ANAV quer trabalhar com os partidos políticos e com a SETCS na regulação dos angariadores de viagens, diz Miguel Quintas
Na segunda parte da entrevista a Miguel Quintas, recentemente reeleito presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV) abordámos temas como o Dia Nacional do Agente de Viagens, os pontos fundamentais em que se vai centrar a atuação da Direção no triénio 2026-2028 e o que está pensado para o futuro.
Nesta segunda parte da nossa entrevista começava por outra questão que também envolve a tutela, o Dia Nacional do Agente de Viagens. Quer a ANAV quer a sua congénere, o que propunham para esse dia passava por mais trabalho para o agente de viagens. Estamos a falar do Dia Nacional do Agente de Viagens ou das Agências de Viagens, que são coisas diferentes?
Não quero entrar em polémicas mas a ideia do Dia Nacional do Agente de Viagens é da ANAV, ponto. E tocamos para a frente porque o que é relevante é o setor.
A ANAV, quando apresenta o Dia Nacional do Agente de Viagens, tem um projeto, mas também reconhece que há alguém com um peso importante que tem que participar. Na nossa opinião, é obrigatório que todas as associações encontrem uma plataforma de entendimento para celebrar o Dia Nacional do Agente de Viagens, porque ele não é viável se as associações existentes não estiverem de acordo.
Aquilo que a ANAV preconiza é fazer não só o Dia do Agente de Viagens – nós temos uma ideia de um dia preciso mas nem sequer queremos lançar para cima da mesa, porque este dia terá de ser acordado com a associação congénere -, mas fazer comemorações de uma semana inteira das agências de viagens de portas abertas, em Portugal inteiro, onde possamos juntar as companhias aéreas, todos os operadores turísticos, a hotelaria, os rent-a-car, as Regiões de Turismo, o Turismo de Portugal, tudo numa festa enorme, com cobertura mediática dos meios de comunicação nacionais, para garantir que as pessoas vão às agências de viagens e compram produtos turísticos nas agências, sendo que nós sabemos que a carteira dos portugueses no início do ano é muito maior do que, por exemplo, no final de maio.
Esta festa pode acontecer entre dezembro e eventualmente março, mas jamais em maio, quando todo o produto está vendido e as carteiras dos clientes estão exauridas, e estaríamos a celebrar o Dia Nacional dos Agentes de Viagens simplesmente porque sim. Nós temos que utilizar esta ferramenta como uma atividade de marketing, uma atividade comercial.
Obviamente que nos opomos a qualquer dia que não se enquadre neste tipo de estratégia, e muito menos a celebrar este Dia na data de nascimento de uma associação congénere. Isso não tem a ponta para onde se pegue. Nós precisamos de apoiar as agências de viagens, o setor, e não a associação A ou B. Celebrar o Dia Nacional do Agentes de Viagens no dia da fundação de uma associação é sobrepor a associação ao setor e a isso opomo-nos terminantemente.
Há cerca de dois anos, o secretário de Estado disse que iria trabalhar no Estatuto do Agente de Viagens, mas até hoje não se conhecem os resultados desse trabalho. O que é que a ANAV pensa sobre esse assunto?
Pensamos o melhor possível, inclusive enviámos recomendações para o Estatuto de Agente de Viagem ao secretário de Estado. Temos o maior interesse em olhar para esse possível documento, de que ainda não temos informação, mas acho que é uma boa iniciativa de alguém que é profundo conhecedor do setor e sabe que o agente de viagens pode e deve ter um Estatuto.
“Temos um assunto muito quente em mãos em que a ANAV tem sido proactiva, que é o caso dos consultores ou angariadores, que é como a ANAV lhes chama, e estamos a trabalhar profundamente neste tema, com todos os partidos políticos, com a Secretaria de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, a quem já enviámos um documento da posição legal, que gostaríamos de abordar com mais profundidade na próxima reunião que estamos a tentar consertar o secretário de Estado”
Falemos agora do futuro. Para este segundo mandato, quais são os pontos fundamentais do vosso programa?
Temos vários, um deles é a formação, que é fundamental para o nosso setor e nós queremos estar sempre presentes. Lançámos um programa completamente inovador, nunca ninguém tinha feito nada deste género em Portugal, com formação certificada e fomos a primeira associação a fazê-lo.
Temos um assunto muito quente em mãos em que a ANAV tem sido proactiva, que é o caso dos consultores ou angariadores, que é como a ANAV lhes chama. Estamos a trabalhar profundamente neste tema, com todos os partidos políticos, com a Secretaria de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, a quem já enviámos um documento da posição legal, que gostaríamos de abordar com mais profundidade, na próxima reunião que estamos a tentar consertar o secretário de Estado. Estamos na linha da frente para resolver este problema, temos um “elefante” dentro da sala, não vale a pena estar a esconder que ele existe, e estamos a encará-lo de frente.
Temos ainda algumas dúvidas de como tratar este problema mas ele tem que ser resolvido para bem da qualidade de atendimento do cliente final e das empresas deste setor. E é sobre este ângulo, que é muito complexo, que nós estamos a olhar sob uma perspetiva legal. No dia 29, vamos fazer uma reunião geral online de agências de viagens a nível nacional, para debater este tema e deste debate em que qualquer agência pode participar, vai muito provavelmente sair a decisão final de posicionamento da ANAV face a este tema. E daqui produziremos documentação para juntar àquilo que já produzimos para apresentarmos aos partidos políticos e para oficializar a posição da ANAV junto a tutela.
O que não pode acontecer é aquilo que está a acontecer ao dia de hoje, que é uma desregulação completa. Temos que encontrar caminhos para que o cliente final não seja afetado e para que o setor se organize.
Temos mais um tema muito relevante que vamos manter, e que ainda não comentei. Nós lançámos um barómetro de agências de viagens, que fazemos duas vezes por ano. É importante para termos informação antes dos picos, quer no inverno, quer no verão. Temos um protocolo com a Universidade Europeia, que nos leva a outros patamares de informação, e vamos começar a fazer o barómetro em conjunto com a Universidade Europeia, e espero conseguir lançar isto já neste inverno.
Isto ajuda-nos a dar ao mercado português e internacional informações sobre o que está a acontecer nas vendas, permite-nos medir a “temperatura” de uma forma bem mais credível do que aquilo que existe atualmente, em que são apenas considerados alguns diretores de algumas empresas. Nós queremos ir justamente onde se toca o produto com a mão, que são os agentes de viagens.
“A primeira é o investimento do Estado de 50 milhões de euros, revertido em apoios ao turismo sénior vendido em exclusivo através das agências de viagens – de todas as agências de viagens. Passámos isto para a tutela e gostaríamos de debater isto com a tutela. Sabemos que as reformas em Portugal são exíguas, que os seniores, os reformados, têm tempo para viajar, e o programa é ambicioso a ponto de colocar este volume de pessoas, com pouco rendimento, a viajar fora de época para os destinos que estão menos fortalecidos nessa época do ano…”
Pensam fazer alguma iniciativa pública, um debate, um fórum ou congresso, durante os três anos deste mandato?
Nós temos, naturalmente, desejo de vir a fazer a nossa primeira convenção, mas para o fazer precisamos de meios humanos e financeiros, não de escala nem de dimensão porque isso nós conseguimos e temos. Não vislumbro que aconteça neste primeiro ano, mas tenho o desejo, e acredito, que no segundo ano tenhamos o primeiro grande congresso da ANAV.
Deixe-me dar mais uma nota que acho que pode ser relevante em relação às nossas atividades. Nós temos interesse, e isto é algo que vai acontecer todos os anos, em participar e em lançar projetos desafiantes para a Secretaria de Estado de Turismo no que toca ao Orçamento do Estado. A ANAV pensa que este setor tem imenso por onde caminhar e tem na sua agenda não apenas a representação das agências, mas também tentar e fazer com que o maior volume de negócio venha para as agências de viagens. Algo que tem estado afastado do associativismo em Portugal, do associativismo em agências de viagens, é criar negócio, facilitar negócio, e nós temos duas medidas que apresentámos para este Orçamento do Estado e vamos continuar a debatê-las.
A primeira é o investimento do Estado de 50 milhões de euros, revertido em apoios ao turismo sénior vendido em exclusivo através das agências de viagens – de todas as agências de viagens. Passámos isto para a tutela e gostaríamos de debater o tema com a tutela. Sabemos que as reformas em Portugal são exíguas, que os seniores, os reformados, têm tempo para viajar, e o programa é ambicioso a ponto de colocar este volume de pessoas, com pouco rendimento, a viajar fora de época para os destinos que estão menos fortalecidos nessa época do ano, e com isso garantir várias coisas.
Primeiro, o não encerramento de unidades hoteleiras. Segundo, a manutenção dos postos de trabalho durante o ano inteiro, porque estamos a alisar a sazonalidade. Terceiro, o aumento das contribuições para a Segurança Social e para o IRS, como consequência da manutenção dos postos de trabalho. Quarto, o aumento das contribuições de IRC destas unidades hoteleiras, fruto do aumento de vendas. Quinto, o aumento da felicidade da terceira idade porque vai poder finalmente ter acesso a preços vantajosos, subsidiados, sendo que estes 50 milhões são reinjetados na economia e de alguma forma aquilo que estamos a preconizar é que o Governo do bolso direito passe para o bolso esquerdo, mas continue a receber estes 50 milhões, ou seja, não é um subsídio, é um investimento com retorno garantido.
Temos tudo o que é interior seguramente disponível para receber esta gente, e uma parte do Algarve também porque estamos a falar em outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, eventualmente parte de março. Falamos dos Açores, também da Madeira, apesar de na Madeira haver menos sazonalidade. Conseguimos dividir Portugal em termos de taxas de ocupação, sendo que as zonas com taxas de ocupação inferior podem ser elegíveis.
Quem melhor do que as agências de viagens para gerir este tipo de solução, porque têm contacto com todos os fornecedores? Estamos a fomentar o turismo em Portugal, pelo que presumo que além dos hotéis, restaurantes, etc, também as próprias regiões de turismo tenham interesse em fazê-lo. É um win-win para todos os que estão envolvidos, hotelaria, regiões de turismo, restauração, transportes, agências de viagens, eventualmente companhias aéreas, se estivermos a falar dos Açores.
“Temos outra proposta para a tutela, que é um voucher de 150 euros para os jovens desempregados que têm o seu curso terminado e que poderiam usar este voucher para viajar em Portugal”
Está a falar apenas de turismo interno?
Exclusivamente turismo interno, sim, por isso gostaríamos muito de agarrar esta ideia porque a ANAV não esgota a sua atuação como representação das agências de viagens, tem que trazer negócio para as agências de viagens. E é este o trabalho que tem que realizar.
Temos outra proposta para a tutela, que é um voucher de 150 euros para os jovens desempregados que têm o seu curso terminado e que poderiam usar este voucher para viajar em Portugal. Já enviámos esta informação mas acabou de sair uma promoção entre a CP e as Pousadas da Juventude, ambas geridas pelo Estado, para os jovens poderem viajar e, portanto, não seria nada mais nada menos que juntar a isso as unidades hoteleiras e fazer todo o processo de venda via agências de viagens. Seria mais uma forma de, fora da época, quando as próprias agências de viagens têm menos trabalho, ajudarem não só o setor, mas também o próprio negócio das agências de viagens.
São duas medidas verdadeiramente potenciadores do turismo em Portugal, desde que sejam organizadas, estruturadas e vendidas através da rede de agências de viagens que existe em Portugal.
Última pergunta: onde é que o presidente da ANAV pensa que a associação vai estar daqui a 3 anos, no final do seu segundo mandato?
Eu gostava de deixar a ANAV, em primeiro lugar, com uma boa saúde financeira, e isso vai acontecer seguramente, em segundo lugar gostava de deixar a ANAV como associação de referência para as agências de viagens nacionais, aquela associação em que as agências de viagens se conseguem rever na sua atuação diária, na sua atuação junto da tutela, junto do poder político, das instituições que estejam diretamente ou indiretamente ligadas a tudo aquilo que são agências de viagens.
Gostaria de deixar a ANAV com um crescimento grande de associados, com a primeira convenção realizada, e, finalmente, numa situação em que, no final do meu mandato, haja um clima democrático completamente instituído, e pelo menos duas candidaturas à presidência, porque a estrutura da ANAV está montada numa base democrática, numa base estrutural de balanceamento e distanciamento dos poderes, de fácil lançamento de eleições, sem lobbies. Uma ANAV estruturada desta forma permite ter um setor de agências de viagens bem mais potente, bem mais forte, com mais visibilidade, em que as agências sejam também elas mais saudáveis.
Leia aqui a 1ª parte da entrevista a Miguel Quintas, presidente da ANAV.

