Barómetro IPDT: Gerar mais valor por cada turista é o desafio das empresas para fazer face à queda da rentabilidade
Apesar das perspetivas favoráveis para verão ao nível dos mercados externos, o Barómetro antecipa, pela primeira vez desde a pandemia, uma deterioração da rentabilidade das empresas turísticas, com o IPDT a defender que o desafio já não passa pelo aumento do número de turistas, mas sim por gerar mais valor económico por cada visita.
O turismo português continua a revelar níveis elevados de confiança, mas, de acordo com os resultados da 77ª edição do Barómetro do Turismo IPDT, o Índice de Confiança está agora nos 80,0 pontos, 5,2 pontos abaixo do máximo registado em fevereiro de 2025.
Apesar da confiança, os membros do Barómetro identificam um conjunto de fatores que introduzem maior prudência nas perspetivas para os próximos meses: crescente instabilidade geopolítica internacional; aumento dos custos associados às viagens; e a progressiva erosão da vantagem competitiva de preço de Portugal face a outros mercados concorrentes.
“Mais do que uma desaceleração, os resultados revelam uma mudança de prioridades: para os profissionais do setor, o desafio deixou de ser aumentar o número de turistas e passou a ser gerar mais valor económico por cada visita”, defende o Instituto.
Perspetivas para o verão favoráveis para os mercados externos
Para o verão, as perspetivas são “particularmente favoráveis” no que se refere aos mercados internacionais, com cerca de 62,2% dos especialistas que responderam ao inquérito a anteciparem um crescimento das receitas provenientes dos turistas estrangeiros, refletindo expectativas positivas para hóspedes, dormidas e ocupação hoteleira, sendo que apenas 8,1% a antecipam uma deterioração. No que se refere aos mercados externos, Reino Unido, Espanha e Estados Unidos surgem como os principais emissores, seguidos de França e Alemanha.
A contribuir para esta perspetiva otimista, está a perceção de Portugal como um destino seguro e competitivo, bem como a proximidade aos principais mercados emissores europeus. Ainda assim, os inquiridos reconhecem a existência de fatores de incerteza que poderão influenciar a evolução da procura internacional nos próximos meses.
Já relativamente ao comportamento do mercado interno, as perspetivas não são tão favoráveis, havendo sinais de uma “maior moderação”. Para já, as respostas ao inquérito não apontam para quebras significativas, mas o facto é que apenas 30,8% dos inquiridos antecipam crescimento das receitas provenientes do mercado interno, enquanto apenas 17,9% preveem uma evolução negativa. Em sentido contrário, a taxa de ocupação hoteleira surge como o indicador com perspetivas menos positivas, registando a maior proporção de expectativas de deterioração (29,0%).
Estes resultados, de acordo com o IPDT, refletem “uma maior contenção do consumo e uma evolução mais prudente da procura nacional”, com os inquiridos a fazerem notar que esta estabilidade poderá estar associada à pressão do custo de vida sobre as famílias portuguesas e à crescente sensibilidade aos preços dos serviços turísticos. Ainda assim, o IPDT considera que a valorização da oferta e o aumento do preço médio deverão contribuir para uma evolução positiva das receitas.
Ainda assim, as perspetivas dos profissionais do turismo para os próximos seis meses permanecem globalmente positivas, embora revelem um abrandamento significativo face ao verão de 2025
As respostas ao Barómetro indicam que, pela primeira vez em vários anos, os especialistas antecipam uma deterioração da rentabilidade das empresas turísticas. O aumento dos custos operacionais, o maior peso do financiamento e a crescente sensibilidade ao preço exercem pressão sobre as margens, reforçando a necessidade de apostar em produtividade, inovação e qualificação da oferta.
“Pela primeira vez desde a pandemia, os profissionais antecipam uma redução da procura turística interna (-2,6 pontos) e da rentabilidade das empresas (-7,9 pontos), sinalizando uma maior pressão sobre a procura e sobre as margens operacionais”, sublinha o IPDT.
Impacto da instabilidade política na procura por Portugal
O contexto geopolítico internacional continua igualmente a influenciar o comportamento da procura. Quase 9 em cada10 especialistas consideram que a instabilidade internacional condiciona as escolhas dos turistas, favorecendo Portugal enquanto destino seguro e estável.
Os resultados do Barómetro revelam que 89,8% dos membros consideram que a instabilidade geopolítica global tem algum impacto na procura turística internacional para Portugal, evidenciando a crescente influência deste fator na evolução do setor. Ainda assim, 48,7% dos inquiridos refere que o impacto é moderado, enquanto uma percentagem menor, 38,5% identificam um impacto significativo associado à escolha de Portugal como alternativa a destinos percecionados como menos seguros. Por fim, apenas 10,3% consideram que a instabilidade geopolítica não tem impacto relevante.
Vantagem competitiva assente no preço tem vindo a diminuir
Ainda assim, cresce a perceção de que parte da vantagem competitiva de preço face a outros destinos mediterrânicos se tem vindo a reduzir, sendo de notar que quatro em cada 10 membros do Barómetro consideram que essa vantagem tem vindo a diminuir, quer pelo esbatimento da diferença face aos destinos concorrentes (30,8%), quer por entenderem que Portugal se tornou um destino mais caro (10,3%).
De notar, também, que apenas 7,7% dos inquiridos considera que Portugal se encontra em paridade com os principais concorrentes, evidenciando que, apesar de a perceção global continuar a ser favorável, existem sinais de uma crescente pressão sobre a competitividade do destino.
De referir que os membros do Barómetro identificam as reservas mais tardias (71,8%) como o principal efeito do aumento dos custos de viagem, refletindo uma maior cautela dos turistas no momento da decisão de compra.
A preferência por destinos mais próximos ou com melhor relação custo-acessibilidade (64,1%) e as estadas mais curtas (46,2%) evidenciam uma adaptação dos padrões de consumo turístico à pressão dos custos.
A maior pesquisa e comparação de preços antes da reserva (41,0%) confirma que os turistas estão mais atentos à relação entre preço e valor na escolha do destino.
Para António Jorge Costa, presidente do IPDT, “durante muitos anos medimos o sucesso do turismo pelo número de visitantes. Essa fase terminou. A próxima década será decidida pela capacidade de transformar cada turista em mais valor para as empresas, para os trabalhadores, para os territórios e para quem vive neles.”
Os resultados desta edição do Barómetro sugerem que Portugal inicia uma nova etapa da sua trajetória turística. O crescimento continuará a ser importante, mas a competitividade futura dependerá cada vez mais da capacidade de aumentar a produtividade, diferenciar a oferta e criar valor económico, social e territorial.


