Ana Jacinto: Medidas de apoio ao setor são “bem-vindas” mas é necessário conhecer as condições de elegibilidade
As dificuldades por que passa o setor da restauração têm estado na ordem do dia. Na FITUR, em Madrid, Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP, fez ao Turisver uma análise da situação do setor e afirmou que as medidas anunciadas pelo Governo são “bem-vindas” ressalvando, no entanto, a necessidade de conhecer as medidas de elegibilidade para esses apoios.
Estão a surgir nos vários meios de comunicação declarações de Chefs bem conhecidos a afirmar que a restauração enfrenta uma crise profunda e, inclusivamente, que fecharam ou vão fechar os seus espaços. Vocês sentem isso, na Associação?
Nós não sabemos se é uma crise e muito menos se é uma crise profunda. O que nós temos vindo desde há muito a alertar, é que há áreas que vinham a sinalizar esta preocupação, que é de muitas empresas, e não é só daquelas que são lideradas por Chefs mais conhecidos. A preocupação é transversal a todo o setor, muitas empresas apresentam problemas que nos estavam a preocupar há muito tempo.
Tudo isto acontece de uma forma mais ou menos silenciosa, porque as empresas de restauração, quando encerram, não significa que seja por processo de insolvência ou falência, apenas fecham portas e não se dá conta, mas como a AHRESP tem cerca de 17 delegações no terreno, com colaboradores que permanentemente monitorizam e acompanham os estabelecimentos, percebemos que há muitas portas a fechar.
Por isso, a nossa preocupação com o setor é um facto, e já há muito que vínhamos alertando para isso e a dar nota desta nossa preocupação, principalmente ao senhor secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços.
Isto surge com um cenário que resulta de vários fatores que têm vindo a acumular-se. Depois da pandemia, as empresas não tiveram tempo de se robustecer, nem de se recapitalizarem, porque o tecido empresarial da restauração é formado muito por microempresas que entretanto foram apanhadas pela inflação, sobretudo ao nível dos bens alimentares, que representam um custo muito grande nestas empresas.
Depois, há o problema dos salários. Inevitavelmente, estas empresas têm de subir salários, nós somos um setor de pessoas para pessoas e precisamos do capital humano. O aumento de salários tem representado um custo enorme para as empresas, que não é acompanhado por nenhum esforço do Estado, porque a carga fiscal e contributiva em cima do rendimento do trabalho continua muito elevada. As empresas estão a fazer um grande progresso nesta matéria, aliás, o ano passado, o setor turístico foi um dos setores onde os salários mais aumentaram. Claro que partimos de uma base menor, mas este é um sinal do esforço que as empresas estão a fazer, e isto tudo se paga – são os custos com as matérias primas, com os salários, os empréstimos Covid que estão a ser pagos e até agora não havia possibilidade de restruturação desta dívida.
Tudo isto pesa, mesmo que haja procura e há muitos estabelecimentos que não sentem tanto a falta de procura porque estão em circuitos turísticos e que não dependem tanto do mercado interno, mas até nesses a rentabilidade no final do dia é muito curta, porque o aumento no preço das refeições não foi feito na proporção em que aumentaram os custos, e portanto, muitos estão com muitas dificuldades.
Este tem sido um cenário cada vez mais gritante, e é por isso que a AHRESP há muito tempo tem vindo a trabalhar com o senhor secretário de Estado, e sabemos que algumas medidas que estão a ser trabalhadas com a AHRESP, vão avançar. Agora, vamos ver se as condições de elegibilidade são aquelas que a AHRESP apresentou como propostas.
“(…) mesmo naqueles restaurantes em que a procura é alta, a rentabilidade começa a ser muito diminuta, e é preciso notar que a restauração já é, por si, um negócio que tem margens pequenas”
Esta situação é transversal a todas as empresas de restauração e a todo o país?
A situação é muito transversal, embora naqueles que estão em circuitos mais turísticos, as dificuldades não sejam tantas porque a procura continua, mas mesmo naqueles restaurantes em que a procura é alta, a rentabilidade começa a ser muito diminuta, e é preciso notar que a restauração já é, por si, um negócio que tem margens pequenas. Portanto, para responder à pergunta, a situação é um bocadinho transversal a todo o território, com questões um bocadinho diferentes, mas é transversal.
Para se ter uma melhor perceção, numa escala de 0 a 10, por exemplo, na avaliação da AHRESP, qual é o risco em que estamos no que se refere à possibilidade de encerramento de restaurantes?
Nós estamos a sentir um aumento grande de encerramentos, os tais encerramentos silenciosos, que não fazem parte das estatísticas oficiais, porque muitos deles metem um papelinho à porta a dizer que estão encerrados, e acabou. É claro que, se calhar, no dia seguinte está lá outro espaço de restauração, porque a rotatividade no setor também é grande, mas a verdade é que aquele espaço, com aquelas pessoas, que era o sustento da determinada família, encerrou e provavelmente foram todos para o subsídio de desemprego aumentar os encargos do Estado. Portanto, temos que ter cuidado com tudo isto, e é dever da AHRESP tentar com que sejam dadas a todas estas empresas, por mais pequenas que sejam, condições para se aguentar.
Apesar de tudo, como disse, continuam a abrir restaurantes?
Continuam, embora não na mesma proporção, segundo os dados que temos. E são outras empresas com outras tipologias, com outros conceitos que estão também a surgir.
“(…) o que a AHRESP deseja não são medidas ou apoios ou instrumentos financeiros para ajudar as empresas. O que desejaríamos era que as empresas tivessem condições e ambientes fiscais e económicos positivos para poderem gerar e distribuir riqueza e gerar postos de trabalho”
A AHRESP está confiante em que as medidas que o Governo vai implementar vão ser um bom auxílio?
Se me perguntar se era aquilo que a AHRESP desejava, eu digo que não, porque o que a AHRESP desejava era que tivesse sido ouvida atempadamente, sobretudo na altura em que estivemos a discutir um instrumento que é muito importante, que é o Orçamento do Estado, e nós tivemos a oportunidade de propor um conjunto de medidas. Se as medidas tivessem sido implementadas na altura, se calhar não estaríamos a falar como estamos a falar agora, porque o que a AHRESP deseja não são medidas ou apoios ou instrumentos financeiros para ajudar as empresas. O que desejaríamos era que as empresas tivessem condições e ambientes fiscais e económicos positivos para poderem gerar e distribuir riqueza e gerar postos de trabalho. Se tivéssemos um ambiente mais favorável a que isso acontecesse, se calhar não teríamos que estar a pedir medidas que mitigassem os impactos que estamos a ter.
Agora, como isso não aconteceu, as medidas são bem-vindas porque foram resultado de muito trabalho da AHRESP, como com o senhor secretário de Estado. O senhor ministro já anunciou medidas, de forma genérica, mas segundo disse, até fevereiro, deverá estar em condições de fechar as medidas e dizer quais são as condições de e legibilidade. E nós, obviamente, vamos acompanhar, para ver se essas condições de elegibilidade vão ao encontro daquilo que o setor necessita.
Turisver na FITUR, em Madrid, a convite da ARPT do Alentejo


