Congresso da ISTO nos Açores vai divulgar a região como destino sustentável, diz o presidente da INATEL
Numa organização da Fundação INATEL e da ISTO – entidade a que a INATEL aderiu há 50 anos -, os Açores vão receber o congresso mundial desta organização internacional, de 12 a 15 de outubro, em Ponta Delgada. Este foi o ponto de partida para a primeira parte da entrevista ao presidente da Fundação, Francisco Madelino, em que falámos de turismo social, de sustentabilidade e da importância deste evento para Portugal e para os Açores, em particular.
A Fundação INATEL é coorganizadora do congresso da ISTO que vai ter lugar nos Açores, sob o tema “Sustentabilidade social: uma chave motor para o futuro do turismo”. A ISTO é uma Organização Internacional de Turismo Social mas pedia-lhe que explicasse um pouco melhor do que se trata? Qual o papel que desempenha em termos internacionais?
A ISTO, como o nome indica é uma organização de turismo social, com as transformações conceptuais e envolvência que este teve desde o princípio do século XX e há que olhar uma pouco para a história para entender melhor o conceito.
O turismo social nasce, basicamente, ligado aos movimentos sociais, à agenda social e laboral do final do séc. XIX, princípio do séc. XX. Para o turismo ser uma atividade com a importância que tem hoje, tiveram que se verificar duas situações básicas. A primeira residiu na necessidade de se reduzir o horário de trabalho e, em paralelo, teve que haver o direito a férias para que as pessoas tivessem tempo disponível. Esta situação determina muito a característica do setor do turismo que é um bem que tem que ser consumido numa altura em que as pessoas não estão a trabalhar, o que acaba por gerar fenómenos como a sazonalidade.
Com a redução do horário de trabalho, havia pessoas que tinham capacidade de poupança para fazer férias e outros que a não tinham, pelo que a segunda disponibilidade do turismo social foi a de haver alterações tecnológicas e políticas – a mobilidade de pessoas, por exemplo – que permitissem que o turismo ganhasse a escala mundial que tem hoje. Portanto, as alterações do mercado de trabalho, aliadas às alterações tecnológicas e políticas – caso da vitória do liberalismo a seguir à II Guerra Mundial – é que estão na base do setor turístico.
As associações operárias, sindicais e humanistas do final do séc. XIX começaram a ter centros de férias ou, quando os não tinham, negociavam com hotéis e outras instâncias, para conseguirem férias para os seus próprios trabalhadores. O turismo social nasce deste tipo de associações. A própria Fundação INATEL, com as vicissitudes do regime em Portugal – primeiro, os sindicatos, depois os sindicatos corporativos, depois ainda com o salazarismo e o Estado Novo, quando os bens dos sindicatos foram nacionalizados – foi criada para proporcionar lazer aos trabalhadores, dentro da lógica de que falei.
Esta ideia do turismo social foi sendo alargada a outras componentes que são as pequenas entidades de desenvolvimento local que promovem as atividades turísticas, não lucrativas, que foram surgindo, fosse para pensionistas ou para levar as pessoas para fora do território ou para atrair pessoas para o seu território. Ou seja, o conceito vai passando de turismo social para turismo solidário e para turismo sustentável.
Eu diria que é desta tradição e é da associação destas entidades a nível mundial, com as vicissitudes que têm as suas histórias em todo o mundo, que acaba por resultar o nascimento da ISTO. No Centro da Europa, por exemplo, há uma lógica muito associada a algumas organizações do catolicismo progressiva, na Europas do Sul há uma ligação maior à Segurança Social e aos sindicatos ou, no caso do mundo anglo-saxónico mais ligada a entidades não lucrativas. Portanto, eu diria que é este turismo “alternativo” que está presente na ISTO, já que o turismo onde o mercado funciona, não está aqui presente.
“Para fazer uma conferência deste tipo, teríamos, à partida, dois lugares, ou a costa alentejana ou os Açores“
É com estes conceitos que se desenvolvem em Portugal entidades várias até chegarmos à Fundação INATEL?
Evidentemente que há uma complementaridade entre as entidades, estas associações humanistas, operárias, foram nascendo com estas diversas heranças, umas mais ligadas ao sindicalismo de classe, mais marxista, outras ligadas ao sindicalismo mais católico, outras mais ligadas a associações de origem progressista e maçónica do final de séc. XIX – os Ateneus, a Voz do Operário – que encontramos em todo o país e é essa também a história da Fundação INATEL que surge até ligada às grandes filarmónicas que foram as grandes conservatórias do povo durante muitos anos, ao teatro popular e a uma matéria que hoje se tornou fundamental que é: como é que se combate a desertificação do interior e de que maneira é que o turismo pode ser uma forma de promover o interior, com capacidade para que a sazonalidade, que é mais forte no interior, não mate a rentabilidade dos projetos económicos e se desenvolvam os territórios respeitando a sua cultura. No fundo, é esta também a ideia do turismo sustentável: defender a cultura mantendo a diversidade, defender o ambiente e combater a desertificação. É óbvio que quando a economia e o mercado funcionam é o ideal, no sentido em que existe uma atividade económica que funciona só por si.
A Fundação INATEL é membro da ISTO há exatamente 50 anos. Terem conseguido trazer para Portugal, concretamente para os Açores, este congresso mundial, que versa sobre sustentabilidade social e turismo, o que é que pode representar para o nosso país?
Sobretudo, é importante marcar que quem faz turismo sustentável em Portugal, nesta vertente mais social – é evidente que há projetos económicos na atividade turística que também são sustentáveis -, tem uma história de 50 anos. E tem mais: a própria INATEL é das poucas organizações que passou do Estado Novo para o Estado Democrático e que todos os operadores – sindicatos, associações humanistas, etc. – pediram que fosse mantida, pela sua ligação aos territórios e às pessoas. Essa é uma manifestação de uma tradição em Portugal.
Em segundo lugar, significa que Portugal tem enormes condições no que toca à atividade turística, a diversidade e a riqueza do património natural e do ambiente em Portugal é uma forte fonte de turismo. Caminhamos do Algarve para o norte e caminhamos de uma cultura e de uma paisagem mediterrânica para uma paisagem atlântica ou, como diria o Orlando Ribeiro, passamos do Portugal do adobe para o Portugal da pedra em 500 quilómetros, com uma diversidade de paisagem e de culturas, e ainda temos as ilhas atlânticas. Como alguém disse um dia, Lisboa é a capital atlântica mais mediterrânica do mundo. Em Portugal temos regiões onde o turismo nasceu há 50, 60 ou 70 anos, com alguns problemas de ordenamento do território, outros, como a Madeira, onde o turismo já tem séculos, mas o facto é que temos potencialidades enormes em todo o país.
“O turismo, nos Açores, crescido muito pelas condições únicas de ligação à natureza, pelas condições únicas para fazer caminhadas, para fazer uma série de atividades, sempre respeitando a natureza e o ambiente e isso faz com que seja um destino ideal para esta conferência em que se vai falar de turismo social, de sustentabilidade”
Para fazer uma conferência deste tipo, teríamos, à partida, dois lugares, ou a costa alentejana ou os Açores mas os Açores, pela sua própria identidade, pela sua natureza, pelo seu turismo que tem por base essa natureza, é o local ideal. Por outro lado, para levar a efeito um evento como este havia necessidade de envolver as autoridades regionais e, neste caso, houve uma disponibilidade imediata do Governo Regional dos Açores, embora também tivesse havido no caso do Alentejo, mas haverá tempo para todos.
Este evento é, também, uma forma de divulgar Portugal e a região que recebe o congresso, neste caso os Açores. É verdade que nós, INATEL, temos duas unidades hoteleiras nos Açores, uma nas Flores e outra na Graciosa, mas fazer o congresso em São Miguel, onde o turismo está a crescer, é também a oportunidade para mostrar que temos um paraíso e que é importante mantê-lo para não matar a “galinha dos ovos de ouro”. O turismo, nos Açores, tem crescido muito pelas condições únicas de ligação à natureza, pelas condições únicas para fazer caminhadas, para fazer uma série de atividades, sempre respeitando a natureza e o ambiente e isso faz com que seja um destino ideal para esta conferência em que se vai falar de turismo social, de sustentabilidade.
Os Açores têm até tido várias distinções em termos de sustentabilidade…
É verdade, os Açores foram o primeiro arquipélago do mundo a ser certificado como “Destino Turístico Sustentável” e, num momento em que a agenda do turismo passa muito pelos diálogos interculturais e pela Agenda 20-30 da Sustentabilidade, isso é muito importante. Depois, sob o ponto de vista político, tem até uma importância forte no Comité das Regiões. No fundo, os Açores têm tudo: têm natureza, têm energia sustentável e é impossível, para quem aterra pela primeira vez nos Açores, não ter um olhar de espanto perante a beleza das ilhas, que têm a sua própria diversidade.
Receber um evento desta natureza pode beneficiar o destino, nomeadamente no que toca à promoção “boca a boca”?
Sabendo-se que em turismo o que conta são as emoções e as experiências, o efeito demonstração e o “boca a boca”, para além do mediático, são as vertentes mais fortes. Dou um exemplo: atendendo aos conflitos no norte de África, Portugal, por ser um destino de segurança, levou a que houvesse uma deslocalização dos fluxos turísticos e a que houvesse uma “descoberta”, de Lisboa e de Portugal. Muitos diziam que quando os conflitos acabassem as pessoas deixariam de vir e isso não aconteceu, esses fluxos continuam a manter-se e mesmo depois da pandemia também havia essa dúvida que já se provou estar errada. As coisas aconteceram por “ondas”, primeiro em Lisboa, depois no Porto e agora é necessário que cheguem ao interior, mas vão chegando, como estão também a chegar aos Açores.
No caso dos Açores há um problema acrescido, que é o facto de o transporte aéreo ser a única forma de lá chegar mas a redução do custo do transporte aéreo por via das low cost que contribuíram para que isso acontecesse, favoreceu muito o aumento dos fluxos turísticos, primeiro para os portugueses e depois para os estrangeiros, sobretudo nórdicos, e o facto é que o turismo nos Açores não tem parado de crescer e importa manter esse crescimento. Posso dizer que a nossa unidade na ilha das Flores fechava durante uma parte do ano e agora já não fecha porque a procura existe, na Graciosa a mesma coisa, e estamos a falar de ilhas mais periféricas, porque se formos a São Miguel, ao Faial ou ao Pico, essa procura é muito maior. Políticas como a do Governo Regional dos Açores, que diminuiu o preço dos transportes para movimentação interilhas, funcionam muito bem porque ativam a procura. Quem vai e gosta vai dizer isso mesmo e levará a que outros decidam lá ir, e este é também o objetivo de levar o encontro aos Açores como foi o objetivo do Governo Regional ao fazer esta parceria connosco.
Gostava de ter a sua avaliação sobre o estado em que está o turismo mais inclusivo em Portugal? Pode já afirmar-se que temos um turismo inclusivo ou ainda temos muito a fazer?
Ainda temos muito a fazer nessa matéria. No caso do conceito mais estrito que se refere mais diretamente às pessoas portadoras de deficiência, o país alterou muito as acessibilidades mas ainda há muito a fazer. No turismo para seniores avançou-se mais, as Câmaras Municipais começaram a ter um papel importante e o Governo também avançou criando programas nos últimos anos, além de que foram sendo introduzidas alterações no Fundo Social Europeu para pagar este tipo de viagens mas notamos que ainda há um passo a dar porque ser inclusivo significa que podemos ter todo o tipo de pessoas dentro das unidades hoteleiras.
Num programa que temos do Fundo Social Europeu, não apenas para os nossos hotéis mas também para hotéis privados, verificou-se que a maior parte dos concursos ficaram abertos e não foi por uma questão de custos mas sim porque, para um outro tipo de público, há um certo medo da parte dos empresários que possa criar uma imagem negativa, mesmo na época baixa.
Em síntese, no turismo inclusivo de idosos avançou-se mais, com uma maior participação das instituições, nos outros casos não tanto. E isto é como em todas as matérias de responsabilidade social: é a procura que é determinante. Quando a procura exige, a oferta tem que ir atrás. Ora, quando a procura de quem não precisa de discriminação positiva afirma que escolhe este ou aquele hotel porque tem uma política inclusiva ou tem esta componente, o hotel começa a ter políticas de responsabilidade social. Isso acontece com empresas de alimentação, de roupas, etc., que começaram a adotar políticas de representação e programas inclusivos porque o consumidor dá importância a esses aspetos. Nos países anglo saxónicos os grandes grupos económicos criam fundações que alimentam este tipo de atividade, muitas organizações fazem crowdfunding, fazem finança ética – bancos éticos em que aquele dinheiro só é aplicado daquelas formas – mas nós ainda temos um longo caminho a fazer e o Estado ainda tem aqui um importante papel.
Amanhã no Turisver.pt pode ler a segunda parte da entrevista com Francisco Madelino, presidente da Fundação INATEL, onde serão abordados, entre outros temas:
- Colaboração entre a Fundação INATEL e o Turismo de Portugal
- A Fundação INATEL na hotelaria
- Qualificação e modernização das unidades hoteleiras existentes
- Projetos para novas unidades
- A área das viagens


