Como vai a ‘governance’ do turismo na vertente estatal e associativa na visão de Atilio Forte (3ª parte)
Na última parte da entrevista ao consultor de Turismo, Atilio Forte, que hoje publicamos, falamos do estado da ‘governance’ desta atividade económica, nomeadamente na área associativa, do papel da Confederação do Turismo, e de concertação social. Em cima da mesa esteve, também, a política ferroviária e a Estratégia de Turismo.
Costuma dizer-se que a ‘governance’ no nosso turismo é uma das coisas boas que temos tido, porque quem vem para a Secretaria de Estado não faz uma varredela da secretária e começa tudo de novo. Tem essa ideia?
Felizmente, quem tem ocupado funções governativas na área do turismo tem tido o cuidado de não destruir, de não seguir uma regra muito óbvia na política, que é “antes de mim o vazio e a seguir a mim será o caos”. Tem havido alguma continuidade e isso é, obviamente, de saudar e de enaltecer.
Sendo sempre preciso fazer coisas novas, tem havido um guião para o nosso turismo, que é a Estratégia de Turismo, que de ‘xis em xis’ anos tem de ser atualizada. Agora é o momento da ET 2035, cuja apresentação tem vindo a ser sucessivamente adiada quando se sabe que a que está em vigor acaba em 2027. Porque é que isto estará a acontecer?
Não é a mim que a pergunta deve ser colocada, também já ouvi várias vezes o anúncio, já ouvi datas concretas, mas isso não aconteceu, sendo que todos os objetivos da ET 2027 foram alcançados. Mais importante, e sem prejuízo de se terem atingido essas metas e, nós tivemos uma pandemia que fez mudar o mundo, mudou o consumo, mudou tudo, e nós decidimos, na altura, não mudar a estratégia, o que eu nunca compreendi. Mas o facto é que o resultado se atingiu, houve sorte, houve saber, com certeza, mas já na altura se devia ter refrescado a estratégia porque houve coisas que mudaram.
Não ter a ET 2035 é um problema? Quanto a mim, não, embora, uma vez que houve datas marcadas, isso devia ser consubstanciado, até porque normalmente este é um documento que vem da parte do Estado e é sempre bom sabermos o que é que o Estado pensa sobre a atividade turística e quais são os caminhos que, na sua opinião, devem ser trilhados – e estamos a falar do Estado, no seu todo, não nos governos que estão constantemente a mudar de ideias.
Felizmente para nós, o turismo é uma atividade económica eminentemente privada, e os privados são o grande motor da atividade económica, e temos continuado a contar com eles para ir desenvolvendo a atividade e, obviamente, a partir daí, temos esta rede de segurança que é importante valorizar e não quebrar. Andam aí algumas ideias no ar de fazer mudanças sobre a participação dos privados, que porventura, pode não vir a ser tão significativa, mas, enquanto o turismo for privado, e sê-lo-á sempre…
“A primeira é marcar as diferenças que a atividade turística tem das demais áreas da economia. E isto parece-me que é muito importante porque, repare-se, os ciclos produtivos do turismo, sejam os ciclos longos, médios ou curtos, são totalmente contrários aos das demais áreas da atividade económica”
Na sua análise do trajeto do turismo, o que é que seria importante ver espelhado nesta ET 2035?
Estamos a falar de uma estratégia quase para uma década e com o mundo a ter as evoluções que tem não é fácil pensar a 10 anos. Há questões estruturais que, como vimos no início da conversa, podemos projetar, mas acho que, sobretudo, há aqui três coisas que esta nova estratégia devia claramente definir.
A primeira é marcar as diferenças que a atividade turística tem das demais áreas da economia. E isto parece-me que é muito importante porque os ciclos produtivos do turismo, sejam os ciclos longos, médios ou curtos, são totalmente contrários aos das demais áreas da atividade económica. Em qualquer restaurante ou café, por exemplo, as horas de maior elaboração, o pequeno almoço, o almoço e o jantar, são as horas de menor elaboração nas outras áreas. O turismo trabalha mais aos fins de semana, as outras áreas trabalham menos, o turismo trabalha mais em agosto, as outras áreas trabalham menos, portanto, não podemos tratar o que é diferente como sendo igual.
Esta distinção é fundamental porque a nossa matéria-prima são pessoas, porque a avaliação do produto nunca se faz no ato da compra, mas aquando da fruição ou, na maior parte das vezes, à posteriori, porque não podemos criar stocks. Ou seja, há aqui todo um conjunto de aspetos que nos diferenciam, e isso devia estar perfeitamente claro, até para o país compreender as diferenças que há na atividade turística.
Uma segunda grande área que devia estar contemplada é a ligação aos transportes, e muito, em particular, ao grande cluster da aviação, porque isto é crítico, se nós não tivermos como chegar, não há turismo.
O terceiro ponto tem a ver com a questão da sustentabilidade, não só ecológica e ambiental, mas também com as cargas turísticas, com o envolvimento das comunidades locais, porque não nos podemos esquecer que, neste momento, todo o turismo, seja público, seja privado, está um bocadinho a fazer ouvidos de mercador àquilo que se está a passar. O turismo está a ficar, em alguns pontos, na sociedade portuguesa, debaixo de fogo, por causa da saturação turística, e em muitos casos, há que dizê-lo com toda a frontalidade, com razão. Nós não estamos a tomar as devidas medidas para envolvermos e para comprometermos as comunidades locais, e eu digo há muitos anos que o que é bom para as comunidades locais é bom para os turistas, tal como o que é bom para os turistas também é bom para as comunidades locais.
Isso tem várias valências: não podemos continuar com as urgências fechadas como não podemos continuar com as épocas dos fogos, mas também não podemos continuar a despejar os nossos bairros históricos das pessoas para termos alojamento destinado a turistas, porque isso vai descaracterizar o próprio bairro, porque ele era histórico, era típico e o que era importante lá haver deixa de lá estar. Não estou a criticar o alojamento local, porque se não fosse o alojamento local, porventura hoje os nossos centros históricos não podiam ser visitados, porque houve recuperação do património, vivificação, mas nem 8, nem 80. A base do produto turístico são os recursos naturais e histórico-culturais, sem isto não há produto turístico – é o ‘bê-a-bá’ que se ensina em qualquer escola – e se destruirmos isso, estamos a destruir o presente, e se saturarmos os destinos, ou alguns locais, estamos a impedir as novas gerações de os fruírem e estamos a dar ‘tiros no pé’.
“Preocupa-me mais que entre Lisboa e o Algarve continuemos a ter linha férrea única, uma via e com máquinas a diesel, ainda não está eletrificada – esperemos que esteja em breve, a obra está em curso, mas preocupa-me que as duas principais regiões turísticas do continente não estejam ligadas, queremos ligar ao interior, as nossas capitais de distrito não têm ligação ferroviária”
O turismo também é deslocação e, finalmente, parece que vamos ter, daqui a poucos anos, a primeira linha de TGV. Estamos no caminho certo em termos da política ferroviária?
Estaríamos, se se a nossa alta velocidade ferroviária fosse em bitola europeia, coisa que eu não entendo. Acho que a ligação Lisboa – Porto não é, propriamente, das mais prementes e vai ter seis estações entre Lisboa e Porto, os comboios vão parar alternadamente em cada uma dessas seis estações – e vamos lá ver se tudo isso é verdade e se acontece. A questão de fundo que eu coloco e que ainda ninguém me conseguiu explicar, é como é que a União Europeia traçou, até por causa das questões ambientais, uma estratégia em que ajuda financeiramente os Estados que queiram colocar alta velocidade, porque todos nós sabemos que até duas horas e meia aquilo que puder ser um comboio é melhor do que um avião.
Faz sentido e não vou pôr isso em causa, mas até 2030 há muito dinheiro a fundo perdido ou muito bonificado para os Estados membros que decidam colocar alta velocidade, utilizando a bitola europeia. Para quê? Para haver continuidade do carril para o comboio poder circular por todo o lado? Porque é que a nossa alta velocidade vai ser feita em bitola ibérica? Porque, que eu saiba, Portugal é o único país com uma única fronteira terrestre, que é com Espanha e Espanha tem muita ferrovia em bitola ibérica, mas a alta velocidade está toda em bitola europeia. Portanto, não sei qual é a ideia.
Quando oiço falar em Vigo, não sei como é que o comboio vai lá chegar, mas, se calhar, vamos ter uns comboios especiais ou uns carris especiais e, se calhar, tudo vai custar mais do que devia, mas, enfim. Já temos três autoestradas a ligar Lisboa ao Porto, agora vamos ter mais uma alta velocidade e temos um alfa pendular que, se não andar a parar em todas as estações e apeadeiros, se calhar faz 220 km por hora, e talvez fosse de pensar nisto.
Preocupa-me mais que entre Lisboa e o Algarve continuemos a ter linha férrea única, uma via e com máquinas a diesel, ainda não está eletrificada – esperemos que esteja em breve, a obra está em curso, mas preocupa-me que as duas principais regiões turísticas do continente não estejam ligadas, queremos ligar ao interior, as nossas capitais de distrito não têm ligação ferroviária. Obviamente, não podemos esperar que os governantes tenham tudo isto no pensamento, portanto, o turismo tem que fazer mais por si.
Para haver uma boa ‘governance’ em determinadas áreas, é muito importante o papel assertivo que o movimento associativo possa ter. O nosso movimento associativo, tem um papel que merece nota positiva?
Não vou pelas notas. Há uma coisa que eu devo, desde já, dizer: só temos a agradecer a quem abraça a causa associativa porque ela é, de facto, muito importante, e não tenho qualquer dúvida que todos os que lá estiveram, todos os que lá estão e todos os que lá estarão, vão sempre procurar fazer o melhor que podem e sabem, poderá é haver alguns que sabem pouco e podem pouco, mas isso já é um julgamento que é feito…
Dito isto, a forma como eu olho para esta questão lembra-me um pouco os tempos em que ingressei, e achei que era um imperativo da minha consciência dar o meu contributo, através da sociedade civil, no movimento associativo do turismo, que era a área da atividade económica onde estava inserido. Estamos a voltar a esse tempo, e falo de meados dos anos 90, em que o turismo era reativo. Na altura o turismo não tinha a importância nem o reconhecimento nem a notoriedade que tem hoje, os governos decidiam as coisas e as pessoas, no turismo, diziam se concordavam ou não, às vezes não diziam nada, outras vezes diziam alguma coisa, mas ficava-se por aqui, não se era proativo.
A grande alteração de paradigma de que eu me orgulho de ter feito parte, foi começar-se a pensar: nós estamos no turismo, o turismo é a nossa vida, estamos aqui todos os dias, melhor do que ninguém sabemos os seus problemas, os seus desafios, os seus constrangimentos e, portanto, temos de ser nós a propor soluções porque se nós não andarmos, ninguém vai andar por nós. Obviamente, com bom senso, com ponderação, estudando bem os assuntos, fazendo e apresentando propostas. Tudo isso dá trabalho, não é fácil, mas quem tem que conduzir a agenda do turismo são os seus principais atores porque são eles o motor, o coração da atividade que são os agentes económicos, são as empresas e, obviamente, elas criaram estruturas que as representam.
É isto que eu vejo neste momento, há muitas coisas que deviam ter maior visibilidade até para as pessoas, por causa da compreensão sobre se há turismo a mais ou a menos. Eu lembro-me que, na altura, foram feitas muitas coisas que eram divulgadas pelas instituições de que eu fiz parte e por outras, que ajudaram muito a que a sociedade portuguesa passasse a olhar para o turismo com outros olhos. E o turismo, de facto, tem sido durante muitos anos, e continua a ser, bastante acarinhado pela população portuguesa porque percebe a importância estratégica, percebe que nós não temos muito mais áreas onde possamos ser tão bem-sucedidos à escala global.
“Os tempos que eu estive no movimento associativo já lá vão e hoje temos um mundo diferente, mas há um aspeto que me parece essencial de que quem vai para o movimento associativo deve ter consciência que é “o nós é a regra”, o “nós” é mais importante do que o eu e, infelizmente, aquilo a que temos assistido muito nos últimos anos é que cada vez há mais eu, mais individualidades”
Nós estamos a um ano, um ano e meio, de uma série de eleições para várias associações, incluindo a Confederação do Turismo. O que é que pensa que seria importante que potenciais candidatos às diferentes associações que vão ter eleições pudessem apresentar previamente como linha de trabalho?
Eu já estou “reformado” desta área do movimento associativo, mas há uma coisa de que nunca me hei de reformar e que tem a ver com a motivação que levo, ou seja, a sociedade civil é, para mim, uma grande força de vitalidade de qualquer Estado e quanto mais interventiva ela for, melhores resultados o Estado, o país, pode ter. Os tempos que eu estive no movimento associativo já lá vão e hoje temos um mundo diferente, mas há um aspeto que me parece essencial de que quem vai para o movimento associativo deve ter consciência que é “o nós é a regra”, o “nós” é mais importante do que o eu e, infelizmente, aquilo a que temos assistido muito nos últimos anos é que cada vez há mais eu, mais individualidades.
Isto não é uma crítica, mas a consequência é desastrosa. Duas cabeças pensam melhor do que uma e, quando há alguém que tem toda a capacidade de decisão e que toma todas as decisões, nem sempre todos os ângulos são devidamente analisados e devidamente ponderados, porque é humano, portanto, desde logo, é fundamental haver boas equipas. Mas mais importante do que as equipas são os projetos. Quando participei na fundação da Confederação do Turismo, em meados da década de 90, recordo-me de se dizer que em Portugal andava-se desde os anos 60 a dizer que era importante ter uma Confederação ou uma estrutura semelhante – era a pergunta que se fazia e toda a gente estava de acordo com essa primeira pergunta, mas a segunda pergunta era quem era o presidente, e nunca se avançou, chegou a lado nenhum. Ora, a Confederação foi criada e existiu porque aquela segunda pergunta deixou de existir. Ou seja, a primeira condição continuava a verificar-se e depois a pergunta que se pôs foi ‘queremos uma Confederação para quê? Quais são os seus valores? Qual é a sua missão? Quais são os seus objetivos? E definiu-se isto, porque as pessoas são efémeras nestes projetos, as instituições é que contam.
Custa-me muito, até porque estive ligado à sua fundação que não tenha sido assinalado que que a Confederação faz este ano 30 anos de existência, tal como não foram assinalados os 25 anos, mas na altura estava-se na pandemia, mas enfim, não sei o que é que um autocolante ou um emblema a dizer 25 anos num endereço de e-mail podia ter de estranho na pandemia. E agora está a fazer 30 anos. Isto quer dizer o quê? Mais uma vez, isto não tem a ver com pessoas, tem a ver com a organização. Uma organização que não reconhece e não honra o seu passado, deixa muito a desejar em termos do seu futuro, e este é um exemplo claro.
As pessoas são efémeras, vão e virão outras e outras, o que é importante é manter a organização e a instituição, que tem que saber qual é a sua missão, quais são os seus valores, quais são os seus objetivos e qual é o seu projeto. Mais: quem manda não é quem lá está, quem lá está, está mandatado para estar pelos associados, portanto, não venham criticar os dirigentes se os associados se demitem. Os associados têm que criar bons modelos de governança para as instituições, não andarem com sucessivas alterações estatutárias ou perpetuar pessoas ao sabor do momento, isso não leva a nada, apenas faz com que haja mais desgaste nas instituições, porque falta inovação, falta criatividade, porque há cansaço normal e natural.
Eu sei que vai haver pessoas que porventura vão ler isto e vão achar que estão aqui críticas direcionadas, mas não. Se pensarem bem, se forem isentos, compreendem que todos nós temos os nossos momentos na vida e nesse momento, temos que fazer o melhor que podemos e sabemos, e fazê-lo em equipa. Porque juntos pensamos melhor. Juntos fazemos melhor. Juntos criamos melhor.
“Há que ter o cuidado de não “partirem” a Confederação em dois, e aquilo que me é dado observar é que, eventualmente, estamos num caminho onde essa possibilidade é muito real. Em concreto estamos a falar, grosso modo, em alojamento para um lado, não alojamento para o outro lado, ora o turismo precisa de todos, o turismo são todos, e dividir ou partir é sempre um mau princípio”
A CTP pode ter uma disputa eleitoral tendo um número de sócios relativamente pequeno, cerca de 70 associados com cerca de cento e poucos votos. Tendo em conta que cada lista leva 19 órgãos que terão de ser diferentes, aí estão logo 38 associados. Haver uma disputa eleitoral pode ser perigoso para a CTP?
Perigoso? Não, perigoso acho que nunca é. Penso que é excelente porque quer dizer que a instituição está viva, está dinâmica, e quer mudar. Acho que isso é uma prova de vitalidade das instituições, no entanto, temos de ver que há disputas que são prova dessa vitalidade, mas também devemos olhar sempre para suas consequências e a leitura que daí possa ser feita. Há que ter o cuidado de não “partirem” a Confederação em dois, e aquilo que me é dado observar é que, eventualmente, estamos num caminho onde essa possibilidade é muito real. Em concreto estamos a falar, grosso modo, em alojamento para um lado, não alojamento para o outro lado, ora o turismo precisa de todos, o turismo são todos, e dividir ou partir é sempre um mau princípio.
Este é um ponto endógeno à instituição, o lado exógeno, aquilo que está a passar para fora é de que se começa a pairar uma politização das eventuais candidaturas, e quando falo de politização, é uma palavra simpática porque a palavra mais correta é partidarização. Ora, qualquer estrutura associativa tem de ser completamente independente do poder político e das movimentações que se estão a passar nos bastidores da política e, se calhar, nem alguns dos eventuais candidatos têm total noção disto, mas já existem movimentações e isto é algo que eu digo porque sei o que é que está em causa.
Que papel é que o turismo tem desempenhado, e pode vir a desempenhar, na Comissão Permanente de Concertação Social?
Mais do que o papel do turismo, acho que temos de ver qual é a realidade atual da Comissão Permanente de Concertação Social, e vamos ser claros: hoje, quem é parceiro social tem uma visibilidade acrescida e se o turismo não tivesse lá a sua Confederação, provavelmente não se ouviria falar tanto do turismo, nem da Confederação do Turismo.
Hoje, a Concertação Social tem seis parceiros sociais, quatro do lado empresarial e dois do lado sindical, e veja-se, a propósito, o caso desta revisão da legislação laboral. Não lhe chamo reforma porque para o ser tinham que lá estar outra coisas, esta revisão continua a tratar todas as atividades económicas da mesma forma, quando objetivamente há situações diferentes, há aquelas que são mais de mão de obra intensiva, como o turismo, e há novas realidades, como a questão das tecnologias, da inteligência artificial, e as revoluções que isso vai provocar no mercado de trabalho, que são completamente omissas. Ora, uma reforma devia conter isto, mas há alterações.
O que eu acho é que nenhum parceiro social percebeu que havia uma coisa mais importante do que a matéria que estava em cima da mesa, que é a questão da representatividade. E, se olharmos com alguma atenção, vemos que começa a haver, nos partidos com representação parlamentar, e até na sociedade portuguesa, muitas interrogações sobre se aqueles parceiros sociais representam ou não o universo, quer de empregadores, quer de trabalhadores.
Por exemplo, sabemos que hoje só 14% dos trabalhadores é que estão sindicalizados, o que quer dizer que há 86% que não estão, ou pelo menos que não estão nas estruturas ligadas àquelas duas confederações. E é bom que os empregadores também pensem que mais tarde ou mais cedo, da agricultura ao turismo, passando pela indústria, pelo comércio e serviços, vão ser chamados a invocar a sua representatividade, porque começa a haver a convicção, na sociedade portuguesa, que esta concertação social não é representativa. Quanto a mim, não é, e quanto mais se alargar a concertação social, menor vai ser o benefício que vamos daí colher. Porquê? Porque vamos ter uma miríade de entidades difícil de entender e os governos, e os parlamentos, acabarão sempre por decidir sem ouvirem verdadeiramente os parceiros sociais e sem estes terem peso naquilo que dizem.
Este era um aspeto muito importante e eu acho que nenhum dos parceiros sociais esteve atento a isto, portanto, acabaram por estar todos mal na participação que tiveram neste desfecho. isso faz-me pensar que, se rapidamente este caminho não for arrepiado e não se enveredar por outro, porventura poderemos vir a ter alterações profundas na concertação social, com óbvia perda de poder para todos os que neste momento lá estão e dela fazem parte, e até para a sua eficácia futura para o país, porque isso é que é o mais importante.
Depois desta já longa conversa, faço uma última pergunta: Portugal ainda tem espaço para crescer no número de turistas, independentemente de ser muito importante ter turistas de maior qualidade?
Temos espaço para crescer, se soubermos pôr em prática – e perdoar-me-ão a falta de humildade -, algumas das coisas que ao longo desta conversa fomos falando. Coisas tão simples como termos a coragem para limitar, ou começar a limitar, a fruição de alguns ativos turísticos, como já se faz nos Açores, e como começou agora a fazer com a Torre de Belém em que se limitaram as visitas a 900 pessoas por dia.
Há que ter esta coragem, mas também há que pensar que o grande papel do Estado é ser mais amigo do investimento. E quando eu digo mais amigo do investimento, não é dar mais juros mais bonificados, é resolver o problema da habitação, porque é dramático que alguém queira investir e depois não tem lugares para os empregados habitarem.
A fiscalidade tem de ser diferente, uma atividade económica como o turismo, de mão de obra intensiva, que está constantemente a criar postos de trabalho (por muita tecnologia que exista, vamos continuar sempre a precisar de muita gente), não pode continuar a ser sobrecarregada, nomeadamente com o custo do trabalho, que é muito elevado para o tecido empresarial e para os próprios trabalhadores, porque o Estado acaba sempre por ser um sócio silencioso, quer de quem trabalha, quer de quem emprega.
Temos de ter uma melhor definição do que é que queremos em termos de imigração e também de emigração, porque as pessoas são o mais importante que há no turismo, são elas que viajam e são elas que acolhem, são elas que fazem a hospitalidade. Portanto, temos que qualificar mais todos os recursos turísticos, nomeadamente, os humanos.
Há espaço para crescer e para melhorar, mas se calhar, há sítios onde nós já não podemos nem devemos crescer muito mais, devemos desconcentrar, só que para isso é preciso que as pessoas consigam lá chegar, ou seja, perdoe-se-me a imagem, o universo tem que estar em harmonia e as coisas têm que se equilibrar.
O turismo é uma atividade económica profundamente transversal, pluridisciplinar e simbiótica, onde todos dependemos uns dos outros, por um lado, mas também competimos uns com os outros, pelo mesmo cliente, mas é fundamental que todos os atores, públicos e privados, estejam sintonizados e que haja alguém que tenha essa visão, essa capacidade abrangente e essa estratégia, e isso só é feito com contributos de muitos.
Porque não há aqui ninguém iluminado que tenha a solução para tudo. São trabalhos de equipa que têm que ser feitos, e para isso, é preciso ter consciência do que é a complexidade da atividade turística, porque por isso é que o turismo é fascinante e, porventura, a atividade mais apelativa que existe no mundo, seja para trabalhar, seja para fruir.
*Leia a as duas primeiras partes da entrevista a Atilio Forte aqui (1ª parte) e aqui (2ª parte)


