Filipe Silva: “Não podemos estar dependentes de um número reduzido de mercados”
Para Filipe Silva, vogal do Conselho Diretivo do Turismo de Portugal, o país tem que estruturar a sua oferta turística apostando na criação de novos produtos turísticos e na diversificação dos mercados emissores para cumprir o objetivo de captar melhores turistas e de os distribuir por todo o território, criando mais valor e contribuindo para a diminuição da sazonalidade.
Filipe Silva falava no painel “Os grandes desafios do turismo português” do 47º Congresso da APAVT realizado em Ponta Delgada, onde começou por se referir à ideia deixada na abertura do evento pelo presidente da Confederação do Turismo de Portugal de que, para 2023, a única certeza é a da incerteza. A este nível, assumiu que “compete ao Turismo de Portugal, dentro das diversas valências, traduzir o nível de incerteza ao máximo e criar as melhores condições para que as empresas nacionais consigam desenvolver a atividade turística”. Referia-se, assim, à questão da informação que considerou “crítica” e que disse estar a ser trabalhada pelas equipas do TP, mas também à questão da formação e da capacitação que considerou fundamentais para que Portugal possa ser competitivo quando aborda os mercados externos, e ainda à questão do financiamento, nomeadamente no que toca à criação de instrumentos financeiros para capacitar a oferta instalada nos vários territórios e criar oferta nova.
Referiu-se ainda à vertente da “estruturação da oferta turística”, um trabalho que visa conseguir “oferecer a quem nos visita, soluções e experiências” que se diferenciem das oferecidas pelos outros destinos turísticos internacionais.
Inquirido sobre a pressão turística, o vogal do conselho diretivo do Turismo de Portugal disse não ter dados precisos pelo que preferiu colocar o foco na necessidade de apostar em novos produtos turísticos, não para retirar turistas aos grandes centros urbanos mas sim para que eles possam ser distribuídos por todo o país, contribuindo, em simultâneo, para a atenuação da sazonalidade e para a criação de valor.
Sobre os novos produtos turísticos, Filipe Silva adiantou que, neste momento, há cerca de 50 projetos, em várias fases de desenvolvimento, que abrangem todo o território, sendo que mais de uma dezena estão já implantados, encontrando-se uns em fase de promoção e outros já em fase de comercialização. Aldeias Históricas, Aldeias de Xisto, Peneda Gerês, Geopark NaturTejo, Rota da Terra Fria, Rota Vicentina, Lugares da Serra Alentejana ou Heranças do Alentejo foram alguns dos exemplos deixados, com Filipe Silva a considerar que “todos estes projetos focam em valências que também contribuem para três grandes objetivos da ET 2027: coesão territorial, diminuição da sazonalidade turística e aumento do valor”.
“Novas temáticas, novos territórios, novos clientes”, são, assim, os eixos a desenvolver e todos eles estão interligados já que a abertura de nos territórios e a criação de novos produtos de qualidade são fundamentais para atrair novos mercados e novos turistas dentro dos existentes.
No que toca aos mercados geradores de turistas para o nosso país, recordou que, atualmente, a promoção do Turismo de Portugal está focada em 25 mercados, entre os quais se contam mercados europeus, Estados Unidos, Canadá e Brasil. Mas há outras apostas ao nível do investimento em promoção, como sejam a China, a Coreia do Sul, o Japão e a Austrália, mas também o México. “São mercados que também viajam em contraciclo e ajudam a combater a sazonalidade, têm um gasto médio muito interessante e os turistas revelam interesse pelo património natural e cultural. Representam 15 a 20% do total, mas estão com um crescimento muito significativo”, afirmou.
Filipe Silva deixou claro que “não podemos estar dependentes de um número reduzido de mercados”, mas também sublinhou que “não podemos espartilhar o orçamento de promoção em demasiados mercados”, ou seja, “temos que ter algum racional em termos da aplicação do nosso orçamento”.
“Procurar ter melhor turismo e não mais turismo” é, segundo Filipe Silva, o grande objetivo a alcançar e, para isso, sublinhou, é fundamental segmentar os produtos, até porque essa segmentação é necessária para que se possa gerar “o negócio da repetição”.
Aeroporto de Lisboa ainda tem capacidade
Um dos temas focados por Filipe Silva foi o do Aeroporto de Lisboa, com o responsável a sublinhar que, neste momento, “nenhuma das rotas atuais estará a 100%” pelo que “compete-nos trabalhar com as companhias aéreas, os operadores turísticos e as agências de viagens para preencher o remanescente da oferta de capacidade aérea”. Ou seja, “existe ainda capacidade para preencher nas operações que já existem no Aeroporto de Lisboa”.
Sobre as operações internacionais que “tocam” o Aeroporto de Lisboa mas que se destinam a outros países, seja na Europa ou noutro continente, o responsável disse que “o Turismo de Portugal, em conjunto com a ANA Aeroportos de Portugal, tem que tentar perceber, dentro de uma operação que venha do Brasil, EUA ou que venha da Europa com destino ao continente americano, qual é a percentagem, num determinado voo, de pessoas que ficam efetivamente em Lisboa, e quantas vão para o destino final”. Esta é, segundo Filipe Silva, “uma vertente importante para trabalharmos em termos de promoção e conseguirmos reter ao máximo esses passageiros, através de um programa de stopover ou de outro tipo de solução, para termos essa capacidade de reter mais passageiros e mais dias em Portugal” com o objetivo de permitir que essa visitação seja feita ao longo do território.
O que o responsável quis deixar claro foi que “mesmo dentro das dificuldades e limitações que existem no Aeroporto de Lisboa, há possibilidade de crescer do ponto de vista do turismo e aeroportuário”. Porque até podermos ter um novo aeroporto “ainda vai demorar”, Filipe Silva apelou a “trabalhar com o que temos”, otimizando o que é ainda passível de ser otimizado.
O Turisver esteve em Ponta Delgada a convite da APAVT


