Boubacar Dembou: O turista português é diferente dos outros; é um turista fácil, interessado, participativo
A Soltrópico organizou uma fam trip ao Senegal que teve como anfitrião Boubacar Dembou, guia da Nouvelles Frontières, o recetivo do operador turístico português naquele país africano. E foi para saber da importância que o turismo tem para o seu país e a sua opinião sobre os turistas portugueses que o Turisver conversou com este guia nascido na região senegalesa de Casamansa, localizada ao sul da Gâmbia e a norte da Guiné-Bissau.
Por Fernando Borges
Como é que um senegalês encara o turismo e os turistas? Que importância é que o turismo tem para o país e para a população?
Tem muita importância e é por causa do turismo que neste momento estou aqui a acompanhar o vosso grupo. Tirei o curso de línguas já a pensar no turismo como futuro profissional, tendo logo começado a trabalhar com espanhóis e portugueses, e desde então não me tem faltado trabalho como guia.
Mas o turismo não é só importante para mim e para os outros guias. O turismo é muito importante para o país no geral e para a população em particular, como são exemplo as famílias das aldeias mais tradicionais e longe dos centros turísticos, como as da aldeia Sereré que visitámos, pois o turista ao visitá-los leva sempre ajuda em termos de bens essenciais, como sacos de arroz que serve para alimentar várias famílias que vivem da agricultura ou do pastoreio.
O turismo fez nascer novos negócios, como novos restaurantes, criando mais emprego, assim como há sempre aqueles turistas que param à beira de uma estrada para comprar mangas, papaia, amendoins… ajudando assim as vendedoras e as suas famílias, ou que entram numa loja de ‘souvenirs’ para comprar uma lembrança. Estes são apenas alguns aspetos da importância do sector do turismo para o Senegal e para os senegaleses.
Há quanto tempo trabalha com turistas portugueses?
Comecei como guia em 2022, desde que o Riu Baobab abriu, começando nessa altura um forte aumento de turistas portugueses no nosso país, Neste momento serão cerca de 200 portugueses por semana a escolherem o Senegal para as suas férias, e esta realidade faz com que pense e acredite que escolhi bem a língua portuguesa para estudar na universidade.
[As fam trips] Também são importantes para nós, guias e recetivos, porque os agentes de viagem têm um conhecimento daquilo que os seus clientes mais procuram, mais desejam, e passam essa informação para nós, permitindo-nos melhorar o nosso trabalho e ajustar ao seu gosto o que já temos para oferecer”
Qual a importância que tem para si, como guia turístico, as fam trips como esta da Soltrópico?
São muito importantes, porque as fam trips são constituídas por diferentes agências de viagem, por vezes acompanhadas por um jornalista, como é o caso desta, o que nos possibilita dar a conhecer o país nos mais diferentes aspetos, desde as praias aos hotéis, os tours existentes, a gastronomia, a própria sociedade, e essas informações que levam consigo, passam-nas depois aos seus clientes, fazendo com que se sintam mais atraídos para aqui virem. E depois, os clientes que vêm e que gostam, passam essa informação aos seus amigos, ajudando a aumentar o número de turistas no nosso país, o que para os senegaleses é muito bom, pois quanto mais turistas houver mais a população ganha, não só os guias, mas todos.
Também são importantes para nós, guias e receptivos, porque os agentes de viagem têm um conhecimento daquilo que os seus clientes mais procuram, mais desejam, e passam essa informação para nós, permitindo-nos melhorar o nosso trabalho e ajustar ao seu gosto o que já temos para oferecer. Também é muito importante que se façam press trips, pois os artigos dos jornalistas chegam a milhares de leitores, o que poderá despertar a sua curiosidade e o interesse no Senegal para as suas próximas férias.
Como senegalês, quais considera serem os principais atrativos do seu país e que o tornam diferente dos outros países africanos?
Acima de tudo a diferença está na “teranga”, que é uma parte muito importante da nossa identidade, essa forma muito nossa de bem receber, de cativar, a hospitalidade que é muito forte e que se sente em qualquer lugar. Também está no respeito para com quem nos visita e que apenas pede em troca esse mesmo respeito, como o simples gesto de antes de se fotografar alguém perguntar se o pode fazer, o que para além de ser um gesto de respeito é igualmente um gesto de educação.
Depois, há o facto de o Senegal ser um país calmo, de paz, que felizmente depois da independência nunca conheceu a guerra ou conflitos, sejam étnicos, religiosos ou políticos, de ser um país de harmonia e estabilidade, ocupando o segundo lugar em termos de democracia no continente africano.
Para além destes aspetos muito importantes, temos uma cultura única, onde a música e o artesanato são pontos muito marcantes e mundialmente conhecidos, a história e a natureza. Pessoalmente, e se tiver que eleger o que considero mais representativo destes fatores e que como senegalês mais gosto, que considero mais importantes, aponto o Delta do Sine-Saloum, um lugar de grande valor universal quando falamos de paisagens culturais e de biosfera, estando classificado pela UNESCO como Património Mundial, a Reserva Natural de Bandia, onde podemos realizar um safári e encontrarmo-nos com muita da fauna que faz parte da vida selvagem de África, e a Ilha de Gorée, um lugar que é Património Mundial da Humanidade, um lugar de reflexão, de paz e de concórdia mas onde durante décadas foram escritas algumas das páginas mais negras e tristes da história do Homem.
Para terminar: considera os portugueses como sendo um turista “fácil”?
Sem dúvida. Posso afirmar mesmo que comparativamente aos turistas de outras nacionalidades, o turista português é um cliente fácil e diferente. É um turista que se interessa, que gosta de se envolver, de conhecer, de saber, que é por natureza simpático, que pouco reclama, que pouco exige. São turistas que acompanham o guia, que gostam de falar com ele, de colocar questões, mostrando o seu interesse, que respondem quando colocamos questões. São turistas animados, participativos, que no final de um tour gostam de ficar à porta do hotel a conversar e a quererem saber mais coisas sobre o meu país nas mais diferentes áreas. E tudo isto faz com que o nosso trabalho seja mais fácil e mais agradável com os turistas portugueses.


