquer pessoa consegue ser um consultor de viagens, eu digo que sim, mas são precisos outros requisitos, ou seja, qualquer pessoa pode ser consultor de viagens desde que tenha os conhecimentos, a consciência, a ética e todas essas coisas que são fundamentais em qualquer profissão, e nesta, obviamente, também.
A questão das finanças e dos impostos está muito clara e, obviamente, que ajudaremos nessas áreas, mas tanto quanto sabemos a maioria é obrigada a passar a recibos, porque se não o fizerem não têm sequer direito às comissões.
Falando agora para os consultores: quais são os requisitos necessários para que vocês admitam um associado consultor?
O requisito fundamental, e obrigatório, é que ele tenha uma ligação a uma agência de viagens e que a agência certifique esse vínculo. Nós pedimos o comparativo, o consultor para se inscrever vai ter que comprovar que tem um vínculo, seja de tipo comissionista, seja de tipo consultor, associado a uma determinada agência, que tem aquele número [RNAVT] certificado pelo Turismo [de Portugal].
Isso evitará uma questão que se levanta hoje em dia, que é a de que há um esquema em pirâmide?
Esse requisito vai, na nossa opinião, “obrigar” a clarificar o setor, a clarificar a profissão – isto não é nada contra ninguém, de forma nenhuma, tanto que nós abordámos as pessoas, as entidades e as instituições, para criarmos um comité consultivo. Nós não estamos numa ilha, queremos outros interlocutores, e quando comunicámos ao Turismo, às associações, às agências, foi exatamente esse apelo que nós fizemos.
Respondendo mais diretamente à sua questão, nas entidades que têm esse suposto esquema em pirâmide, esses consultores vão ter que mostrar um vínculo e um vínculo não pode ser só o uso de uma licença, tem que ser algo com substância.
“Sim, já comunicámos formalmente a constituição da Associação e um dos contactos que recebemos foi de uma associações de agências de viagens, da outra, lamentavelmente, não recebemos qualquer resposta, nem sequer acederam ainda a conversar connosco”
Diz-se que existem mais de 20 mil consultores de viagens hoje em dia. Tem essa ideia?
Não sei se são 20 mil mas seguramente são mais de 10 mil porque tem havido um grande crescimento, também devido à desmaterialização física das agências. Cada vez mais, as agências que têm sido constituídas têm sido as online e trabalham com consultores, e também cada vez mais as agências têm este figura, chamem-lhe consultores ou freelancers. Por isso esta é uma figura que é preciso legalizar, e é exatamente isso que nós queremos: legalizar, criar requisitos, criar critérios.
A associação tem tido muita gente a contactá-la? Quantos associados já têm?
Neste primeiro mês, optámos por comunicar aos órgãos do setor do turismo e contactar com os operadores turísticos, parceiros, agências que têm consultores que queiram juntar-se a nós porque, repito, a associação não é de agências, é de pessoas, e estas estão todas convidadas a participar, a melhorar, a contribuir.
Temos tido muitos contactos de apoio de muitos consultores de várias agências que nem sequer conhecíamos, e estamos a ultimar a questão da inscrição formal. Amanhã mesmo [quinta-feira] vamos ter uma reunião e vamos fazer um ponto de situação.
A ACONVIT já fez contactos com as associações de agências de viagem?
Sim, já comunicámos formalmente a constituição da Associação e um dos contactos que recebemos foi de uma das associações de agências de viagens, da outra, lamentavelmente, não recebemos qualquer resposta, nem sequer acederam ainda a conversar connosco. Nós vamos interpelá-los novamente, porque temos todo o interesse. Já soubemos, através da comunicação social, que foi convocada uma reunião em que pensamos que faria todo o sentido estarmos presentes e vamos sensibilizá-los, porque o que é preciso ficar claro, é que nós não somos inimigos de ninguém, nem de associações de agências, nem de agências, tenham ou não consultores. Não queremos criar inimizades, pelo contrário, fizemos um convite, um apelo a essas associações para conversarem connosco, em representação de todos os consultores.
Fizeram um contacto com os operadores turísticos, informando-os da vossa existência e também pedindo a colaboração deles. Já obtiveram respostas?
Já tivemos várias respostas de operadores, houve alguns a quererem juntar-se a esta causa, porque eles também lidam todos os dias com consultores de viagens através das agências de viagens, e têm todo o interesse em que estas pessoas estejam no mercado de forma transparente, certificada, têm todo o interesse em que tenham conhecimento, e sejam responsabilizadas.
Claro que, como em todas as profissões, haverá uma seleção natural, mas o nosso objetivo é darmos essa mais-valia aos consultores, e isso não é ir contra ninguém. Há mercado para todos e o setor vai ter de se adaptar aos tempos atuais. Os consultores existem, e há que perceber o que podemos fazer em conjunto, de forma clara. Há que combater o que está mal, como o caso dos esquemas em pirâmide que só descredibiliza porque nem todos os consultores nem todas as agências que têm que têm consultores de viagens têm esquemas em pirâmide. Na maioria trata-se de agências normais, que cumprem todos os requisitos legais e que ao invés de terem uma loja física funcionam online com consultores.
Está no vosso horizonte, para este ano, terem um contacto oficial com o Turismo de Portugal?
Sim, nós já comunicámos formalmente com o Turismo de Portugal e vamos dar aqui algum tempo para que eles possam dar-nos abertura. O que pedimos na comunicação que fizemos ao Turismo de Portugal foi que se sentassem connosco, que nos ouvissem, e acredito que vai acontecer.
Deixe-me dizer que nós temos um lema, que é o que praticamos nas redes sociais: “Por uma profissão reconhecida, protegida e com futuro!”.



