Ilha da Graciosa: Quando a paixão leva “a mó” ao seu Moinho (da Praia)
Não é açoriano, mas as suas visitas assíduas ao arquipélago a título profissional fizeram dele um verdadeiro amante da terra. E foi em outubro de 2007, após umas pequenas férias na ilha Graciosa, a segunda mais pequena daquela região autónoma, que se apaixonou por um dos 27 moinhos de vento inventariados que ali existem e cujas cúpulas vermelhas, em forma de cebola, pintam a paisagem verdejante da ilha, tornando-os num dos seus ex-libris.
Quatro dias de estadia na também conhecida por “ilha branca”, pela existência de rochas claras na costa sul, foram mais do que suficientes para se apaixonar. Fotografou vários locais e um deles foi o Moinho Mó da Praia, junto à única praia de areia fina da Ilha Graciosa, na povoação de São Mateus (Praia), situada no sopé da Caldeira da Graciosa, um dos últimos a moer cereais na ilha e que outrora fora pertença de Manuel Frutuoso Vasconcelos Moniz.


Já de regresso a Lisboa, João Leandro repara num número de telefone na fotografia do moinho e decide ligar para saber o valor pedido pelos herdeiros: “A ideia inicial foi a de recuperá-lo e transformá-lo em casa de férias de família”, explica ao Turisver.pt.
Mas os tempos que se avizinhavam eram de crise no País e a sua atividade empresarial, ligada à arquitetura e aos sistemas de telecomunicações, começou a ressentir-se e “a ter mais dificuldades em termos de receitas”, conforme nos conta: “Foi quando tomámos a decisão de alterar o nosso objetivo inicial de termos uma casa de férias, para recuperarmos o moinho para o rentabilizarmos em termos turísticos”.
E é em 2009 que tem início o projeto de recuperação do Moinho Mó da Praia, com o propósito de preservar ao máximo as suas características e também recuperar algumas peças e utensílios usados na atividade da moagem.


“Aquando da escritura, em 2007, deixámos apalavrada a recuperação da cúpula. Um trabalho minucioso que só poderia ser feito pelo único mestre na ilha capaz de o executar, o senhor Agostinho Borges Silva, atualmente com 92 anos”, sublinha o proprietário deste espaço, agora classificado pela Direção Regional do Turismo dos Açores, como alojamento de Turismo no Espaço Rural, na modalidade de “Casas de Campo”.
Os anos que se seguiram, no entanto, não foram fáceis, qual Dom Quixote lutando contra os moinhos, e o processo de candidatura para realizar a restante recuperação só acabaria por ser resolvido em 2014.
“Finalmente em março de 2016 as obras ficaram concluídas e em junho, depois de decorarmos o espaço e de obtermos a licença de habitação e de transformá-lo em Turismo em Espaço Rural, pudemos abrir portas”, refere João Leandro, acrescentando: “No entanto, foi só no ano seguinte que arrancámos em grande”.
Um moinho, três pisos para usufruir
Mesmo de frente para o mar, o Moinho Mó da Praia divide-se por três pisos. O antigo anexo onde estava instalado o motor (movido a gasóleo) que possibilitava a alternativa da moagem sem recorrer à utilização do vento, permitiu construir o acesso por escadas interiores ao corpo do moinho e foi ampliado para conter toda a zona social com características modernas, composta pela sala comum, kitchenette, instalações sanitárias e um terraço exterior abrigado do vento por um longo muro. Junto às escadas ainda se consegue ver uma secção do túnel por onde passavam as correias que ligavam a roda do motor à peça de moagem, a qual foi recuperada e se encontra no piso térreo do moinho em exposição.



No segundo piso, onde estavam assentes as mós principais do moinho, funciona um quarto de casal e na cúpula um beliche, com uma cama de casal em baixo e uma de solteiro em cima. No total, o moinho consegue acolher até seis hóspedes, mas como revela João Leandro, são os casais que mais procuram este alojamento, embora neste último ano algumas famílias tenham optado por ali ficar.
Chegam sobretudo da Alemanha, França, Itália, países nórdicos, Reino Unido e América do Norte e Canadá, mas também muitos turistas nacionais. As estadias, essas, são de curta duração, muito por causa da falta de voos diretos para a ilha: “E também porque sendo a Graciosa uma ilha pequena, os visitantes pensam que há pouca coisa para ver”.
À chegada ao Moinho Mó da Praia, os hóspedes recebem produtos regionais para puderem fazer o pequeno-almoço que está incluído na estadia. O mel local, o leite, a manteiga e por vezes o conhecido doce de meloa da ilha são algumas das delícias. O pão, esse, é colocado pelo padeiro de madrugada no portão.



As preocupações ambientais fazem parte do espírito deste Turismo em Espaço Rural, tendo sido adotadas diversas medidas que ajudam na poupança de água e de eletricidade. A colocação de um reservatório de água para aproveitamento da chuva, assim como a existência de um contentor para os hóspedes depositarem o lixo que possam encontrar durante os seus passeios, são apenas algumas das iniciativas.
E há tanto para descobrir…
Locais de interesse é coisa que não falta por aqueles lados, e para quem não sabe bem onde ir, os proprietários do Moinho Mó da Praia fizeram um pequeno guia de sugestões a descobrir. Não deixe de visitar a Caldeira da Graciosa, a Furna do Enxofre, a Caldeirinha de Pêro Botelho, os miradouros de Nossa Senhora da Ajuda e da Senhora da Guia, o Rochedo da Baleia, os faróis da Ponta da Barca e da Ponta da Restinga, a Baía da Folga, as Piscinas naturais das Termas do Carapacho, entre muitos outros.
Para quem gosta de fazer algumas atividades durante os dias de descanso, o alojamento, que é também representado pelas Casas Açorianas, tem várias parcerias, nomeadamente com o centro de mergulho, com a Fábrica das famosas Queijadas da Graciosa, com a Loja-Museu João Tomáz Bettencourt que retrata uma antiga loja do início do século XX onde se vendia de tudo um pouco, e imagine-se só, com a peixeira que ao pedido de encomenda dos hóspedes leva até eles o melhor peixe da região.



Situada mais a norte do Grupo Central do Arquipélago dos Açores, a ilha da Graciosa tem uma superfície de 61 Km2 e uma forma oval. É também a ilha mais plana, com apenas cinco por cento da sua área a elevar-se acima dos 300 metros de altitude e a que apresenta a menor pluviosidade do arquipélago.
Com cerca de 4800 habitantes, a ilha da Graciosa continua a viver da agricultura, viticultura e criação de gado, tornando-se a produção de lacticínios a sua principal fonte de rendimentos. Apenas com um concelho, Santa Cruz, a ilha conta com quatro freguesias: Santa Cruz, Praia, Luz e Guadalupe.
Contactos:
Moinho Mó da Praia
Rua dos Moinhos de Vento, 16
São Mateus, Graciosa, Açores
Preços:
- Época alta (entre maio e setembro, incluindo o Carnaval, Páscoa, Natal e Passagem de Ano): 80€ por dia
- Época baixa: 65€ por dia


