“Licenciados talentosos desperdiçados nas empresas turísticas”, por Nuno Abranja
Neste artigo, Nuno Abranja aborda as contradições entre as exigências dos cursos superiores da área do turismo e a falta de aproveitamento dos jovens qualificados por parte das empresas que muitas vezes apenas os olham como “mão de obra barata”.
Nuno Abranja
Diretor do Departamento de Ciências Empresariais, ISCE–Instituto Superior de Lisboa e Vale do Tejo
CEO, OMelhorDoTurismo – Consultora de Formação
Há algo de profundamente contraditório no setor do turismo. Enquanto as universidades multiplicam cursos superiores e mestrados dedicados à gestão, inovação e sustentabilidade turística, as empresas continuam, em muitos casos, a olhar para os jovens licenciados como mão de obra barata para funções operacionais.
Os estágios que deveriam ser oportunidades de aprendizagem transformam-se frequentemente em experiências repetitivas e desmotivantes, onde recém-licenciados passam meses, ou anos, a desempenhar tarefas que pouco ou nada têm a ver com a sua formação. E o mais preocupante é que esta prática se tornou uma espécie de norma silenciosa, considerando que muitas empresas continuam a recorrer às instituições de ensino para recrutar estagiários, sem qualquer plano real de integração, progressão ou reconhecimento do valor académico e intelectual que estes jovens trazem, porque poucos gestores gastam 30 minutos por semana do seu tempo para falar e conhecer melhor estes potenciais ativos.
Fala-se muito sobre a necessidade de qualificar o setor, de atrair talento e de tornar o turismo mais competitivo. Mas como fazê-lo se não se cria espaço para o pensamento crítico, a criatividade e a visão estratégica dos profissionais que saem das universidades e politécnicos?
O turismo precisa de inovação, de ideias novas e de pessoas preparadas para liderar a transição que o setor exige, mas não pode continuar a tratá-las como mera força de trabalho temporária. O problema não está na existência de funções operacionais, que são essenciais, mas sim na falta de mobilidade, de planos de carreira e de reconhecimento de competências. É difícil falar em “fidelização de talento” quando um jovem licenciado na área 811 (hotelaria e restauração) ou 812 (turismo e lazer) passa anos a desempenhar tarefas básicas, sem perspetiva de evolução.
As instituições de ensino superior estão a fazer o seu papel de formação com qualidade. Falta agora que as empresas façam o seu: identificar, acolher e valorizar o potencial humano que têm à porta ou ‘dentro de casa’. Caso contrário, continuaremos a assistir a uma fuga silenciosa de talentos para outros setores, para outros países, onde a qualificação é vista como uma oportunidade e não como um detalhe inconveniente.
O futuro do turismo depende tanto da experiência oferecida ao visitante quanto da experiência proporcionada ao colaborador. E já é tempo de perceber que um setor que vive de pessoas não pode continuar a desperdiçar o conhecimento e competências que as suas melhores pessoas reúnem em si.



Importante estar identificado este problema. Talvez um caminho para o solucionar possa passar pela Universidade passar a contratualizar com cada empresa um programa de estágios?