Duarte Correia: “Nunca estivemos “casados” com ninguém, nem podemos estar. Na W2M temos é que estar “casados” com o mercado”
Em entrevista ao Turisver, Duarte Correia, country manager da World2Meet (W2M) fala da programação colocada no mercado para este ano e que tem a operação charter Zanzibar como grande novidade, da aposta no médio e curto curso que vai permitir um maior crescimento. Entre outros temas abordados, Duarte Correia faz uma análise ao mercado e às campanhas de vendas antecipadas e levanta o “véu” sobre a participação na BTL.
A W2M já apresentou este ano as suas propostas ao mercado. Quais são as principais alterações face à oferta do ano passado?
A principal alteração face ao ano passado, residiu na apresentação de um novo produto de longo curso, que é Zanzibar. Toda a restante programação, em termos de longo curso, mantém-se, com os destinos Cuba (Varadero), República Dominicana, Jamaica e México.
A única alteração que fizemos foi realmente apresentarmos um voo charter para Zanzibar, que é uma rotação semanal, durante o verão. Por incrível que pareça, é um produto que está a ser muito bem vendido, tanto que, nesta esta altura do “campeonato”, posso afirmar que já estamos com 50% das vendas. Portanto, as rotações todas de julho a agosto estão vendidas a 50%, o que significa que a operação poderá ser um grande sucesso.
Depois temos o médio e o short hall, que é onde nós apostamos este ano um bocadinho mais para podermos crescer, dado que o mercado nacional não tem capacidade para um segundo avião de longo curso nosso, assim como não tem capacidade para um segundo avião da nossa concorrência.
Portanto, este ano vamos ter no mercado dois aviões para o longo curso, o que é suficiente e o mercado não consegue ter um terceiro, porque não existem compradores para isso. Por isso, por este lado não temos capacidade de crescer, e a pergunta que se me colocava era ‘então para onde é que vamos crescer?’, e a resposta foi simples: vamos crescer nos voos de médio e no short.
Aí, as nossas propostas para o próximo verão são o Sharm-el-Sheikh, continuar com a Albânia, e reforçar as Baleares e as Canárias. Estamos a vender muito bem o destino Cabo Verde (Sal e Boavista), e apesar de não ser o nosso mercado, temos também ali um espacinho ali para crescer.
Nos destinos de curta distância, o que ainda não programamos são as Ilhas Portuguesas. Estamos a fazer o pacote dinâmico, as agências escolhem o avião, escolhem o hotel, combinam e reservam, agora, a tour operação propriamente dita, em charter, não estamos a fazer.
“Penso que o mercado este ano está a ter um comportamento ligeiramente diferente do que teve no ano passado. As reservas não baixaram só que no ano passado tivemos grande antecipação e este ano o que está a acontecer é que os clientes, por estarmos a fazer muitas campanhas, estão a demorar a tomar alguma decisão”
E como é que o mercado está a reagir às campanhas de vendas antecipadas, que já começaram o ano passado e ainda não pararam?
Penso que o mercado este ano está a ter um comportamento ligeiramente diferente do que teve no ano passado. As reservas não baixaram só que no ano passado tivemos grande antecipação e este ano o que está a acontecer é que os clientes, por estarmos a fazer muitas campanhas, estão a demorar a tomar alguma decisão, esperam que haja outra campanha que possa ainda ser mais barata, e isso não é bom.
Acho que o mercado tem que repensar esta situação para 2027, ou seja, tem que pensar o que fazer em relação às campanhas, porque passar três ou quatro meses com campanhas só delapida o produto e não se consegue jogar na antecipação. A W2M está disposta para contribuir, mas não fazemos o mercado sozinhos, por isso há que falar com os demais parceiros.
A oferta de que falou refere-se à W2M. E quanto ao operador Icárion, que desenvolvimento é que está a haver em termos de produtos a colocar no mercado?
Na Icárion temos um vasto leque de produtos. É um produto feito à medida e até agora temos tido grande sucesso com o que temos colocado no mercado.
Temos também a Kannak onde, em parceria com a Europamundo, temos saídas com garantia para mínimos de duas pessoas, o que é extremamente vantajoso, porque o mercado às vezes o que faz é, garante saídas mas pede mínimos, e neste caso os nossos mínimos são mesmo muito mínimos, são apenas duas pessoas.
Há dois destinos de longo curso que podem dar alguma complicação em termos das vendas, por motivos diferentes: a Jamaica, pela devastação provocada pelo furacão Melissa o ano passado, e Cuba, devido à crise energética. Vocês vão voar para estes dois destinos, por isso pedia-lhe um ponto de situação.
A Jamaica é um destino que é preocupante, porque ainda tem algumas deficiências nas infraestruturas, mas em termos da hotelaria, todos os hotéis com quem nós trabalhamos já estão operacionais, tanto a RIU quanto a Iberostar, e outras unidades, já estão operacionais. Ressalvo aqui que não estive lá pessoalmente, mas o que nos estão a dizer é que existe algum déficit de infraestruturas, nomeadamente nas acessibilidades, mas isso vai-se fazendo aos poucos, não afeta os nossos clientes.
O produto continua a ter a mesma procura que teve no ano passado, nós avisamos que pode haver alguma deficiência numa estrada ou num bairro, mas relativamente ao parque hoteleiro, temos a garantia de que está bem
Agora na outra situação, a de Cuba, tudo é imprevisível. Por exemplo, não era previsível que o Trump entrasse na Venezuela, e aconteceu. Portanto, quando se fala da Jamaica e de Cuba, não estamos a falar das mesmas situações. Na W2M temos um voo para Varadero, e já é preocupante, mas no nosso mercado há quem tenha dois.
No entanto, acho que se Trump não entrar lá, e não acredito que ele dê de salto porque vai ter outras preocupações durante este ano, que é o Irão, a situação poderá não piorar, o que pode acontecer é os EUA boicotarem o abastecimento de fuel, e aí não sei quem é que pode ajudar Cuba – eventualmente o Canadá, porque o Canadá tem uma ligação muito próxima, tem muitos interesses em Cuba, e pode vir a facilitar.
Agora, se houver um boicote de abastecimento de combustíveis a Cuba, isso sim, poderá ser um problema, até agora estamos a vender. Avisamos as pessoas de que pode haver algum problema, mas não vamos avançar com prognósticos que são irrealistas. No entanto estamos a acompanhar a situação com atenção, e quando houver algum problema, avançamos porque temos um plano B. Neste momento não vou dizer qual é o plano B, mas evidentemente, se o cliente não for para ali vamos alocá-lo noutro lado, ou então devolvemos o dinheiro.
Voltando à programação, disse há pouco que Sharm-el-Sheikh vai ser uma aposta este ano. Como é que surgiu?
Nós para podermos crescer, temos que aparecer com produtos que se vendem, uma coisa é arriscar num destino como a Albânia, outra coisa é o Egito. Na Albânia, a W2M arriscou, mas com uma garantia mais ou menos calculada de sucesso. Porquê? Porque trabalhamos com um bom hotel, tínhamos dois mercados a direcionar clientes para ali e se não houvesse um fluxo de clientes no nosso avião, tínhamos alternativa para dar cobertura, nem que fosse via Madrid.
Sharm-el-Sheikh é diferente, é um conceito de criação de produto completamente diferente, sabemos que para este destino se vai vender, não tem o risco que tem a Albânia, e a expectativa de crescimento que temos para este ano é entre os 10 e os 15%, por isso nada melhor do que apostar num destino que sabemos que à partida que o mercado português consome como é o caso de Sharm-el-Sheikh.
Nós não criamos os nossos produtos de acordo com aquilo que o operador A programa neste destino, ou o operador B programa naquele, mas sim de acordo com as sinergias que criamos dentro do grupo.
“Nós vendemos a todo o mercado, vendemos à Abreu, vendemos à Wamos e vendemos a todos os grupos de gestão. Nunca estivemos “casados” com ninguém, nem podemos estar, na W2M temos é que estar “casados” com o mercado, o que temos que ter – e a nossa postura é esta – é igualdade de circunstâncias para toda a gente”
Havia uma ligação da W2M com um grupo de gestão e agora vocês estão a aparecer como parceiros premium de outro agrupamento. Existe alguma mudança estratégica?
Nós vendemos a todo o mercado, vendemos à Abreu, vendemos à Wamos e vendemos a todos os grupos de gestão. Nunca estivemos “casados” com ninguém, nem podemos estar. Na W2M temos é que estar “casados” com o mercado, o que temos que ter – e a nossa postura é esta – é igualdade de circunstâncias para toda a gente. E isso é que às vezes pode levar a que o grupo de gestão A, B ou C, ou a rede vertical A ou B, tenha uma leitura de que somos tendenciosos para a direita ou para a esquerda, mas nós não podemos correr o risco de estar a privilegiar A ou B, porque de contrário podemos vir a ficar descalços – não, isso não existe.
Vocês são um operador com uma grande dimensão, neste momento estão a disputar a liderança do mercado mas não têm rede de agência de viagens. Como é que convivem com essa realidade?
Convivemos bem, até porque não vamos ter essa rede. Por isso mesmo é que temos que criar esse distanciamento imparcial face aos parceiros de negócio, de que falava há pouco. Nós queremos estar muito próximos do mercado, a nossa estratégia passa por estarmos muito próximos das agências de viagens, portanto, se não há necessidade de ter nenhuma rede de distribuição, para que é que se vai gastar dinheiro, para que é que se vai criar uma rede, quando assim podemos distribuir o nosso produto por todo o mercado e toda a gente fica contente.
Agora, o que eu não vou fazer nunca, nem vou defender, e sempre disse isso, é dar condições diferentes a este ou àquele, não, a nossa postura é de dar as mesmas condições a todos os parceiros do mercado, para que todos tenham as mesmas ferramentas para poder vender. Dou-lhe um exemplo que é a BTL: de há três anos a esta parte, a Wamos vem pedir condições super especiais para vendas na BTL, nós entendemos que a BTL não é uma feira da Wamos, é uma feira do mercado, de toda a gente, e o que eu sempre disse desde o primeiro momento, é que as condições para a Wamos, neste caso, são as mesmas condições que damos à Abreu e as mesmas condições que damos a todos os agentes de viagens. Obviamente que eles não gostam muito desta nossa postura, mas foi o que nós decidimos, não nos demos mal e vamos dar continuidade a isso.
“Desde a nossa entrada na BTL, sempre criámos um espaço para os agentes de viagens, nós gastamos muito dinheiro naquele espaço, e vamos ter 60 agências de viagens a vender. Portanto, é um espaço em que todos podem estar, inclusivamente, vamos ter a Abreu e a Viagens El Corte Inglês, só não temos a Wamos porque eles dizem que não querem, que já estão na feira”
O ano o grupo surpreendeu, ao terem um mega stand na BTL, e penso que até convidaram agências a usar o vosso espaço. Este ano vão voltar a fazê-lo?
Vamos ter exatamente o mesmo modelo. Desde a nossa entrada na BTL, sempre criámos um espaço para os agentes de viagens, nós gastamos muito dinheiro naquele espaço, e vamos ter 60 agências de viagens a vender. Portanto, é um espaço em que todos podem estar, inclusivamente, vamos ter a Abreu e a Viagens El Corte Inglês, só não temos a Wamos porque eles dizem que não querem, que já estão na feira.
Nós criámos um espaço exatamente para esbater aquela ideia de que a BTL é uma feira onde só do A, B ou C pode estar para vender, mas obviamente que se vamos lá pôr 60 pontos de venda, queremos ter vendas. Para além das agências que já citei vamos ter agências da Airmet, da GEA, a DIT, e a Bestravel – só não ter mesmo a Wamos.
Uma última pergunta, apelando à sua memória em relação ao ano passado. Quando é que, no ano passado, ficou sossegado e disse ‘isto vai correr bem’?
Foi após a BTL. Com as vendas feitas na BTL ficámos com a nítida sensação de que o ano iria ser excelente. Este ano, como disse, não tenho razões para duvidar do sucesso que vamos ter, mas estou atento ao comportamento do mercado que não é o mesmo do ano passado. Isto não significa que temos menos vendas, estamos bem, mas os fluxos das reservas não estão a acontecer da mesma forma que decorreram no ano passado, o que significa que temos que estar com alguma atenção.



