“Formar para crescer em turismo exige muito mais do que boas intenções!”, por Nuno Abranja
Neste artigo, Nuno Abranja chama a atenção para o facto de, apesar de o número total de formações em turismo, nos diferentes níveis de ensino, ter aumentado, a procura pelos cursos superiores de turismo continuar aquém daquilo que o setor necessita para que a sua evolução seja garantida.
Nuno Abranja
Diretor do Departamento de Ciências Empresariais, ISCE–Instituto Superior de Lisboa e Vale do Tejo
CEO, OMelhorDoTurismo – Consultora de Formação
Investigador Integrado, CiTUR
De acordo com o WTTC (2026)[i], o setor de Viagens e Turismo é um dos mais poderosos da economia mundial, responsável por um em cada dez empregos globais, gerando cerca de 10% do PIB global e com previsão de criar um em cada três novos empregos na próxima década. Somente em 2025, o setor contribuiu com US$ 11,6 trilhões para a economia global e sustentou 366 milhões de empregos em todo o mundo.
Segundo o Turismo de Portugal (2026)[ii], através do TravelBI, os números mais recentes sobre a formação em turismo são, à primeira vista, encorajadores. Em 2025, os cursos profissionais continuavam a atrair milhares de jovens, com destaque para Cozinha e Pastelaria (6.470 alunos), Turismo (4.808), Restaurante e Bar (4.159), Turismo Ambiental e Rural (928) e Informação e Animação Turística (871). A oferta também se diversificou significativamente, tendo em conta que dos 20 cursos profissionais existentes em 2016 passou-se para 28 em 2025, enquanto o número total de formações em turismo, nos diferentes níveis de ensino, atingiu as 123. São indicadores que demonstram a capacidade do sistema educativo para acompanhar as necessidades operacionais das empresas e responder à evolução de um dos setores mais importantes da economia portuguesa.
Mas estes números também expõem uma realidade que não pode ser ignorada. Isto é, continuamos a formar sobretudo para as funções operacionais, enquanto o ensino superior em turismo permanece confrontado com dificuldades em captar estudantes. Apesar de o número de diplomados ter aumentado e de as matrículas globais evidenciarem uma recuperação, a procura pelos cursos superiores continua aquém do que o setor necessita para garantir a sua evolução. Esta situação deveria preocupar-nos muito mais do que preocupa. Principalmente aos últimos Governos.
Durante anos, repetiu-se que o turismo precisava de mais qualificação. Hoje, sabemos que essa qualificação não pode limitar-se às profissões essenciais da operação. O turismo do futuro exigirá gestores, especialistas em sustentabilidade, analistas de dados, profissionais de marketing digital, investigadores, gestores de destinos, especialistas em inteligência artificial aplicada ao turismo, inovação, experiência do cliente e desenvolvimento territorial. E estes profissionais formam-se, sobretudo, no ensino superior.
O problema é que o país continua a olhar para o turismo como um setor de execução e não como um setor do conhecimento. Enquanto outras áreas beneficiam de programas de incentivo, bolsas específicas, investimento em investigação e reconhecimento institucional, o turismo continua muitas vezes remetido para um plano secundário, apesar de ser um dos maiores geradores de riqueza, emprego e exportações de Portugal.
Não basta celebrar que existam mais cursos ou mais alunos no ensino profissional. É necessário perguntar por que razão tantos jovens continuam a não escolher licenciaturas em turismo como primeira opção. A resposta dificilmente estará na qualidade das instituições ou dos cursos. O problema reside, muitas vezes, na perceção social da profissão, nas expectativas de progressão na carreira, nos níveis salariais de entrada e na ausência de uma estratégia pública que valorize verdadeiramente as profissões ligadas ao turismo.
Se queremos um turismo mais competitivo, sustentável e inovador, os governos têm de assumir um papel muito mais ativo. É fundamental criar condições para tornar o ensino superior em turismo mais atrativo, através de bolsas direcionadas, incentivos à investigação aplicada, incentivo a uma maior ligação entre universidades e empresas, apoio à internacionalização dos cursos, programas de estágios remunerados e políticas que reforcem a empregabilidade e a valorização das carreiras.
Da mesma forma que se investe em engenharia, saúde ou tecnologias, também o turismo merece uma estratégia nacional para a formação superior. Afinal, estamos a falar de um setor que representa uma parte significativa da riqueza criada em Portugal e cuja competitividade depende, cada vez mais, da capacidade de inovar e liderar.
Os dados de 2025 demonstram que existe um sistema de formação resiliente e capaz de responder às necessidades imediatas das empresas. Mas seria um erro ficarmos satisfeitos apenas com isso. O verdadeiro desafio não é apenas formar mais cozinheiros, rececionistas, profissionais de restaurante ou animadores turísticos, todos eles naturalmente indispensáveis. O verdadeiro desafio é formar também os líderes que irão desenhar o turismo português das próximas décadas.
Termino reforçando a ideia de que o crescimento do turismo não se mede apenas pelo número de visitantes ou pelas receitas geradas. Mede-se também pela qualidade do talento que conseguimos atrair, formar e reter e esta é uma responsabilidade que não pode continuar a recair apenas sobre as instituições de ensino ou sobre as empresas. É, acima de tudo, uma responsabilidade dos decisores políticos, que devem perceber, de uma vez por todas, que investir no ensino superior em turismo não é uma despesa, mas um investimento estratégico no futuro de uma das maiores alavancas da economia nacional.
[i] WTTC (2026).O WTTC revela sete princípios para ajudar os destinos a transformar o crescimento do turismo em prosperidade compartilhada. Retirado de https://wttc.org/destination-stewardship, em 30/07/2026.
[ii] Turismo de Portugal (2026). Educação e Formação em Turismo: Sinopse. Retirado de https://travelbi.turismodeportugal.pt/emprego-formacao/educacao-formacao-turismo, em 30/07/2026.


