“Estamos a atrair um turista que consegue pagar mais por aquilo que recebe” afirma Rosa Costa, DRT Açores
A um mês e meio do final do ano, nos Açores já se considera 2022 como o melhor ano turístico de sempre. Um ano que levou à região mais hóspedes, mais dormidas e mais receitas do que em 2019. O Turisver falou com a diretora regional de turismo dos Açores, Rosa Costa, para saber o que é que está diferente nos Açores, que caminhos estão a ser trilhados e que trabalho está a ser feito para o futuro.
Os Açores parecem estar numa encruzilhada entre mais turistas ou melhores turistas. Ainda pretendem as duas coisas ou já estão com uma opção definida?
Queremos melhores turistas e este ano revela que tivemos melhores turistas já que tivemos uma receita bastante acima daquela que auferimos em 2019 que tinha sido o melhor ano de sempre. Este ano, ultrapassámos 2019 em número de hóspedes e de dormidas mas também ultrapassámos grandemente a nível das receitas, o que significa que, tendencialmente, estamos a atrair um turista que consegue pagar mais por aquilo que recebe que são as experiências nas ilhas açorinas, que são distintas de quaisquer outras que possam existir na Europa.
Para ter melhores turistas é necessário ter um padrão de qualidade elevado. Os Açores estão a fazer esse percurso em termos, por exemplo, do alojamento, do produto turístico…?
Em termos do alojamento é de notar que antes da abertura do espaço aéreo, tínhamos cerca de metade das camas que temos hoje e os vários projetos que têm sido feitos abrangem as áreas dos empreendimentos turísticos e do alojamento local. Ao nível dos empreendimentos, tem sido feita uma aposta em unidades de menor dimensão mas com mais valor acrescentado e todos os que têm sido inaugurados nos últimos tempos apostam num acréscimo de valor para quem fica lá hospedado, o que revela que os investidores açorianos estão preocupados com a qualidade da oferta e do value for money. Por outro lado, as unidades que têm surgido ao nível do alojamento local têm vindo a qualificar o edificado nas várias ilhas.
Existem fundos específicos para a recuperação de unidades hoteleiras?
Termina agora o último Programa Operacional para os Açores, com fundos comunitários e já desde o ano 2000 que têm vindo a existir vários fundos que têm sido direcionados para a recuperação ou, eventualmente, também para novos investimentos na área dos empreendimentos turísticos. É de prever que o próximo Quadro Comunitário tenha também incentivos preparados para o investimento e para a qualificação da nossa oferta.
As marcas hoteleiras também aportam valor e em termos de grupos nacionais já têm alguns, como o Vip Hotels, a DHM, o Grupo Pestana…Há novas intenções de investimento por parte desses grupos?
Neste momento não temos informação que tenham perspetivas de mais investimento mas temos tido alguns contactos, no sentido de perceberem como podem investir cá e saberem o que o mercado necessita ao nível de oferta.
Temos prestes a abrir um hotel da Vila Galé, em construção está um hotel do Grupo Accor e vamos ter um da Hilton e, naturalmente, esses investimentos são importantes para nós a nível da notoriedade. Se temos essas cadeias a investirem nos Açores é porque já há um reconhecimento da qualidade do turismo e do produto que oferecemos.
Essa qualidade tem sido transversal às várias vertentes do turismo, nomeadamente a restauração, as agências de incoming, entre outros?
Tem havido uma evolução, tem havido investimentos em novos restaurantes, as empresas de animação turística cresceram muitíssimo nos últimos anos, tal como têm nascido novas agências de viagens e DMCs, para conseguir prover as necessidades dos turistas que nos visitam. Têm sido também ministradas várias ações de formação que contribuem para que estas empresas evoluam e profissionalizem cada vez mais os seus recursos humanos.
Um dos grandes desafios que temos pela frente e que é transversal a todo o país, é o da qualificação profissional mas estamos a trabalhar para que a questão possa ser ultrapassada de forma a garantir a qualidade da experiência de quem nos visita.
Nos Açores, a competência da formação profissional está na Secretaria Regional do Turismo?
Está na Secretaria da Qualificação, Emprego e Formação Profissional que tem na sua tutela a escola de Formação Turística dos Açores que ministra cursos profissionais na área do turismo mas que também valida todos os cursos que são ministrados pelas outras escolas profissionais em todas as ilhas dos Açores, muitas delas com cursos na nossa área.
Mas há diálogo entre as duas Secretarias Regionais e respetivas Direções?
Há um contacto permanente para perceber quais são as necessidades do setor e de que forma podem ser providas essas necessidades. Aliás, neste Encontro Regional do Turismo esteve presente o diretor Regional do Emprego e Formação Profissional.
“A ideia da criação destas rotas [temáticas] é levar os turistas a visitar zonas menos conhecidas das ilhas dos Açores, fazendo-os dispersar-se por outras localidades onde possam vivenciar experiências únicas, autênticas, com a comunidade local, com a gastronomia local, e aprenderem mais sobre a história e a cultura dos Açores”
Dada a dispersão territorial dos Açores não deve ser fácil organizar o produto turístico. O que é que te sido feito em relação à criação de produto?
Temos um projeto a decorrer, já com três rotas temáticas, nomeadamente, a Rota da Baleação, a Rota dos Vulcões e a Rota da Vinha, que abrangem as nove ilhas dos Açores – a Rota da Vinha é a exceção porque abrange apenas seis ilhas. A ideia da criação destas rotas é levar os turistas a visitar zonas menos conhecidas das ilhas dos Açores, fazendo-os dispersar-se por outras localidades onde possam vivenciar experiências únicas, autênticas, com a comunidade local, com a gastronomia local, e aprenderem mais sobre a história e a cultura dos Açores.
Temos dado formação a várias empresas de animação turística e agências de viagens, no sentido de eles poderem alterar o seu catálogo de produtos e incluir esta oferta que é diversificada e que tem um valor acrescentado por levar os turistas a zonas muito interessantes das ilhas que são ainda desconhecidas.
Desenvolvemos um projeto de ciclismo, começámos na ilha de Santa Maria, que tem rotas com vários níveis de exigência e que também tem o propósito de levar os turistas a conhecerem zonas distintas da ilha, que possam deixar valor nessas localidades, gerar emprego e oportunidades de empreendedorismo. Já começamos a ver, em localidades pequenas onde não havia nada relacionado com o turismo, o aparecimento de restaurantes e empresas de animação turística.
Vamos alargar o lastro das nossas rotas, estamos a trabalhar na Rota Industrial, selecionando todas as indústrias ativas ou que já não estejam em atividade mas que sejam visitáveis e possam contar uma história sobre a nossa cultura e a nossa vivência. Especialmente na área do agroalimentar há empresas que estão em laboração mas não têm espaço de visitação nem de compra e estamos a dar formação no sentido de os empresários poderem alterar os seus locais, ou seja, mesmo que não se possa visitar a produção por razões de higiene alimentar, que possam ter um espaço onde tenham uma zona de interpretação sobre o que produz e onde se possam comprar produtos típicos dos Açores.
Para além disso, vamos desenvolver uma nova rota de grande interesse que vai incluir o nosso espólio subaquático. É uma rota sobre as ligações marítimas que os Açores tiveram e todas as interações que tivemos a esse nível, e sobre a forma como tudo isto interferiu na forma como somos e na nossa cultura, gastronomia e tradições. Esta vai ser uma rota visitável em terra mas também no mar, o que será uma grande novidade.
Continuamos a trabalhar na nossa rede de trilhos que é única, temos 90 trilhos num total de quase 1.000Km, que nos levam a paisagens exuberantes que são diferentes de ilha para ilha. Cada ilha tem os seus interesses e queremos promove-los por ilha e não só a nível global.
Um dos grandes problemas do turismo português, hoje já minimizado no Continente mas ainda não nos Açores, é a sazonalidade. Para que mercados é que já conseguem oferecer Açores todo o ano?
Esse é um tema muito importante que tem muito a ver com a comunicação e com a promoção. A verdade é que os mercados europeus são mais tímidos no inverno, o que se deve aos períodos das férias escolares mas a aposta que os Açores têm feito no mercado norte-americano tem surtido grande efeito. Em apenas cinco a seis anos, o mercado americano escalou quase para o primeiro lugar, está lado a lado com o mercado alemão, que tem sido tradicionalmente o mercado mais importante para os Açores no que toca aos mercados estrangeiros.
O mercado americano viaja todo o ano e o turista que procura os Açores procura-nos por sermos um destino de natureza, não se importando de vir para os Açores no inverno e fazer trilhos mesmo que o tempo não seja muito favorável porque em casa tem neve até à porta de entrada. Quem gosta de turismo de natureza vem aos Açores de qualquer forma.
Há outros mercados prioritários a trabalhar para o inverno, o mercado nórdico, por exemplo, também é muito interessante.
O mercado nórdico já foi um dos principais mercados para os Açores…
É verdade, foi a grande aposta em 1999 e 2000, com uma operação com que se deu a grande vaga do turismo na região e se começou a olhar com atenção para a importância do turismo. Foi nessa altura que começaram a ser construídos mais alguns hotéis e se começou a apostar num setor que hoje está a funcionar bem, que é promissor para os Açores pela sua transversalidade e por potenciar os produtos açorianos e por beneficiar, de forma indireta, várias outras áreas.
Porque caiu o mercado nacional para os Açores nos meses de verão
Nos meses de verão, nomeadamente em julho, agosto e setembro, o mercado nacional caiu face a anos anteriores. A que é que se deveu?
O mercado nacional, mesmo em anos de pandemia, tem sido sempre forte para os Açores e estendeu-se por mais meses no ano. Tivemos um primeiro trimestre que foi fraco a todos os níveis mas depois começámos a recuperar e para todas as ilhas. Portanto, os turistas nacionais, ao invés de se concentrarem nos meses de verão, começaram a distribuir-se pelo ano todo. Exemplo disso foi o último trimestre de 2021 em que conseguimos alcançar os melhores números de sempre em várias ilhas, o que é ótimo porque ajuda a atenuar a sazonalidade. Para o mercado nacional é preciso também passar a mensagem de que os Açores são visitáveis durante todo o ano. Não somos um destino de sol e praia, somos um destino de natureza que em qualquer altura do ano pode ser visitado, com qualidade e a garantia de uma boa experiência.
Dentro de três semanas vão receber o congresso da APAVT e vão cá ter a grande distribuição. Que mensagens é que vai querer transmitir aos agentes de viagens portugueses?
Primeiro, é uma honra receber o congresso da APAVT nos Açores, em Ponta Delgada, e estamos muito entusiasmados pela retoma dos grandes eventos, nomeadamente este que é específico para o setor do turismo. A mensagem que estamos a passar tem a ver com o caminho que temos feito, um caminho que tem sido difícil mas com muito valor no que diz respeito à sustentabilidade do destino.
Somos um destino turístico sustentável, certificado pela Earth Check, segundo os padrões da Global Sustainable Tourism Council e este não é apenas um selo, é uma certificação que exige auditorias anuais, que exige o envolvimento de toda a sociedade, quer institucional, quer dos privados, quer da própria comunidade e queremos transmitir esse trabalho que temos vindo a fazer e que tem sido reconhecido nos vários cantos do mundo. Já vamos no terceiro ano de prata e vamos querer atingir o galardão de ouro em 2024 e isto é sinónimo de todo um trabalho que toda a região tem feito no sentido de conseguir garantir a proteção do destino e da sua natureza, e de investir também nos outros pilares da sustentabilidade, o económico e o cultural.
Estamos com muita vontade de mostrar este trabalho, de continuar a trabalhar com os agentes de viagens nacionais que têm sido muito importantes para o desenvolvimento do turismo nos Açores. Queremos passar também a mensagem de que os Açores têm muito para oferecer, que têm um potencial imenso que os agentes de viagens ainda necessitam de descobrir e penso que este evento vai conseguir despertar mais alguns agentes para a nossa realidade e para o que temos para oferecer.
*O Turisver falou com a diretora Regional de Turismo à margem do Encontro Regional de Turismo dos Açores que decorreu na ilha de Santa Maria, onde nos deslocámos com o apoio da Azores Airlines e da Bestravel.


