Luís Leote: “Estarmos inseridos no Parque Natural da Costa Vicentina impede-nos de crescer”
Para a Herdade do Touril, localizada em pleno Parque Natural da Costa Vicentina, o ano está a correr bem, os mercados internacionais estão a voltar e os resultados superam os de 2019, como disse ao Turisver Luís Leote, proprietário e administrador da unidade de turismo rural. Já quanto a 2023 Luís Leote tem dúvidas de que seja um ano tão bom como este por via da conjuntura internacional.
Como é que tem decorrido o ano em termos de procura e de ocupação para a Herdade do Touril?
O ano correu-nos bastante bem, melhor do que 2019 e o único mês em que sentimos algumas oscilações foi o mês de junho, em que as pessoas se concentraram muito nas segunda e terceira semanas, em torno dos feriados, enquanto a primeira e a última semanas foram mais fracas, até porque o tempo não ajudou, pelo que acabámos por ter uma ocupação mais baixa do que o habitual para a época.
Este foi também um ano em que fizeram novas parcerias e melhoraram a oferta ao cliente?
É verdade. Abrimos o nosso restaurante a clientes não hospedados, até porque a Zambujeira é uma zona carenciada de restaurantes. Temos uma parceria com a Tasca do Celso já há três anos que nos permite apresentar alguns pratos dele, além da nossa própria carta.
Devo dizer que esta abertura do restaurante a todas as pessoas em geral não correu como esperávamos, penso que as pessoas se sentiram algo intimidadas por terem que entrar na Herdade à procura do restaurante. Começámos a ter reservas, todos os dias temos alguns clientes de fora mas não tivemos aquele “boom” que todos os restaurantes da zona têm em julho e agosto. Isso permitiu-nos, no entanto, prestar um serviço de qualidade e acima da média, o que acaba por ser muito positivo.
Por falar em qualidade de serviço, sentiram dificuldade na contratação de pessoal?
Não tivemos porque temos uma grande ocupação durante todo o ano, acabamos por ter uma equipa o ano inteiro que tem uma base de 16 ou 17 colaboradores e quando chegamos ao verão acabamos por ter só mais quatro ou cinco pessoas para reforçar a equipa. A grande maioria já cá está, já conhece a casa e acabamos ter uma grande interligação e quem entra tem muita facilidade em funcionar com a equipa.
Antes da pandemia, a Herdade do Touril tinha passado por obras de ampliação. Cresceram em número de alojamentos?
Não crescemos em número de alojamentos mas de áreas comuns. Fizemos um “refresh” um ano antes da pandemia onde mudámos toda a decoração, e fizemos uma intervenção na área exterior alterando todo o aspeto, alterámos a piscina para água quente, fizemos uma oficina para bicicletas onde temos bicicletas elétricas e outras que não o são e fizemos uma melhoria do espaço, apostando numa vertente ecológica. Colocámos painéis solares para sermos autossuficientes e termos certificados ambientais, nomeadamente o da Biosphere.
Mercado estrangeiro é maioritário na Herdade do Touril
Relativamente aos turistas que ficam alojados na Herdade, houve alterações ao nível dos mercados de origem?
Houve alterações porque deixámos de ter tantos caminhantes. Nós estamos inseridos dentro da Rota Vicentina, somos parceiros da Rota desde o seu início e o agendamento dos turistas ao nível das caminhadas é feito quase de um ano para o outro, ou seja, nós este ano, apesar de termos tido alguns caminhantes, não tivemos o número que era habitual e temos muitas reservas de última hora. Houve uma altura em que tivemos muitos americanos, depois deixámos de ter e agora recomeçámos a ter mas essencialmente temos franceses, belgas e canadianos.
O vosso principal mercado é o nacional?
Não, o mercado internacional acaba por ser o principal. Agora temos muito mercado nacional por causa do Covid, que veio ocupar o espaço do internacional, e também nos meses de julho e agosto. Durante o resto do ano a ocupação é feita à base de estrangeiros. Em anos passados – e nós já estamos no mercado há 20 anos – tínhamos uma quota de mercado de 55 a 60% de estrangeiros e 40% de portugueses, com o Covid as coisas alteraram-se mas a tendência é voltarmos a ter mais estrangeiros do que portugueses.
O que é que têm programado para esta época de outono-inverno? O que é que as pessoas podem fazer?
A grande máxima do Alentejo é não fazer nada mas evidentemente que isso não é viável para todos. Nós estamos numa zona pobre em termos culturais por isso a sugestão que acabamos por dar às pessoas é que aproveitem a natureza, conheçam a região, façam caminhadas ou percursos de bicicleta, tratamos de transferes e do que for necessário para visitar um ou outro local. Estamos inseridos numa Herdade bastante grande e tentamos ir ao encontro daquilo que as pessoas procuram.
Procuramos dar um serviço de grande proximidade ao cliente, até costumamos dizer que estamos cá durante o dia inteiro para satisfazer o cliente e se pudermos interferir na estadia dos clientes e proporcionar-lhes algo que não conheçam para nós é a cereja em cima do bolo.
Fazem algo de especial para o Natal e a passagem de ano?
Na passagem de ano temos o mesmo grupo há 20 anos, é um grupo que marca de um ano para o outro e acaba por ficar cá sempre quatro ou cinco dias. Costumamos fazer alguns workshops para empresas mas pequenos, para 18 ou 20 pessoas porque não temos dimensão para mais e fazemos um ou outro evento.
“O Alentejo antes do Covid já era uma zona muito procurada e muito conceituada e o Covid veio acentuar essa sua característica de termos distanciamento, de termos espaço e natureza e de não haver multidões nem confusão”
Como é que tem acompanhado a ação do Turismo do Alentejo, nomeadamente no que se refere à promoção?
As coisas têm corrido bem, os mercados estão a crescer, a procura também. O Alentejo antes do Covid já era uma zona muito procurada e muito conceituada e o Covid veio acentuar essa sua característica de termos distanciamento, de termos espaço e natureza e de não haver multidões nem confusão. De certa forma, o Covid veio valorizar aquilo que temos para oferecer a quem nos visita.
Este ano o Turismo do Alentejo fez investimentos no mercado americano e no canadiano. Os resultados já se notam?
Os turistas canadianos continuaram, os americanos estão a voltar e penso que isso tem a ver com os voos diretos da TAP que permitiram mostrar Portugal aos americanos. Desde aí é um mercado que vem cada vez mais a Portugal, um mercado que tem dinheiro, que gasta, gosta do país e sai contente.
A inflação está aí, o aumento dos custos também. Como é que têm conseguido não repassar ao cliente todo o aumento dos custos?
É uma “ginástica” diária, uma preocupação diária. São aumentos sobre os quais não temos nenhum controlo e também não os conseguimos colocar no preço final ao cliente. Fizemos um aumento de preços este ano, que já estava planeado mas o que não estava planeado era este aumento de custos e a única coisa que conseguimos fazer é, pontualmente, aumentar o preço de um ou outro quarto consoante a ocupação que temos.
Dúvidas em relação a 2023
Como é que olha para 2023? Acredita que as coisas irão continuar a correr tão bem como este ano?
Eu não acredito e muitos de nós não acreditamos porque estamos a sair de uma pandemia para uma guerra e nesta guerra existem muitos conflitos diretos e indiretos que tocam a tudo e a todos. Penso, no entanto, que vamos ter mais condições porque vamos poder trabalhar e podemos tentar gerir as coisas de outra maneira. A bonança ainda está longe mas temos aprendido, nos últimos anos, a trabalhar para o ano seguinte e a ganhar forças para o poder superar e fazer o melhor trabalho possível.
Como já tivemos numa situação em que não nos deixavam trabalhar e nesse sentido as perspetivas para 2023 são ótimas. Aquilo que nos dá forças é sentirmos que há uma certa normalidade na operação e nas pessoas e isso dá mais espaço para que, com o tempo, as pessoas comecem a desfrutar e a usufruir como antigamente.
Estão a ponderar novos investimentos?
O facto de estarmos inseridos no Parque Natural da Costa Vicentina impede-nos de crescer. Uma unidade deste tamanho, numa herdade de 360 hectares, deveria ter pelo menos mais 10 quartos. Posso dizer que as cinco casas de turismo rural ocupam apenas cinco hectares da herdade e em termos financeiros, de custos e de promoção da própria região era importante que as unidades que existem e que têm interesse turístico local pudessem crescer nem que fosse mais 20 ou 25% – mas se fosse 10% já era bom – para poderem, com as infraestruturas e as pessoas que têm, terem capacidade para aumentarem as condições para receber os clientes, seja através do alojamento ou de salas de reuniões. Na região não há salas de reuniões suficientes, há empresas a quererem fazer reservas de quartos mas depois não tenho uma sala para 40 pessoas para se poderem reunir.
Está longe a possibilidade de alterar essas regras?
Acho que sim mas tenho visto tanta coisa… os interesses monetários na região são muito grandes, em cinco anos conseguiu-se estragar uma paisagem paradisíaca e única na Europa, com estufas e com agricultura extensiva, com problemas de habitação para as pessoas que trabalham nessas casas, com problemas de imigração, com problemas de água, e de repente aconteceu e está cá à vista de todos.
Em relação ao turismo acho que seria saudável criar mais infraestruturas. Não estou a falar em situações que todos conhecíamos em termos de entraves que eram impostos para não acontecer o que aconteceu no Algarve em termos de betão mas nós somos de excessos, ou não se pode fazer nada ou pode-se fazer tudo porque assim que se abre há logo aproveitamentos e abusos.


