Eduardo Correia da Bestravel Parede: “Um crescimento zero vai dar menos rentabilidade e para mim é isso que pode acontecer em 2026”
A concorrência dos angariadores de viagens, as campanhas de vendas antecipadas, o balanço do ano e as perspetivas que se abrem até ao final de 2026, foram temas que estiveram em cima da mesa na segunda parte da entrevista do Turisver a Eduardo Correia, diretor da agência de viagens Bestravel Parede.
Hoje há uma situação nova na distribuição que surgiu com grande expressão a seguir ao Covid, que é a figura do consultor ou angariador de viagens. Até que ponto é que uma agência de viagens na Parede já sente esse impacto?
Aqui, diretamente na nossa área de atuação não senti muito, porque nós temos a nossa loja implantada numa zona de hábitos de consumo muito enraizados localmente. Aqui na Parede, entre 100 a 200 metros à nossa volta, temos o mercado, temos lojas de roupa de qualidade, temos óticas, várias clínicas médicas, clínicas dentárias, temos todos os bancos, portanto, o comércio de rua, o chamado comércio local, está perfeitamente enraizado, até porque não estamos numa zona que seja um simples dormitório.
Agora se me preocupa? Digo que sim, porque eu não sei qual é a percentagem de habitantes da Parede que são meus clientes, ou melhor, que a minha faturação representa, mas acredito que não chega sequer aos 40%, porque fazemos muitas vendas fora do âmbito local, e obviamente aí é que sentimos que o mercado está a ser invadido pelos tais angariadores, e penso que deveria haver uma maior regulamentação e fiscalização.
Não tenho nada contra as pessoas que angariam clientes na área das vendas de viagens, se cumprirem os mesmos critérios das agências de viagens acho normal que assim o façam, mas se eu que tenho RNAVT e por isso sou obrigado a cumprir com determinadas regras não posso assumir nem aceitar que exista um grupo de pessoas que não as cumpra e que não haja fiscalização para isso. Vou dar um exemplo: se a minha agência não tiver pago o seguro até 31 de dezembro é-lhe automaticamente retirado o RNAVT, portanto, se eu tenho que cumprir regras os angariadores que vendem viagens também têm.
Outro aspeto que penso ser preocupante é o do serviço ao cliente. Um mau serviço prestado por um angariador, leva a que os clientes deixam de trabalhar com aquele angariador, depois até podem vir a uma agência, mas já estão de pé atrás, porque pensam que é tudo a mesma coisa, e não é. Por isso penso que deveria haver uma campanha forte, não só por parte das associações que existem no mercado, a APAVT e a ANAV, bem como por parte do próprio Turismo de Portugal e também da parte de todos os grupos e agrupamentos, que chegasse aos consumidores para comunicar que os angariadores não são agências, que os angariadores não prestam o mesmo tipo de serviço que as agências de viagens prestam.
“Sempre digo que se há margem para começar a vender a dois e de repente se baixa para vender a um e meio, a um e quatrocentos ou a um e trezentos… peço imensa desculpa pela minha ignorância em termos de gestão comercial, mas estabilize-se o mercado e venda-se logo a um e meio”
O ano 2026 começou com campanhas e em vendas que já vinham do ano anterior, por volta de novembro e como essas vendas antecipadas correram bem, começou a haver uma grande euforia, e as campanhas sucederam-se até à BTL, algumas continuaram mesmo depois. Essa situação faz sentido ao nível da venda de viagens?
Para mim taxativamente, não. Não faz sentido haver tantas promoções porque isso faz é dispersar a opinião dos próprios clientes, ou seja, um cliente que começa a ver uma viagem em outubro para fazer em agosto do ano seguinte e depois vai empatando porque não é o momento ou porque tem outras coisas para fazer e que depois, quando finalmente decide que é hora de comprar já vê que a viagem está mais cara, mas de repente volta a ficar mais barata do que estava, é algo que, na minha opinião, acaba por criar insegurança no próprio cliente.
Sempre digo que se há margem para começar a vender a dois e de repente se baixa para vender a um e meio, a um e quatrocentos ou a um e trezentos… peço imensa desculpa pela minha ignorância em termos de gestão comercial, mas estabilize-se o mercado e venda-se logo a um e meio e depois cada agência que faça o seu trabalho comercial e coloque a margem que entender, de acordo com a tipologia de cliente que tenha à frente no momento, mas não vejo lógica rigorosamente nenhuma naquilo que se está a fazer. Claro que para os operadores isso é importante porque garantem as suas operações charter o mais cedo possível e garantem tesouraria, o pior é quando isso não acontece.
Há situações em que a oferta colocada no mercado é muito grande e mesmo com muitas vendas antecipadas não há garantia de que a determinada altura os charters estejam cheios, e a determinada altura volta-se às campanhas e a mexer no preço e quem comprou com muita antecipação acaba por sentir-se prejudicado. Essa situação afeta-vos?
Claro que essa situação nos afeta. As agências de viagens são completamente alheias na produção, mas são elas as responsáveis no cara-a-cara com quem vem comprar. Não tendo nós responsabilidades na produção, nem do pacote nem do preço, para o cliente somos nós que estamos a vender e somos nós que temos a responsabilidade.
Ainda na passada quinta-feira tive de falar com um cliente por causa de um pacote de um operador turístico que ele tinha comprado para Malta. Ora essa operação charter foi cancelada e a primeira reação do cliente foi dizer que ‘vocês não podem fazer isso, então vocês vendem-me uma coisa que depois cancelam?’ e eu tive de explicar os trâmites todos ao cliente. Ultrapassei a situação com alguma facilidade porque é um cliente que por acaso é um amigo, consegui explicar e ele entendeu, mas noutros casos a situação fica difícil de ultrapassar.
A responsabilidade não é nossa, mas o primeiro embate com a reação dos clientes recai sobre nós, somos nós que a sofremos, e isto acontece porque as ofertas são tantas que os operadores canibalizam-se uns aos outros. Não faz sentido termos não sei quantas operações charter para a República Dominicana, ou para o México, até porque algumas, durante o ano, vão sendo canceladas. O que faz sentido, se calhar, é que os operadores tentem falar uns com os outros, especializarem-se em áreas. Vou dar um exemplo prático que penso certo: o operador Viajar Tours especializou-se e são os únicos que fazem o destino Creta em charter, e se mais alguém for tentar fazer Creta – e é até provável que qualquer dia mais alguém tente – vai encontrar um operador que já está implantado no mercado e é especialista no destino, e por isso tem vantagem. Era como eu agora resolver fazer pacotes à medida para a República Dominicana – isso não faz sentido, se calhar poderia fazer para outros locais onde não há tanta oferta mas nunca para um destino que já tem quem faça e bem.
“Temos de dividir o ano em duas fases, o pré-Irão e o pós-Irão. O pré-Irão, sem dúvida nenhuma, foi muito positivo, antes de começar a guerra nós estávamos com uma taxa de crescimento bastante elevada em relação ao mesmo período do ano passado. Neste momento, passado um mês e pouco do início da guerra dos EUA com o Irão, o nosso ano está igual ou ligeiramente superior“
Apesar de tudo vai ser um bom ano para a Bestravel da Parede?
Temos de dividir o ano em duas fases, o pré-Irão e o pós-Irão. O pré-Irão, sem dúvida nenhuma, foi muito positivo, antes de começar a guerra nós estávamos com uma taxa de crescimento bastante elevada em relação ao mesmo período do ano passado. Neste momento, passado um mês e pouco do início da guerra dos EUA com o Irão, o nosso ano está igual ou ligeiramente superior àquilo que estava o ano passado.
Penso que temos de verificar o que é que aconteceu com a procura desde que começou a guerra, é verdade que se continuou a vender, mas muito menos. Claro que os clientes agora procuram outros destinos, mais para a região da América do Sul, pelo facto de estar longe mais longe do epicentro da guerra, e porque para tudo o que são viagens de Portugal para a Ásia deixámos de ter os hubs normais que seriam Abu Dhabi, Dubai, e Qatar. A partir do momento em que esses estão fora da equação e passa a haver só Istambul, Frankfurt ou, eventualmente mais para norte, com a British Airways, em Londres, começa a haver poucas soluções de voos e opções muito mais caro para se chegar à Ásia.
Esta situação faz com que já estejamos a notar uma procura para destinos na África e da América do Sul, para a América Central não tanto. Já tivemos clientes que queriam ir para a República Dominicana mas quando o Trump resolveu entrar na Venezuela cancelaram a viagem por considerarem que é muito próximo e pelo receio de que possa vir a haver ações semelhantes, durante o verão, em Cuba.
Apesar de ter havido muitas vendas antes da guerra do Irão, este tem sido um ano muito trabalhoso para as agências de viagem por causa das modificações constantes que tiveram fazer. Como é que foi na vossa agência?
Efetivamente, o ano está a ser mais trabalhoso e se a guerra não acaba num período de 15 dias ou três semanas vamos ter muito mais trabalho porque temos muitas vendas de grandes viagens que podem ficar em causa. Temos clientes para o Japão, para a Tailândia, para a Indonésia, tudo via Dubai, Abu Dhabi e Qatar, portanto, vai ser um problema muito complicado de gerir.
Mas deixe-me só fazer aqui um à parte. O problema do Covid acabou em 2022. O ano 2023 foi um ano que se equiparou em vendas a 2019, e quando acabou o Covid eu disse na agência, que 2023 vai ser bom, 2024 vai ser melhor ainda mas 2025 já não, e em 2026 pagamos a fatura. Não tenho presentes os números do crescimento do turismo de outgoing mas, pelo que sei, em 2025 o crescimento foi algo a roçar o zero, foi 2% 2,5%, ora, no turismo 2, 2,5% é crescimento nulo e zero é crescimento negativo porque aumentam os impostos, aumentam os custos. Um crescimento zero vai dar menos rentabilidade e para mim é isso que pode acontecer em 2026. Se não fosse a questão do Irão não se iria notar tanto, mas assim vai-se notar.
Leia aqui a 1ª parte da entrevista a Eduardo Correia, diretor da Bestravel Parede.


