Atilio Forte analisa o impacto da situação geopolítica mundial na atividade turística a nível global e em Portugal (1ª parte)
Em entrevista ao Turisver, que vamos publicar em várias partes, Atilio Forte, consultor de Turismo, começa por analisar o impacto que a instabilidade que se vive a nível mundial está a ter na atividade turística, aponta grandes tendências que começam a despontar no turismo mundial e fala sobre o posicionamento de Portugal face a este novo contexto.
O mundo vive dias tumultuados, em termos da geopolítica e dos impactos que ela tem na economia e no turismo. Começava por perguntar como é que esta instabilidade mundial está a repercutir-se no turismo internacional?
Há uma evidência que desde logo deve ser dita, se há coisas de que qualquer área da atividade económica precisa é de confiança e previsibilidade, e nenhuma delas existe neste momento. Infelizmente, o mundo está muito condicionado, não há previsibilidade em termos do que vai acontecer e isso resulta em falta de confiança, quer para quem consome, quer para quem produz.
Com as devidas ressalvas relativamente aos conflitos que estão em curso e, eventualmente, de outros que já se podem antecipar, estas situações acabam por ter reflexos na atividade turística. Mas mais do que estes aspetos conjunturais, têm sido os aspetos estruturais que se têm, de alguma forma, mantido estáveis.
Ou seja, as grandes áreas que irão condicionar, ou estão já a condicionar a evolução da atividade económica do turismo são, desde logo, a deslocação do eixo turístico central da Europa para o Extremo Oriente, a que estamos a assistir. Essa movimentação tem vindo a acontecer de há alguns anos a esta parte, veja-se, por exemplo, o aparecimento dos grandes hubs aéreos no Médio Oriente, veja-se também um outro ponto que é muito importante em termos de dimensão de mercados, que é a questão da demografia, que irá condicionar muito daquilo que será a evolução da atividade turística nas próximas décadas, seja no extremo Oriente, seja na África Subsaariana, seja também na América Latina.
Depois temos um terceiro ponto que são as questões de sustentabilidade, que são inevitáveis. Hoje, nós temos um planeta para fruir e pelo qual temos de zelar porque infelizmente, temos cada vez mais questões ligadas com a sustentabilidade, não só ambiental e ecológica, mas também económica, social e de múltiplas dimensões que a todos nos devem preocupar e que poderão pôr em causa – em alguns casos já estão a pôr – a fruição futura dos ativos turísticos. Isto depois prende-se, e tem reflexo, com um quarto grande ponto, que tem a ver com as catástrofes naturais, e que, dadas as alterações climáticas que estamos a atravessar, acabam também por ter reflexos na forma como os destinos conseguem ter ou não sucesso, porque estando tudo a correr bem, de um momento para o outro pode tudo correr menos bem, e as pessoas não vão para regiões que sofram desse tipo de problema.
Finalmente, um quinto grande ponto que está a moldar a atividade económica do turismo tem a ver com as novas tecnologias, nomeadamente com o aparecimento e a entrada em força nas nossas vidas da inteligência artificial e também das ferramentas quânticas, que vão levar todo o potencial económico, social, político para uma outra dimensão, e o turismo terá, forçosamente, que saber aproveitar essas oportunidades, tal como aqui há décadas esteve na primeira linha quando apareceu a internet e todas as novas tecnologias de informação e comunicação.
Fechado isto, do ponto de vista conjuntural, tendo estes grandes eixos estruturais a condicionar a evolução da atividade turística, há uma coisa que resulta também deste estado atual de coisas que é uma maior continentalização dos fluxos turísticos. Porquê? Porque as pessoas procuram não estar muito longe das suas casas, das suas residências e é natural que, do ponto de vista dos continentes, fiquem mais próximas do seu país de residência. O que não quer dizer, felizmente, que não haja turismo ou que não haja viagens intercontinentais. Hoje, o turismo é uma atividade económica global, mas a continentalização, a preferência por ficar mais perto, é algo que me parece óbvio.
“Sabendo que hoje temos 1.500 milhões de viagens de turistas não residentes que viajaram no ano passado, também sabemos que é impossível, neste momento, fazer 1.500 milhões de viagens por medida, mas daqui a relativamente poucos anos, tudo isso vai acontecer e a evolução da atividade irá naturalmente para essa tal super-hiperpersonalização da oferta e do consumo turístico”
Isto já é uma tendência. Que outras tendências é que podem concluir-se desta sua abordagem inicial?
Se nós quisermos aprofundar um pouco mais, há algo que vai motivar tudo isto: o consumidor vai ser cada vez mais exigente na customização do produto, porque tem noção do que está a acontecer, e nomeadamente, também vai usufruir das vantagens da inteligência artificial, das ferramentas quânticas e tudo isso. E vamos passar para algo que, antigamente – e eu ponho aqui o antigamente entre aspas -, se definia como a hiper-personalização, mas eu atrevo-me a dizer que vamos entrar no campo da super-hiperpersonalização do produto turístico.
Isto quer dizer o quê? Quer dizer que vamos ter acesso a um conjunto de dados que todos nós deixamos quando andamos no ciberespaço, a nossa pegada digital, que diz dos nossos gostos, das nossas preferências, de algo que nós não possamos usufruir porque temos alergias, tudo aquilo que condiciona as nossas vidas, e essa informação vai lá estar e vai estar disponível. Simplesmente hoje, o ser humano não tem capacidade de buscar e processar essa informação.
Com a inteligência artificial e, sobretudo, com as ferramentas quânticas, isso vai permitir-nos fazer um varrimento da internet e buscar toda essa informação. Ou seja, se eu tenho, na rede social, uma conversa com um amigo em que digo que não gosto de ver amarelo, por exemplo, não vale a pena a alguém que venda produtos amarelos, vir tentar vendê-los a mim e essa informação vai lá estar. Isto vai levar a um afinar do produto turístico, com algumas aspas, quase até à exaustão do mais ínfimo pormenor que esteja de acordo com a preferência dos clientes.
Sabendo que hoje temos 1.500 milhões de viagens de turistas não residentes que viajaram no ano passado, também sabemos que é impossível, neste momento, fazer 1.500 milhões de viagens por medida, mas daqui a relativamente poucos anos, tudo isso vai acontecer e a evolução da atividade irá naturalmente para essa tal super-hiperpersonalização da oferta e do consumo turístico.
Como é que Portugal se posiciona face a todo este contexto que acabou de descrever?
Portugal, por um lado, tem vindo a beneficiar dos últimos grandes ciclos e das últimas grandes conjunturas que têm acontecido a nível global. Para não recuarmos mais no tempo, com a primavera árabe nós fomos beneficiámos, quando eclodiu a guerra na Ucrânia, porque somos o ponto mais distante da guerra, também acabámos por beneficiar e, agora, estando os nossos mercados mais tradicionais na Europa e havendo a tal continentalização, Portugal também pode e tem vindo, a beneficiar de alguma forma.
No entanto, esta última grande crise que nós estamos a viver no Médio Oriente, levou-nos para uma crise energética profunda, entre outras áreas, nomeadamente na área não só da energia, mas dos fertilizantes, por exemplo, e tudo contamina as cadeias de valor, o que significa que há um aumento de preço de todos os produtos e dos serviços, o poder de compra não acompanha esse aumento e, portanto, as pessoas ficam com o poder de compra mais reduzido.
Aliás, aquilo que já se está a ver no mercado português, a nível dos residentes, é que os portugueses têm menos poder de compra e, obviamente, na hora de escolher entre saúde, habitação, educação, vestuário e o lazer, obviamente que o primeiro sítio onde se corta naturalmente é no lazer. E eu aqui gostava de dizer algo que me parece importante: hoje, muitas empresas no mundo inteiro, nomeadamente do turismo, por causa da conjuntura internacional e dos reflexos que têm, estão a começar a criar novas profissões dentro das suas estruturas orgânicas. Há algo que já começa a aparecer no estrangeiro e que, infelizmente, pelo menos que seja do meu conhecimento, ainda não existe em Portugal, que é o chamado CPO, o Chief Political Officer, ou seja, alguém cuja responsabilidade é compreender o mundo, ver e tentar projetar, obter informação que leva a antecipar o que pode vir a acontecer e, obviamente, passar essa informação, que é preciosa para a gestão da empresa.
Reparemos uma coisa, estamos a viver agora a crise no Médio Oriente, mas entretanto, já ouvimos que poderá haver problemas em Cuba e o facto é que já estão a acontecer. Há todo um conjunto de informações que nós hoje temos e que nos permitem, de alguma forma, planear melhor todas as atividades turísticas, desde o investimento até à simples elaboração de um pacote turístico.
Esta é uma área que noto que em Portugal tem sido algo descurada, mas já há empresas no turismo, e não falo só de empresas de dimensão planetária ou multinacionais, falo também de empresas em muitos países que têm exatamente esta função, porque é fundamental compreender a evolução histórica, o momento político e as suas consequências para a própria atividade.
“(…) quando se fala na hiperpersonalização, ou na super-hiperpersonalização, como falo, não estamos a falar em construir um hotel para cada cliente, estes investimentos são estudados, de acordo com as preferências do consumidor, e aquilo que se tem concluído, nos casos concretos que referiu, é que se consegue ter um produto com um conjunto vasto de valências, que depois se adapta a múltiplas preferências de diferentes consumidores”
Mas quando olhamos para os investimentos dos grandes grupos hoteleiros mundiais nos últimos 5 anos, nota-se o aparecimento de cada vez mais resorts com capacidade para 1.000 pessoas ou 1.500 pessoas, como no México, na República Dominicana, etc. Os planos de novos investimentos não param de ser anunciados, então onde é que isso casa com o tal fato à medida de cada turista, que é uma das tendências que apontou?
Penso que casa perfeitamente, porque quando se fala na hiperpersonalização, ou na super- hiperpersonalização, como falo, não estamos a falar em construir um hotel para cada cliente, estes investimentos são estudados, de acordo com as preferências do consumidor, e aquilo que se tem concluído, nos casos concretos que referiu, é que se consegue ter um produto com um conjunto vasto de valências, que depois se adapta a múltiplas preferências de diferentes consumidores.
Hoje procuramos segmentar, personalizar dentro da própria oferta que temos mas para várias áreas, porque algumas delas se complementam. Por exemplo, a área da saúde e do bem-estar são inegavelmente uma das áreas que levam mais pessoas a viajar, mas dentro do segmento de saúde e do bem-estar, não podemos só ligar à área dos tratamentos, da alimentação saudável, tudo isso é complementado com outros tipos de ofertas, por exemplo, em termos da animação, até em termos daquilo que é a vivência das comunidades locais e isso pode trazer-se para dentro dos próprios investimentos turísticos, para dentro dos tais resorts. Portanto, há uma multiplicidade de fatores e de situações que, embora cada vez mais as pessoas queiram o único, o exclusivo, o individual, o tal fato por medida, não quer dizer que o investimento seja reduzido apenas para um cliente.
Aliás, isto não se nota só na área do alojamento, mas também na área da aviação com o aparecimento das ‘económicas premium’, que cada vez é mais uma realidade. Porquê? Porque há um nicho de mercado que está ali entre a executiva e a económica e que está disponível para pagar um pouco mais, mas tendo, obviamente, mais benefícios e tendo, lá está, uma maior personalização, mais de acordo com aquilo que está a seu gosto.
Estamos a fazer em Portugal os ajustamentos certos para respondermos no futuro, ou até já no presente, a estas exigências?
Mais do que a questão da instabilidade do momento, sinceramente, acho que não estamos, e vou tentar simplificar aquilo que quero dizer. Para haver turismo há duas coisas que são óbvias, uma é haver turistas, haver quem viaje, mas a outra, logo a seguir, é haver possibilidade de deslocação, porque sem deslocação não há turismo, ponto final, parágrafo. A questão que nós, neste momento, temos é que estamos, de alguma forma, a ficar saturados do ponto de vista das possibilidades de deslocação que oferecemos, veja-se o que se tem passado com a questão do aeroporto, que não é de hoje, mas que está a ser um garrote cada vez maior ao desenvolvimento da nossa atividade turística e, portanto, aquilo que está a acontecer é que estamos a ficar um pouco fora do mercado, e isso nota-se.
Havia quem dissesse que em 2025-2026 íamos entrar no chamado planalto, mas da leitura que faço é que já estamos na fase descendente do planalto, ou seja, nós já passámos o planalto e já iniciámos a descida, não porque quiséssemos, mas porque não temos mais capacidade de atração de fluxos turísticos.
Nós temos agora esta questão conjuntural do Médio Oriente que apareceu há quatro meses, mas se olharmos para os mercados asiáticos vemos que no início de 2025, estamos a falar há um ano e meio, a China libertou-se completamente das amarras que ainda trazia do Covid e de uma série de outras situações, e começou a disparar, o mercado indiano a mesma coisa, ou seja, há um conjunto vasto de países na Ásia-Pacífico, como a Coreia e por aí fora, a que nós não temos capacidade para oferecermos mais vagas, do ponto de vista da nossa aviação, e nomeadamente dos equipamentos e das infraestruturas aeroportuárias,
Há uma grande máxima que ao longo destes anos o turismo me ensinou, é que quando nós não fazemos, seguramente em qualquer parte do mundo alguém está a fazer por nós, e não tendo nós hoje essa capacidade, obviamente que há outros que estão a posicionar-se para a mesma.
Isto tem reflexo hoje? Não, mas vai ter reflexo daqui a 3, 4, 5, 10 anos, esse é que é o problema e isso é que nos deve preocupar. Portanto, desse ponto de vista, nós não estamos, de facto, a fazer aquilo que nos compete, porque a primeira coisa que temos de fazer é possibilitar às pessoas que cheguem até nós.
Na 2ª parte da entrevista com Atílio Forte que o Turisver vai publicar na próxima quinta-feira, poderá ler:
- A falta de estratégia de Portugal em termos do cluster da aviação
- A evolução do transporte aéreo a nível mundial
- A privatização da TAP
- A política aeroportuária


