Fernando Garrido: O “reconhecimento da profissão” de diretor de hotel inscrita no RJET será “o grande marco” desta direção
O balanço do último congresso, realizado este mês em Elvas, foi o ponto de partida para a conversa com Fernando Garrido, presidente da Associação dos Diretores de Hotéis de Portugal. A falta de mão de obra e o objetivo de conseguir o reconhecimento e valorização da carreira de diretor de hotel, estiveram, também, entre os temas abordados.
O congresso da ADHP, de ano para ano, tem vindo a ganhar importância e estatuto junto do trade, o que eleva sempre a fasquia. Quando escolheram Elvas pensaram que iam conseguir ultrapassar o patamar do realizado o ano passado na Costa de Caparica?
Não pensámos muito dessa forma, aliás, evitamos pensar em ultrapassar os resultados, o que queremos é fazer um congresso consistente, para nós essa é a base de tudo. Quando escolhemos Elvas, achámos que íamos levar uma mais-valia à região, mas também achámos que iríamos correr ali um risco, e não posso esconder que foi um desafio.
Os números que assumimos eram equivalentes aos do ano anterior, sendo que tínhamos uma agravante adicional, que era a proximidade das feiras, e chegámos a pôr em causa que o conseguíssemos, mas o facto é que andámos muito próximo e até os superámos ligeiramente. Ao longo dos dois dias, tivemos 640 participantes no congresso, e no jantar dos Xénios tivemos 600 pessoas.
Relativamente aos prémios, tivemos uma votação bastante expressiva, superior a 129 mil votos, e isso enche-nos o coração, porque é um trabalho que temos vindo a fazer ao longo de 12 / 13 anos, e que tem sido consolidado. O facto de, hoje em dia, conseguirmos ser o terceiro maior congresso nacional na área do turismo é um reconhecimento do trabalho que fomos desenvolvendo ao longo destes anos e, acima de tudo, dá-nos a responsabilidade de procurar sempre fazer melhor.
Para o êxito dos congressos e para a sua avaliação, conta muito a escolha dos painéis e, de certa maneira, inovaram nalgumas temáticas que levaram este ano a debate…
Sim. Normalmente, escolhemos os temas do congresso à última hora porque queremos sempre ter os temas mais atuais. Por exemplo, este ano tínhamos temas que eram inevitáveis e que era quase impossível não ter, como a Inteligência Artificial na Hotelaria, mas também lhe digo que se houvesse outros temas mais atualizados, não ficaria nervoso por tirar este tema, porque também procuramos levar os temas que mais nos preocupam.
Penso que o facto de termos esta postura nos traz uma mais valia e um maior reconhecimento, uma vez que temos cada vez mais profissionais do setor nos nossos congressos.
Se lhe pedisse para tirar uma conclusão de cada um destes painéis, ou pelo menos de uma parte deles, o que é que diria?
Começando pelo primeiro painel “Atrair o cliente local: O restaurante de Hotel fora de portas”, penso que cumpriu aquilo que pretendíamos: primeiro, demonstrar que a restauração é uma área do nosso negócio extremamente relevante nos dias de hoje para gerar receita e gerar margem, embora não ao mesmo nível que o alojamento, e transmitir ao cliente que temos uma oferta igual ou melhor do que os restaurantes de rua.
O segundo painel, “Lugares que acolhem: Como promover destinos afastados”, é um pouco a imagem que nós procuramos dar do nosso congresso, que tem por princípio demonstrar que nos locais mais distantes, mais do interior, existem infraestruturas que comportam grandes eventos e onde podem ser feitos com tanta qualidade como numa grande cidade.
Recordo que o ano passado fizemos o congresso na Costa de Caparica, num concelho limítrofe a Lisboa e que nunca é procurado para grandes eventos, e nós demonstrámos que podem colocar-se lá eventos com 600 pessoas, com muita qualidade. Em Elvas, que está a mais de 200 km de Lisboa, ficou demonstrado que comemos bem, ficámos muito bem alojados, fomos extremamente bem acolhidos e conseguimos ter uma oferta extremamente interessante.
“Nós não estamos a viver uma situação particular da hotelaria, nem sequer do turismo – a situação é transversal a todos os setores. Cada vez mais há uma maior dificuldade em contratação de mão-de-obra especializada, eu diria até de mão-de-obra no global”
A terminar o primeiro dia, tiveram uma intervenção do Paulo Azevedo, que sei que o deixou muito feliz…
Foi altamente impactante para toda a gente que assistiu, penso que às vezes precisamos de descer à terra e perceber que, se calhar a nossa vida não está mal. Há situações em que precisamos de uma ‘visão de helicóptero’, como se costuma dizer, em que elevamos a nossa postura, percebemos o que está à nossa volta e encontramos as melhores soluções. O princípio era como reagir perante uma dificuldade, e essa foi a primeira mensagem transmitida. Muitas vezes achamos que os nossos são os grandes problemas, quando na realidade há pessoas que têm verdadeiros problemas e não os encaram como tal, encaram-nos como uma oportunidade, e a transmissão dessa ideia foi muito impactante.
No segundo dia, tivemos a “Evolução da sustentabilidade na hospitalidade” e aí trouxemos uma maneira de ver diferente de um professor da Les Roches, o Jaime R. Vaz, que nos trouxe inputs um pouco diferentes daquilo com que estamos habituados a lidar no dia-a-dia. Depois tivemos profissionais do setor que nos demonstraram que estamos no bom caminho, que de alguma forma já estamos de olho nesses objetivos e nesses princípios.
O quarto painel, “Performance e bem estar: Um novo equilíbrio na gestão hoteleira” foi claramente sobre as pessoas. Foi apresentado um estudo sobre o bem-estar na hotelaria e percebermos que, ao contrário do que é dito, não estamos assim tão mal. As pessoas reconhecem a hotelaria como uma profissão interessante, muito acolhedora e muito atrativa para trabalhar. E também ao contrário do que é dito, não é sinónimo de se ganhar mal.
Aqui não resisto a perguntar: então porque é que temos tanta falta de mão-de-obra qualificada?
Vamos por partes, é uma coisa muito simples. Nós não estamos a viver uma situação particular da hotelaria, nem sequer do turismo – a situação é transversal a todos os setores. Cada vez mais há uma maior dificuldade em contratação de mão-de-obra especializada, eu diria até de mão-de-obra, no global.
Como é óbvio, não estou a dizer que ganhamos bem, mas é preciso atentar que há aqui várias questões, porque uma coisa é a parte financeira, outra coisa é parte complementar, de bem-estar e tudo isso. E penso que a hotelaria, à semelhança de outros setores, tem um caminho a percorrer no sentido de melhorar as condições. Mas atenção: inevitavelmente, nós vamos ter sempre uma dificuldade que é a de trabalhar por turnos, porém, esse é o perfil de todos os serviços, toda a área de serviço que existe tem esta dificuldade.
Depois tivemos o lançamento de um livro, Gestão Hoteleira 2, feito em conjunto entre a academia e os profissionais, que aborda todas as áreas dentro da gestão hoteleira, seguido de uma palestra do Ricardo Pinhão, com o “Performance 2.0: O poder da respiração”, com que se pretendeu dar algumas ferramentas para controlar os níveis de stress e a adrenalina que existe dentro de uma operação. Foi extremamente interessante, deu-nos alguns inputs extremamente relevantes de como fazer alguns métodos de respiração que nos podem trazer uma mais-valia em termos de gestão pessoal.
No final falámos do impacto da Inteligência Artificial na de gestão hoteleira. No ano passado trouxemos mais uma visão global, muito mais abrangente do que a hotelaria, neste congresso procurámos fazer o contrário, que era trazer a palco aquilo que já está a fazer-se hoje e tentar transformar a palestra do ano passado em casos concretos do que poderemos utilizar já hoje na nossa gestão do dia-a-dia.
“Este é o ponto alto em termos de exposição da associação, depois no dia-a-dia vamos trabalhando muito mais a componente específica dos diretores, o que passa muito pela formação modular e a formação dos profissionais, e aí vamos ter algumas novidades”
Portanto, podemos dizer que o balanço foi muito positivo?
Em relação ao congresso sim, foi muito positivo, a aceitação foi massiva, o que é motivo de grande satisfação para nós. Mas também não podemos deixar de lado os prémios Xénios que, de ano para ano, têm vindo a consolidar-se. Em termos de pontuações, elas vão evoluindo, uns anos mais, outros anos menos, o que se prende muito com os participantes e as campanhas que eles fazem, porque fazem verdadeiras campanhas de votação.
Mais do que tudo, é demonstrar a importância que tem o reconhecimento dos profissionais, e aqui os prémios são um pequeno apontamento, mas a verdade é que refletem exatamente a importância deste reconhecimento. E tem sido muito positivo, nós, cada vez mais, temos pedidos de incorporar novas categorias.
Com as candidaturas aos prémios, e o trabalho que antecede o Congresso, são vários meses de grande exposição da ADHP, mas a associação pretende estar sempre presente na vida dos seus associados. O que é que têm previsto para o resto do ano?
Este é o ponto alto em termos de exposição da associação, depois no dia-a-dia vamos trabalhando muito mais a componente específica dos diretores, o que passa muito pela formação modular e a formação dos profissionais, e aí vamos ter algumas novidades. Contamos lançar, a muito breve prazo, um curso de Power BI, que vai ser extremamente útil aos diretores numa perspetiva de análise de dados, análise de resultados, ferramentas para trabalhar esses dados. Estamos a ponderar também lançar individualmente o curso de análise de dados.
Temos o curso de especialização, que é uma das nossas bandeiras, um curso de 356 horas e que tem módulos que, individualmente, podem ser uma mais-valia para os profissionais. Continuamos a dar ênfase a esses módulos, que vão desde a legislação laboral, legislação hoteleira, gestão de compras, gestão operacional, gestão de F&B, todas as áreas em que um diretor de hotel toca.
Para além disso, iremos realizar pequenos seminários, sobre áreas específicas e muito mais reduzidas em termos de tempo. Muitos são online, quer a nível de formação, quer a nível de webinars.
Estamos, também a contar relançar este ano, o ‘Be Our Guest’, numa versão um pouco diferente. O que tivemos no passado foi sempre numa perspetiva de trazer alguém que fosse uma referência, que nos pudesse inspirar e transmitir a sua forma de trabalhar. Vamos inverter este conceito, no sentido de transmitir alguma informação que possa ser útil aos diretores num contexto completamente fechado, em que vamos convidar diversas pessoas, desde agentes de viagens, de companhias de aviação, agências online, tudo isso… que nos possam trazer números à porta fechada, que nos falem de tendências de procura, de mercados a explorar, acredito que vai ser uma operação interessante para nós e vai trazer inputs extremamente relevantes para os diretores do hotel.
Continuaremos a trabalhar na internacionalização do networking que estamos a fazer com as restantes associações a nível internacional.
“(…) o que nos foi garantido pelo secretário de Estado, na nossa última Gala, foi que constava do novo RJET esta obrigatoriedade do diretor de hotel com formação superior e/ou experiência profissional de mais de 5 anos em direção departamental, para hotéis de 4 e 5 estrelas, com mais de 100 unidades de alojamento”
Nestes quatro anos, quando pensou assumir a presidência da associação, traçou ideias para desenvolver ao longo desse período. Acha que concretizou grande parte delas?
Vou ser sincero: o meu objetivo não era ser presidente, eu sempre fui o número dois do Raúl Ribeiro Ferreira, a sequência deste mandato foi apenas uma: alcançarmos o objetivo do reconhecimento da profissão.
No passado, o caminho que idealizámos era o de uma Ordem, mas a partir do momento que houve a desregulamentação da profissão percebemos que a Ordem iria ser muito complicada ou mesmo impossível de alcançar com os objetivos que nós queríamos, que era tornar obrigatório a posição de diretor do hotel, então entendemos que seria possível através da revisão do RJET, daí o continuar desta direção.
Aparentemente, esta situação está ultrapassada, o secretário de Estado confirmou-nos a presença deste ponto no RJET, que foi um ponto de que nós pedimos a revisão, integrado numa série de melhorias que nós, e outras associações, propusemos.
Vimos reconhecida pelas outras associações, como a AHRESP, a importância deste ponto, e o que nos foi garantido pelo secretário de Estado, na nossa última Gala, foi que constava do novo RJET esta obrigatoriedade do diretor de hotel com formação superior e/ou experiência profissional de mais de 5 anos em direção departamental, para hotéis de 4 e 5 estrelas, com mais de 100 unidades de alojamento. Essa obrigatoriedade está inscrita no RJET e quando alcançarmos isso, será o nosso grande marco e o cumprimento do nosso objetivo de mandato.
É claro que existiam outros objetivos, e isso foi-se conseguindo ao longo do tempo, como a dinamização da associação, a sustentabilidade da mesma, porque com esta questão destes eventos mais fortes temos assegurada a sustentabilidade da associação, que era preocupante há alguns anos.
E o número de associados, tem crescido?
Temos crescido, mas cada vez mais essa é a menor das bitolas, e por uma razão muito simples: hoje em dia o associativismo – custa-me dizer isto -, se não está morto, para lá caminha. O associativismo pessoal, não empresarial, cada vez mais, é menos presente, claro que os associados são muito importantes, são o reconhecimento do nosso trabalho e têm um tratamento muito especial, mas sem dúvida que quando temos um congresso com o número de participantes que temos, é o reconhecimento de que estamos no bom caminho.


