Com números recorde e a crescer acima da média do país Porto e Norte teve em 2025 “um ano excecional”, afirma Luís Pedro Martins
O balanço de 2025 foi o ponto de partida para a conversa do Turisver com o presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, Luís Pedro Martins. A promoção externa, o aeroporto Francisco Sá Carneiro e os necessários investimentos, o objetivo de levar o crescimento turístico a todas as sub-regiões, a revisão da Lei 33 e a necessidade de qualificação hoteleira em Trás-os-Montes, foram outros temas abordados.
Na abertura da Convenção do Mercado das Viagens, o presidente falava dos números muito positivos que o Porto Norte-Portugal alcançou o ano passado. Onde é que a região atinge esses números tão relevantes?
O ano de 2025 foi um ano excecional, mais um para o Porto e Norte de Portugal. Alcançámos, novamente, cifras recorde em todos os indicadores: no número de hóspedes e dormidas, no valor arrecadado nos proveitos, quer totais, quer de aposento. Interessante, também, é o facto de continuarmos a crescer acima da média nacional e percebermos que aquela que foi a estratégia desenhada no pós-pandemia tem estado a dar grandes resultados, desde logo, porque apostámos no mercado interno. Na altura da pandemia todos percebemos a importância desse mercado para o nosso setor, um mercado que não era amado na medida em que deveria ser, e nós passámos a dedicar-lhe um olhar muito atento. Hoje, é muito interessante ver que passado este tempo, em 2025, o Porto e Norte ocupa o primeiro lugar no ranking das preferências dos portugueses, tendo registado cerca de 5 milhões de dormidas.
É também importante percebermos que a aposta na diversificação de mercados nos trouxe, igualmente, bons resultados, porque continuamos a crescer nos mercados externos e aqui julgo que fizemos – e não é exagera palavra -, uma pequena revolução. O mercado americano, que há cinco anos não estava no nosso top 5, hoje é o mercado número dois da região, sendo que em alguns dos seus subdestinos, como é o Douro, é número 1, e um mercado que continua a crescer, de forma muito sustentada, porque cresce 6,4% em 2025.
Fizemos, também, uma aposta no mercado do Reino Unido, que não tinha grande representação no Norte, e que hoje é o quarto mercado da região e com um crescimento impressionante, com cerca de 13,6% – e aqui é importante registar que no país este mercado não teve crescimento positivo. Obviamente que para este resultado contribuíram vários fatores, desde logo uma maior visibilidade do destino, uma aposta maior na promoção externa, o facto de termos conseguido trazer para a região alguns dos grandes congressos do setor, nomeadamente as agências de viagens do Reino Unido, e, claramente, a entrada também de alguns operadores na região, como, por exemplo, a Jet2, que não existia sequer no aeroporto Francisco de Sá Carneiro, e agora opera três rotas.
Devo ainda assinalar três outros mercados com grande crescimento, nomeadamente, o Canadá, que está a crescer 9%, os Países Baixos a crescer 8%, um mercado que também este ano não teve bom desempenho em termos nacionais, e o mercado irlandês com um crescimento de 9%. A juntar isto, o facto de a Espanha continuar a apresentar-se como o primeiro mercado emissor e outros mercados, como a Alemanha, o Brasil e a Itália.
Ou seja, a boa nota é que não estamos dependentes de um ou dois mercados, conseguimos diversificar e essa diversificação é também sustentabilidade. Portanto, são estes os números que festejamos e que nos permitem encarar 2026 com uma boa expectativa.
“Para quem não tem grandes orçamentos, como é o nosso caso, eu passo sempre esta mensagem à equipa: nós temos que ser como aos cirurgiões, não nos podemos enganar, se o cirurgião se engana mata o cliente, e nós, se nos enganamos, desperdiçamos o pouco que temos para a promoção externa. Portanto, têm que ser ações muito cirúrgicas, muito bem escolhidas, muito bem definidas, e acho que isso tem acontecido”
Esses resultados devem-se, penso eu, a dois ou três fatores, um deles será uma estratégia correta, o outro terá a ver com um trabalho permanente que o Turismo do Porto e Norte tem vindo a fazer?
É um trabalho por vezes invisível porque é feito muito no exterior, com o Turismo de Portugal, ou seja, é feito como deve ser feito, com o Turismo de Portugal como a nossa grande marca, a nossa marca umbrella, e depois as Agências Regionais de Promoção Turística. Este é, aliás, o limite que eu concebo para a promoção internacional: ela deve ser feita entre o Turismo de Portugal e as ARPTs e não mais do que isto, porque fazer pequenas apresentações é perder escala e não conseguir resultados.
Esta estratégia tem dado bons resultados, hoje temos uma relação fantástica com os delegados do Turismo de Portugal nestes mercados, portanto acho que fizemos as apostas certas. Para quem não tem grandes orçamentos, como é o nosso caso, eu passo sempre esta mensagem à equipa: nós temos que ser como aos cirurgiões, não nos podemos enganar, se o cirurgião se engana mata o cliente, e nós, se nos enganamos, desperdiçamos o pouco que temos para a promoção externa. Portanto, têm que ser ações muito cirúrgicas, muito bem escolhidas, muito bem definidas, e acho que isso tem acontecido.
Para além deste trabalho com o Turismo de Portugal, passámos a fazer algumas ações de promoção externa articuladas com outras regiões, nomeadamente regiões que têm produtos muito similares ao nosso e também mercados muito similares. Desde logo temos feito este tipo de ações com a região Centro e também com a região do Alentejo, quer nos Estados Unidos e no Canadá, quer agora, nomeadamente em 2025 e 2026, muito dedicados a mercados da Ásia Pacífico, já com roadshows realizados em conjunto na China, na Coreia do Sul e no Japão. Além disso, em conjunto com o Turismo de Portugal, estamos percorrer aqueles que são os novos mercados em que Portugal está a querer apostar, como o mercado australiano, a Argentina e México.
O crescimento do aeroporto Francisco Sá Carneiro na captação de rotas, tem sido muito importante para esse crescimento?
Sim, os resultados também são fruto do trabalho que fazemos ao nível da conectividade aérea, envolvendo a ANA / VINCI, e o Turismo de Portugal. O aeroporto está a registar números históricos, passou os 17 milhões de passageiros, e para 2026 vamos ter mais de 130 rotas, com destaque para algumas companhias, nomeadamente, o facto de termos a Turkish Airlines agora com cerca de 17 voos por semana na ligação Istambul-Porto; termos um reforço justo e que já era devido à região – e que esperamos que seja para ficar – por parte da TAP, com a passagem do Boston-Porto a rota regular, mas também a aposta a ligação Telavive-Porto, e o anúncio de quatro rotas de longa distância para 2027 por parte da TAP, para os Estados Unidos e Brasil. Soma-se ainda uma grande notícia para 2026, que é a entrada, pela primeira vez em operação na nossa região, da maior companhia do mundo, a Delta Airlines, a voar diretamente JFK-Porto.
Tivemos uma boa surpresa nas últimas horas, através da American Airlines, que anunciou já a venda para 2027 de uma rota Filadélfia-Porto, o que é uma boa notícia, até porque não estava no programa. Depois há outras companhias, como a Air Canadá, a fazer a ligação do mercado canadiano ao Porto, e muitas rotas na Europa, um reforço grande de rotas para os nossos mercados estratégicos.
“Claro que não são só coisas boas, preocupa-me a necessidade de investimento, no aeroporto Francisco Sá Carneiro. Todos vivemos o drama do aeroporto de Lisboa, estamos já devidamente convencidos que na próxima década não vamos ter um novo aeroporto, mas há dois aeroportos que podem ajudar o país, falando no continente, o aeroporto Francisco Sá Carneiro e o aeroporto de Faro. Mas estes dois aeroportos só poderão crescer se tiverem investimento”
Tudo “corre sobre rodas” como se costuma dizer, mas ainda tem, por certo, algumas preocupações. Quais são?
Claro que não são só coisas boas, preocupa-me a necessidade de investimento, no aeroporto Francisco Sá Carneiro. Todos vivemos o drama do aeroporto de Lisboa, estamos já devidamente convencidos que na próxima década não vamos ter um novo aeroporto, mas há dois aeroportos que podem ajudar o país, falando no continente, o aeroporto Francisco Sá Carneiro e o aeroporto de Faro. Mas estes dois aeroportos só poderão crescer se tiverem investimento.
Penso que é oportuno investir rapidamente nestes aeroportos, para não passarmos pelo que estamos a passar em Lisboa, que é começar a investir apenas quando já estamos a lutar contra o prejuízo. Estes aeroportos têm demonstrado uma grande capacidade de atração de companhias, estão em regiões que estão a crescer, que têm provas dadas e que podem permitir recuperar uma imagem que tem sido prejudicada pela operação feita em Lisboa, nomeadamente assistindo a episódios inimagináveis, como um turista demorar dentro do aeroporto o dobro do tempo que demorou a fazer a viagem. Como é óbvio, isso para a recomendação e para a fidelização não é nada bom, mas quero acreditar que em breve iremos ter conhecimento do Master Plan que indique um investimento nestes aeroportos, particularmente o da nossa região.
A região nos últimos anos tem conseguido estender os turistas muito para além da cidade do Porto, para o Douro e o Minho, mas parece ser uma tarefa mais difícil fazer chegar esses fluxos turísticos a Trás-os-Montes?
Esse é, sem dúvida, um dos grandes objetivos. Temos uma região de 21.000 km², uma região muito rica e diversa e é essa região toda que nós queremos dar a conhecer.
Claro que temos a vantagem de ter uma marca de forte atração internacional como o Porto e a sua área metropolitana, e de a partir daqui se poder apresentar outra região que felizmente já está a ser descoberta pelo trade, mas que está a ritmos diferentes. Douro e Minho estão, de facto a crescer muito, como os números indicam, mas existe uma maior dificuldade no subdestino Trás-os-Montes. Não porque ele já não faça parte da programação das nossas empresas, nomeadamente de animação turística, que já conseguem criar roteiros que levem os turistas a percorrer também este território, que como dizia Miguel Torga, é maravilhoso, com paisagens deslumbrantes, com gastronomia do melhor que há, com vinhos, com castelos, com fortalezas, com lagos, com tudo para dar certo.
Então o que é que falta para Trás-os-Montes acompanhar o crescimento do resto do território do Porto Norte de Portugal?
Falta qualificar a hotelaria, e aproveito para fazer um apelo aos empresários: vale a pena percorrer esse território, vale a pena investir porque há uma oferta muito grande em termos de produtos, mas falta a oferta em termos de hotelaria, apesar de haver algumas pequenas unidades. Hoje, felizmente, já temos grupos como o Vila Galé, que apostou agora em Miranda do Douro, o grupo Água Hotels que apostou numa pequena aldeia em Pinela, que fica entre Macedo e Bragança, e depois, claro, há os que estão no Tâmega e Barroso, como Chaves, o Vidago, que é uma âncora, mas Vidago fica já um pouco afastado deste território que estou a falar, de Bragança, de Mirandela, de Miranda, de Vinhais, do Parque Nacional, Montesinho.
Necessitamos, nomeadamente, de hotéis de 5 estrelas, e quem arriscar vai vencer essa aposta, porque a região já está no mapa. Por vezes falamos da porta de entrada na região a partir do sul, mas é bom percebermos que agora, até com a facilidade que o TGV permitiu, temos mais duas portas de entrada, a da Galiza e a de Castela, e aqui Trás-os -Montes, está em sentido inverso, ou seja, está logo na porta de entrada. Os turistas que queiram entrar por ali, vindos de Madrid, de Valladolid ou Salamanca, devem ter oferta hoteleira mais próxima. É apenas isto que está a faltar, tudo o resto existe e está a correr bem. Há um trabalho muito grande com as CIMs e com os municípios, e necessitamos agora que a iniciativa privada dê também esse sinal.
A última pergunta tem a ver com a reunião que o Turismo de Portugal promoveu no Algarve há algumas semanas. Que grandes conclusões se puderam tirar dessa reunião, especialmente aqui para a região?
Nessa reunião nós trabalhámos muito o que poderá ser a reforma da Lei 33, uma lei que neste momento já não faz sentido rigorosamente nenhum, uma lei que não cumpriu aquilo que era de início um dos seus grandes objetivos, que era dar autonomia administrativa e financeira às regiões, e não deu uma nem deu outra. Mas agora, porque o secretário de Estado do Turismo, Pedro Machado, conhece bastante bem as ERTs, o setor e as suas dificuldades, e tem um excelente relacionamento com todos os presidentes das regiões, nós estamos todos muito alinhados, portanto há um ambiente muito confortável para se poder trabalhar com tranquilidade. O mesmo em relação ao ministro da Economia, que é um ex-autarca e conhece bem os territórios.
Por isso, sinto que há uma preocupação em fazer uma lei com mais ambição do que estava previsto de início. Estou a pensar, nomeadamente, até na possibilidade de criar alguma fusão entre agências, entidades, em particular no que diz respeito ao trabalho da promoção, com a promoção externa e a promoção interna a poderem estar sob o mesmo organismo, mas ao dia de hoje ainda não conhecemos a proposta final. Penso que estará prestes a ser apresentada para podermos dar a nossa opinião, embora já estejamos a dar, fizemos algumas reuniões com o Governo, mas estamos na expectativa de ver o documento final. Acredito que sairá em benefício de uma maior autonomia das regiões, mas também do aumento de competências, para sermos mais ágeis, para estarmos mais próximos das empresas que cada um tem no território e para que todos juntos, Governo, Secretaria de Estado, Turismo Portugal e Regiões possam fazer aquilo que é de facto o nosso grande objetivo, que é garantir maior coesão territorial, maior coesão social e reforçar a economia do país, conforme este sector sempre tem feito.


