“Bijagós: ainda vamos a tempo!”, por Paulo Brehm, Consultor de Sustentabilidade
Neste artigo, Paulo Brehm faz o balanço da missão que realizou aos Bijagós, na Guiné-Bissau, para avaliar se o arquipélago tem as condições necessárias para se afirmar como destino turístico sustentável, e dá conta das conclusões a que chegou.
Recentemente, fui convidado para realizar uma missão destinada a avaliar até que ponto o Arquipélago dos Bijagós reúne as condições para se afirmar como um destino turístico sustentável, e a apresentar recomendações que ajudem a transformar esse potencial em realidade. Um convite que, para mim, foi irrecusável.
Para esta missão recorri ao GTA Impact and Performance Assessment (IPA), uma metodologia de avaliação de destinos desenvolvida pela Green Destinations, organização com a qual colaboro. Munido desse instrumento, percorri durante vários dias as ilhas, visitei projetos, falei com as comunidades e procurei perceber, no terreno, a realidade deste arquipélago, distinguido como Reserva da Biosfera pela UNESCO, um reconhecimento que testemunha o seu excecional valor natural e cultural. Só depois reuni com governantes, responsáveis de organismos públicos, empresários, associações e organizações da sociedade civil. Quis primeiro ver, ouvir e sentir o território, antes de escutar as diferentes visões sobre o seu futuro.
Entre as reuniões com o Governo, destaco as que mantive com o Ministro do Turismo e Artesanato, Augusto Fernando Caby, com a Ministra da Cultura, Juventude e Desportos, Juelma Cubala, e com o Ministro do Ambiente, Biodiversidade e Ação Climática, Carlos Pinto Pereira. Foram conversas francas e muito enriquecedoras, que me permitiram compreender melhor a visão do Governo para o futuro dos Bijagós.
Regressei a Portugal com uma convicção muito simples.
Os Bijagós ainda estão a tempo! E isso, infelizmente, já não se pode dizer sobre muitos destinos turísticos.


Hoje fala-se muito em turismo sustentável. Na verdade, em muitos casos fala-se de como corrigir erros que nunca deveriam ter sido cometidos. Destinos que cresceram demasiado depressa, que perderam identidade, que destruíram paisagens, que afastaram as comunidades locais e que agora tentam recuperar o que já dificilmente poderá voltar atrás.
Os Bijagós ainda não chegaram aí. As boas notícias? Está praticamente tudo por fazer. E isso significa que ainda pode ser bem feito. Naturalmente que existem problemas, e alguns são bem visíveis.
O mais evidente é, talvez, a questão dos resíduos, sobretudo do plástico. É impossível ignorar a quantidade de embalagens espalhadas por algumas zonas. Mas seria profundamente injusto olhar para este problema sem compreender o contexto económico do país. Quando grande parte da população enfrenta dificuldades diárias, dificilmente a prioridade será escolher a embalagem mais sustentável.
Também não acredito que a solução passe apenas por substituir sacos de plástico por outros ditos biodegradáveis (nem sequer o são), que tantas vezes acabam exatamente no mesmo sítio. A verdadeira resposta passa por criar sistemas de recolha, reciclagem, educação ambiental e alternativas economicamente acessíveis.
Recordo, em particular, uma ideia partilhada pelo Ministro Carlos Pinto Pereira: envolver as crianças na recolha de plásticos. Haverá quem considere que é pouco. Eu prefiro olhar para isso como um primeiro passo. A sustentabilidade raramente nasce de grandes decisões. Constrói-se através de milhares de pequenos gestos.
Outro dos grandes desafios será resistir às soluções fáceis.
A tentação de apostar em grandes empreendimentos turísticos internacionais existe sempre. O investimento chega rapidamente, os números parecem impressionantes e as fotografias ficam bonitas nas apresentações.
Mas também sabemos bem o outro lado da história.
Grande parte da riqueza criada acaba muitas vezes por sair novamente do país, num fenómeno que conhecemos por leakage, beneficiando muito mais os investidores externos do que as populações locais.
O mesmo poderá acontecer se os Bijagós alinharem na aposta em turismo de cruzeiros. Muitos visitantes durante poucas horas podem criar uma ilusão de sucesso sem gerar um verdadeiro desenvolvimento económico local.
De facto, os Bijagós não precisam de muitos turistas; precisam, sim, dos turistas certos.

Há igualmente pequenos sinais que podem fazer uma enorme diferença, mas que têm de ser adotados por todos quantos trabalham no setor da restauração e alojamento.
A sustentabilidade também se encontra à mesa. Num destino como os Bijagós, um pequeno-almoço com mel produzido localmente ou um copo de sumo preparado com mangas, cajus, o veludo ou com o fruto da cabaceira (baobá) contam uma história muito mais rica do que qualquer refrigerante ou produto importado. São pequenos gestos que apoiam os agricultores e apicultores locais, reduzem a necessidade de transportar mercadorias por longas distâncias, valorizam os sabores do território e proporcionam ao visitante uma experiência muito mais autêntica. Afinal, viajar também é descobrir um destino através daquilo que ele produz, daquilo que ele cultiva e daquilo que partilha com quem o visita.
Acima de tudo, a sustentabilidade faz-se de pessoas.
Nos Bijagós existe desde há pouco uma delegação da ASOPS (Associação de Operadores Turísticos e Similares da Guiné-Bissau), presidida pelo meu amigo Adelino da Costa, uma personalidade incontornável do turismo, da cultura e da economia guineense. Apesar de dedicar uma parte significativa da minha vida profissional à sustentabilidade, confesso que é com pessoas como o Adelino que mais aprendo. Porque a sustentabilidade, no seu caso – e é também assim que procuro vivê-la – não é um discurso bonito nem uma estratégia de marketing. É uma forma de estar, de trabalhar e de olhar para o território. Isso torna-se evidente no ecoresort Dakosta, que desenvolveu, mas sobretudo na convicção de que o turismo só faz sentido se beneficiar as comunidades locais e proteger o património natural e cultural que torna os Bijagós únicos.
Saí também da Guiné-Bissau com uma impressão francamente positiva dos membros do Governo com quem tive o privilégio de reunir. Encontrei pessoas determinadas, disponíveis para ouvir e conscientes de que o turismo sustentável pode ser um importante motor de desenvolvimento do país. Espero sinceramente que essa visão se traduza em políticas consistentes e duradouras.



Mas, se acredito no papel do Estado, acredito ainda mais na capacidade transformadora dos operadores turísticos, dos hoteleiros, dos guias, dos empresários e das associações. São eles que, todos os dias, tomam decisões que influenciam a forma como o turismo se desenvolve e o impacto que deixa nas comunidades e no território.
Os Bijagós ainda possuem um privilégio raro: podem aprender com os erros dos outros em vez de os repetir.
Espero, sinceramente, que quando voltar daqui a alguns meses, encontre novos sinais de que o arquipélago continua a escolher o caminho mais difícil, mas também o mais inteligente.
Porque um manguezal degradado pode recuperar, um edifício pode ser demolido, um ecossistema pode, por vezes, regenerar-se, mas quando um destino perde a sua alma, dificilmente a volta a encontrar.
Porque um destino sustentável não é aquele que recebe mais turistas. É aquele que consegue continuar a ser ele próprio depois de eles partirem.
As ideias aqui partilhadas são apenas uma parte daquilo que observei durante a missão. O conjunto das constatações e das recomendações integra um relatório técnico, já concluído, que será entregue, numa primeira fase, ao Governo da Guiné-Bissau e, posteriormente, às restantes entidades envolvidas neste processo.
Espero, acima de tudo, que esse documento possa contribuir para que os Bijagós continuem a escolher um caminho onde o desenvolvimento turístico e a preservação da natureza, da cultura e das comunidades caminhem lado a lado. Porque ainda vamos a tempo!


