“Há cada vez mais novos clientes a procurar os cruzeiros”, garante Fernando Santos, da GlobalSea
Sócio gerente da GlobalSea CruiseXperts, Fernando Santos é um especialista em cruzeiros. O Turisver falou com ele sobre a recuperação do mercado de cruzeiros, as preferências do mercado português e as tendências desta indústria, nomeadamente ao nível dos navios. E porque cruzeiros não se fazem apenas no mar, falámos também dos fluviais.
Os cruzeiros já conseguiram recuperar de todo o período negativo trazido pela pandemia?
Já. Todos os indicadores que temos sejam os da GlobalSea, sejam de outros operadores, apontam que os cruzeiros recuperaram perfeitamente. Neste momento, diria que já estão a níveis de 2019 e, em alguns casos, até num nível superior. Naturalmente que haverá companhias onde essa recuperação é mais notória do que noutras, tendo em conta os itinerários e os preços.
Os portugueses já voltaram em força a comprar cruzeiros?
Durante a pandemia foram criados os vouchers e, naturalmente, as pessoas tendo os vouchers quiseram utilizá-los em 2022, embora muitos ainda tenham passado para 2023. Assim, se por um lado, no final do verão de 2022, houve um acumular de reservas, a verdade é que quem quis fazer cruzeiros o ano passado voltou a repeti-los em 2023 e neste momento temos já variadíssimas reservas para 2024, o que significa que quem fez cruzeiros está a continuar a fazê-los. Por outro lado, sentimos também que há cada vez mais novos clientes a procurar os cruzeiros.
Fora do tradicional Mediterrâneo, o que é que os portugueses procuram?
O Mediterrâneo Ocidental, pela proximidade e facilidade dos embarques em Barcelona, Marselha e mesmo em Roma, é sempre a primeira experiência de cruzeiro que se tem. A partir daí, temos os cruzeiros no Mediterrâneo Oriental, apesar das restrições que foram colocadas às saídas de Veneza e que levou à alteração de partidas para outros portos.
Fora do Mediterrâneo, há destinos que começam a ser muito procurados, como é o caso do Médio Oriente, no nosso inverno, sobretudo entre os meses de outubro / novembro e fevereiro, refiro-me concretamente as saídas do Dubai ou de Doha, no Qatar, ou até mesmo do Mar Vermelho. Depois, temos as Caraíbas que também têm sempre o seu lugar, especialmente entre setembro / outubro e março porque nessa altura já estamos fora dos problemas atmosféricos que possam ser provocados, por exemplo, por furacões. Nestes casos, as saídas de Miami e Fort Laudardale são sempre muito interessantes. Claro que há outros destinos que têm tido uma procura cada vez maior, como é o caso do Alasca e da Patagónia, entre o Chile e a Argentina. Nestes casos estamos já a falar de destinos que não são já os do mercado de massas e que também não são a primeira opção em termos de cruzeiros.
Há outro destino que considero que está em franco desenvolvimento e que é influenciado pelo facto de os cruzeiros terem deixado de ir a São Petersburgo – estamos a falar do Báltico – que são os cruzeiros com entrada pela Islândia. Tive a oportunidade de ter essa experiência no final do ano passado e posso garantir que se trata de um itinerário onde se descobrem paisagens absolutamente fantásticas.
Qual é a companhia que está a fazer esse cruzeiro na Islândia?
Há várias companhias, eu fui à inauguração do Norwegian Prima, a última geração dos navios da Norwegian Cruise Line. Foi um cruzeiro de nove dias, com saída de Reiquejavique, na Islândia, até Amesterdão.
“ (…) os cruzeiros de rio começam a ter uma importância significativa, e não para as pessoas de maior idade mas para pessoas que querem conhecer as cidades de uma forma diferente porque os navios fluviais entram dentro das cidades”
O mundo já está todo coberto por itinerários de cruzeiros ou ainda há muitas regiões que as companhias não programam?
Aquilo que é navegável em termos dos cruzeiros de mar está tudo coberto, é só olhar para todo o Continente americano, tanto de um lado como do outro, ou seja, do Atlântico e do Pacífico. Seja a América do norte como a do sul e as Caraíbas, tudo está coberto.
O que não está coberto é África que ainda não é um continente suficientemente explorado pelos cruzeiros por diversas razões, desde a segurança aos portos, passando pelas acessibilidades e até porque o próprio destino em si não tem ainda capacidade para a realização de excursões com toda a segurança. No entanto, há já alguns locais cobertos como a África do Sul, Marrocos e Cabo Verde, que está em franco desenvolvimento – aliás, está a ser construído um novo porto em São Vicente, no Mindelo -. Depois temos toda a parte oriental, a Índia, a Austrália, o Japão, que também já está coberta.
Quem já fez os Mediterrâneos (Ocidental e Oriental), o Norte da Europa, a Islândia e as Américas começa a pensar para onde é que vai a seguir. Neste sentido, os cruzeiros de rio começam a ter uma importância significativa, e não para as pessoas de maior idade mas para pessoas que querem conhecer as cidades de uma forma diferente porque os navios fluviais entram dentro das cidades. Podemos fazer Paris e a Bretanha, podemos fazer quase todos os rios na Europa que são navegáveis, incluindo Portugal.
A procura por cruzeiros fluviais está a crescer em termos do mercado português?
Os cruzeiros fluviais estão num crescendo de procura mas não tanto pelo mercado português porque é uma oferta que ainda não está suficientemente desenvolvida em Portugal. Acho que há um trabalho importante para fazer porque muitas vezes este produto é associado à maior idade, quando há cada vez mais pessoas jovens a optar por este tipo de cruzeiros. Há programas de quatro e sete noites na Europa, outros permitem, por exemplo, fazer os mercados de Natal porque os navios vão praticamente ao centro das cidades, ou fazer os castelos na Europa central, o Vale do Loire, em França… há todo um conjunto de destinos muito interessante.
As tendências da indústria de cruzeiros e os serviços de exclusividade
Voltando aos cruzeiros de mar, quais são as tendências? Vamos ter navios cada vez maiores?
No meu entender há duas orientações. Por um lado, as companhias têm vindo a apostar em navios grandes, e já os temos para mais de 6.000 hóspedes. Mas se há essa preocupação de levar muitas pessoas a bordo e de lhes proporcionar grandes experiências, mais a bordo do que ao nível dos destinos, há também um cuidado muito grande por parte das companhias em tudo o que se refere à sustentabilidade, ou seja, há a preocupação de transportar as pessoas com o máximo respeito pelo ambiente. As companhias estão muito preocupadas em reduzir as emissões até zero em 2050, ao nível do próprio combustível que está a ser utilizado, sabendo-se que a energia elétrica e o hidrogénio serão cada vez mais utilizados e tudo isso vai ser o futuro.
Por outro lado, estão a nascer companhias que são vocacionadas para a expedição, que apostam em navios para 300 a 400 hóspedes. Há uma companhia que está agora a nascer que é a Explora Journeys, que está a apostar neste tipo de mercado, mas aí estamos a falar do segmento de luxo.
Diria que há dois segmentos: por um lado, temos navios cada vez mais reduzidos em que há uma relação de quase um tripulante para um hóspedes e, por outro lado, as companhias de grande consumo que apostam em navios cada vez maiores. O que não será tendência serão os navios médios, pelo menos neste momento.
A GlobalSea já enviou milhares de turistas em cruzeiros, por isso eu colocava a questão: em termos da relação qualidade-preço, merece a pena o passageiro fazer reserva nas áreas mais exclusivas dos navios?
Praticamente todas as companhias têm, neste momento, navios que têm lá dentro um outro navio, com condições diferentes, acessibilidades diferentes, serviços e restaurantes diferentes, isto é, pode ter-se o mesmo itinerário, fazê-lo na mesma altura, no mesmo navio mas com um tipo de serviço diferente: com restaurantes diferenciados, mordomo, excursões feitas de forma diferente, entradas prioritárias e um conjunto de benefícios a que os outros hóspedes não têm acesso.
Evidentemente estamos a falar de valores diferentes mas eu acho que se justifica. Neste momento tenho vários clientes a fazerem cruzeiros nestas áreas premium e estão a fazê-lo porque querem viver as suas férias de uma forma diferente, ou porque estão a comemorar alguma coisa ou porque querem um serviço de outro nível.
O que é que não perguntei mas que seria importante falar?
Não falámos de uma questão que me parece importante que é o que se faz em terra, ou seja, o que se faz quando se chega aos destinos. Há sempre muito para conhecer e podemos fazê-lo por nós próprios, podemos conhecer o destino através da experiência que a companhia de cruzeiros coloca à disposição ou através de empresas paralelas que fazem excursões como nós temos uma que é a Shore2Shore, e aí temos as excursões que vendemos para as agências de viagens e para o cliente que nos procura mas sempre dando prioridade às agências. A experiência que nós damos é idêntica à que é dada pelas companhias mas há um benefício para o cliente que faz excursões semelhantes a um preço mais económico e isso é importante porque as pessoas fazem cruzeiros também para irem conhecer os destinos.

