Gâmbia: Um país chamado de “A Costa Sorridente de África”
Olhando para o mapa de África, descobre-se um país que parece uma serpente que se estreita e alarga pelo meio do Senegal, enquanto a oeste se abre às águas do Atlântico, e que já com os pés em terra fascina pelo seu exotismo e por ainda guardar a essência de um continente mágico.
Por Fernando Borges
É um país que é também um rio, que ainda guarda lugares impregnados de vida, de silêncios e fiel às tradições, um destino exótico na África Ocidental que encanta com as suas praias douradas ao longo do Rio Gâmbia, onde a rica biodiversidade e a cultura navegam num vibrante fascínio. Assim como é um país perfeito para quem busca relaxamento, aventura e um mergulho na história de África.

É entre múltiplas sensações que se vão descobrindo mercados, canoas multicolores feitas de madeira, e quilómetros de areias brancas que, por vezes, vão sendo invadidas pelas águas do Atlântico entre fileiras de palmeiras, turistas e esplanadas que olham para essas areias e onde corpos negros musculados vão puxando para terra redes de pesca. Assim como se vão descobrindo, a cada passo, prazeres sensíveis e a autenticidade de um povo que nos estende um aceno acompanhado por um “esama”, que é como quem diz em mandinka, uma das línguas nacionais, “bom dia”, que se prolonga com um “I be dinno laa Gambia”, algo como “bem-vindo à Gâmbia”. E sempre com um sorriso contagiante, um dos principais ativos deste país.
Bastaria apenas isto para dizer que a Gâmbia é perfeita para uma primeira viagem ao encontro de África. Mas, se não fosse suficiente, podemos acrescentar que este é um país seguro, tranquilo, mas com uma intensidade humana que atravessa quem chega.
Praias, sabores picantes e ritmos de África
Aqui, não há pressas e a vida percorre-se ao ritmo do mar, do calor e do pó das estradas e das ruas entre mercados caóticos e vibrantes de cor e de cheiros que viajam entre especiarias, frutas de várias cores e o peixe seco, mercados, ruas e estradas feitas de terra que também atravessam densas florestas e aldeias onde as saudações são constantes, onde as crianças nos olham e sorriem enquanto descalços continuam nas suas correrias, onde os mais idosos nos lançam mais um “esama”, ou um “etinyang” quando a tarde chega, e as mulheres, mais timidamente, nos seus lenços e roupas coloridas, nos cumprimentam com um sorriso e um aceno de cabeça, homens e mulheres que não escondem o orgulho de pertencer à sua terra.
Mas este é um país que, para o sentirmos, não podemos ser apenas mais um turista à procura de praia, de resorts para passar o dia na piscina, para visitar este ou aquele ponto mais turístico que aparece num catálogo de viagens, para nos banharmos nas água do Atlântico temperadas pelo sol quente sempre presente, almoçar num restaurante sobre a areia das praias enquanto escutamos o som de música africana, passarmos numa loja de souvenirs para comprar um escultura de madeira, uma t-shirt da seleção da Gâmbia e depois sairmos à noite para jantar num dos muitos restaurantes que florescem na “main street” de Banjul, de Kololi, de Sanyang ou de Tanji. E é nestes espaços que, entre os sabores tradicionalmente picantes servidos com camarão, peixe ou frango, se misturam os sons do “mbalax”, o ritmo mais popular do país, uma forma de música rítmica e energética que combina a percussão africana com influências modernas e que fazem aquecer os corpos, ou do “kora”, outro género musical que ganhou o nome de um instrumento único de 12 cordas, um género mais relaxante e melódico que conta histórias e transmite emoções.
Entre mangais, crocodilos, macacos e o exotismo colorido das aves
Na realidade, para se sentir este que é o mais pequeno país de África, há que deixar a imaginação substituir-se à ação, há que partir ao encontro da sua alma, sentir os seus ritmos de vida. Há que navegar numa tradicional canoa feita de madeira de um baobá pelo Rio Gâmbia, que mais do que um curso de água é a sua artéria, deixarmo-nos envolver pelos muitos testemunhos culturais, históricos e quotidianos, e deixarmos que a sua transbordante natureza tome conta dos nossos sentidos.
É, por exemplo, seguir os passos e o olhar de um guia do The Gambia Bird Watchers Association, como o Babagalleh Bah, o meu “bird man” durante as horas em que naveguei numa dessas canoas entre mangais ou caminhei por entre a verde floresta para nos encontramos com o colorido de “espampanantes” calaos, piscos de peito azul, rolos da Abissínia, martins pescadores, abelharucos, patos selvagens, garças-real, narcejas, cucos e galinhas de água de diversas cores que se juntam no ar, em terra ou nos mangais a milhafres real, a falcões e muitas outras exóticas e coloridas aves que fazem com que a Gâmbia seja um dos paraísos para os amantes de birdwatching e de fotógrafos de natureza de todo o mundo.
Aqui, tudo à nossa volta é silêncio, um silêncio feito pelos sons que nos chegam da floresta, como acontece no parque florestal de Bijilo, onde nos encontramos com bandos de macacos vermelhos e de outras cores, enquanto não muito longe, em Bakau, nos esperam uma centena de jacarés num lago circular em cujas margens se estendem para gozar os prazeres do sol, parecendo por vezes desafiar o visitante mais atrevido a fazer-lhes uma festa na sua pele dura e escamosa, enquanto outros se escondem nas suas águas turvas cobertas por uma vegetação flutuante, sendo uma das maiores atrações da Gâmbia, um espaço que nos dá ainda a conhecer a história e cultura do país através de centenas de artefactos e dezenas de fotos expostas no Museu Etnográfico.
Dos sabores mais tradicionais a mais um mergulho no Atlântico
Não é muito longe deste lugar que os sabores mais genuínos e tradicionais da gastronomia da Gâmbia nos esperam, num lugar chamado Yabouy Home Cooking, uma espécie de comunidade familiar que tem Ida como matriarca, uma mulher que um dia resolveu ir estudar para Inglaterra para regressar à sua aldeia natal e aí criar um espaço para dar forma a um sonho. Um lugar onde toda a família vivesse e se fosse multiplicando enquanto fazia crescer um espaço turístico que passou a dar a conhecer a cultura e tradições do seu país através da gastronomia alicerçada em ancestrais valores e sabores a partir de produtos semeados e colhidos à sua volta, ao mesmo tempo que convida os visitantes, aí vestidos com turbantes e roupas tradicionais, a participarem na confeção de pratos de sabores únicos como o “domodah”, o prato nacional da Gâmbia, um delicioso ensopado à base de molho de amendoim, quiabo, abóbora, cenoura ou batata, e o “benachin”, também conhecido como “Arroz Jollof”, um prato com arroz de carne ou peixe com vegetais e uma variedade de especiarias.



Mas há sempre aquele momento para um último mergulho do dia nas águas temperadas do Atlântico ou para relaxar à beira da piscina de um dos muitos hotéis que se perfilam ao longo das praias, como o African Princess, um hotel com quartos swim ups, o Ngala Lodge, um boutique-hotel com muito charme impregnado de romantismo, nascido e ampliado a partir de uma casa colonial sobre uma falésia que cai sobre uma praia digna de um postal ilustrado, o Bakadaji ou o Kombo Beach Resort, e aí tranquilamente apreciarmos uma refrescante bebida.
Entre hipopótamos e a essência de uma África em estado puro
E há um outro dia. Assim como há uma outra Gâmbia à espera de ser descoberta e que fica para lá das praias por onde se passeiam os corpos indolentes dos turistas e onde as crianças sonham um dia ser futebolistas famosos e milionários. Uma Gâmbia para lá dos areais para onde regressam coloridas canoas carregadas com o produto final de uma noite e de uma manhã de faina, dos hotéis e resorts, do Tanji River Bird Reserve e do Monkey Park, dos mangais do estuário do rio Tanji, dos recifes e ilhotes da ilha Bijol, das poucas ruas asfaltadas e das muitas de terra batida e empoeiradas de Banjul e de Serekunda, de Tanji e de Bakau, de Fajara e de Kotu, de Koloki e de Juffureh, a terra natal de Kunta Kinté, um negro escravo que viu a sua vida ser contada na série “Raízes” transmitida nos anos 80.
É a Gâmbia mais autêntica e genuína, a Gâmbia mais africana, a das aldeias que seguem a sua forma de vida tradicional e ancestral, a que oferece aventuras que até então faziam apenas parte do imaginário, que nos desafia para experiências autênticas, onde continua a existir um poço comunitário, que continua a dedicar-se ao cultivo do arroz, onde as casas continuam a ser feitas de barro e cobertas de palha ou de folhas de palmeira rodeando um gigante baobá que é ponto de encontro dos homens da aldeia. A Gâmbia dos círculos de pedra de Wassu, um lugar classificado pela UNESCO como Património Mundial, enquanto logo ali, no Parque Nacional do Rio Gâmbia ou no Parque Nacional Kiang West, hipopótamos, girafas, chimpanzés, javalis, leopardos, babuínos, mangustos, hienas, abutres e outras aves mais simpáticas e coloridas encontram o seu habitat natural.
Sim, sem dúvida que este é um país que fascina e que, desde Lisboa, apenas necessita pouco mais do que quatro horas para a ele chegar, bastando para isso escolher entre uma terça, quinta ou sábado, os dias em que a TAP Air Portugal voa para Banjul, a sua capital, uma frequência que acontecerá até 30 de Abril, o dia em que terminará a programação do operador turístico Solférias para este país que é, sem dúvida, a “Costa Africana dos Sorrisos”.

























