AHRESP volta a apelar para medidas de apoio à restauração que vive “uma crise que as estatísticas não medem”
Num comunicado que é uma resposta implícita ao Governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, a AHRESP veio esta terça-feira reforçar o apelo para medidas de apoio à da restauração, e afirmar que a análise agregada do sector, através de estatísticas, “tende a ocultar assimetrias profundas”.
Num comunicado intitulado “Restauração: A Realidade”, a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) começa por afirmar que o setor atravessa em Portugal “um momento paradoxal: mantém-se como um dos pilares da economia nacional, do emprego e da atratividade turística, mas fá-lo num contexto de pressão estrutural crescente, de margens severamente comprimidas e de encerramentos silenciosos, sobretudo entre micro e pequenas empresas familiares”.
A Associação defende que a restauração é “um setor de enorme importância para a economia nacional” e que “tem de ser preservado”, sendo que para isso as suas empresas necessitam de “condições reais” que lhes possibilitem manter a sua actividade.
Para isso, considera a AHRESP “é indispensável que a análise do setor vá além das médias e reconheça a pressão real sobre as margens das microempresas” e que “as políticas públicas possam ir além dos indicadores médios e respondam à realidade de quem opera no terreno: o microempresário que não tem condições para ajustar o preço de venda à subida efetiva dos seus custos, que vê diminuir os seus clientes e o consumo médio, e que luta diariamente para sustentar o seu negócio e os seus postos de trabalho”.
Citados pela Associação, os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) disponíveis, que datam de 2024, indicam que o setor contava com 74.524 empresas e 324.130 trabalhadores, mas para a AHRESP, estes números, tomados “isoladamente “isoladamente sugerem um setor dinâmico”, mas “escondem uma realidade estrutural determinante: 91% são microempresas e 51% são Empresários em Nome Individual (ENI)”, o que configura a “natureza fragmentada e de micro dimensão” que “torna a análise agregada e global insuficiente para retratar os problemas reais de quem trabalha no terreno”.
Por outro lado, acrescenta, “muitos destes negócios são de proximidade, de base familiar e desempenham uma função social acrescida – não só pela criação do próprio posto de trabalho, mas também pela presença nos territórios de baixa densidade, onde muitas vezes são o único ponto de referência comercial e social da comunidade”.
Este tipo de empresas, reforça a associação, tem “menor capacidade negocial junto de fornecedores, de estruturas financeiras mais expostas e de uma resiliência limitada face a aumentos de custos persistentes”, sendo por isso, “as primeiras a sentir qualquer deterioração das condições de operação — e as últimas a ser visíveis nos indicadores oficiais quando fecham”.
No global, afirma a AHRESP, as empresas da restauração “têm vindo a ajustar os preços de venda, mas muito abaixo dos aumentos expressivos a que têm sido sujeitas”, o que tem resultado em “esmagamento das margens de negócio e sérias dificuldades em sustentar os negócios e os postos de trabalho”.
O “post” do Governador do Banco de Portugal
Na prática, o comunicado difundido esta terça-feira pela AHRESP, acaba por responder, implicitamente, ao Governador do Banco de Portugal que na segunda-feira, através de uma publicação na rede social X, colocou em causa a existência de uma crise no setor da restauração, tendo até destacado que o setor cresceu 69% em termos nominais desde 2019, graças à expansão do turismo e do aumento do consumo.
“Nos últimos meses tem-se falado muito de uma eventual crise no setor da restauração, com os representantes do sector a pedirem ajudas públicas e descidas de impostos. Será assim? O que é que nos dizem os números? Vejamos então: Nos últimos anos, o sector da restauração cresceu bastante, graças à expansão do turismo e aumento do consumo. Desde 2019, a restauração cresceu 69% em termos nominais e 25% em termos reais. Esta tendência de crescimento continuou em 2025, embora de forma mais moderada. Porém, em 2025, o volume de negócios na restauração aumentou 2,9% em termos nominais, face a 2024”, escreveu Álvaro Santos Pereira.
Reconhecendo que “os preços cresceram 6%, o que levou a uma queda do volume de negócio em termos reais, principalmente no último trimestre de 2025”, o governador do BdP considera que isso poderia motivar o pedido de ajuda do setor, no entanto refere que, como os preços cresceram, os gastos de portugueses e estrangeiros na restauração registaram um aumento de 2,7% em termos reais.
O governador do BdP e ex-ministro da Economia, foi mesmo mais longe ao afirmar que “em relação à crise na restauração os números são de tal forma evidentes que falam por si”.
Vale recordar que o comentário de Álvaro Santos Pereira seguiu-se a uma entrevista da secretária-geral da AHRESP, Ana Jacinto, à Antena 1/Jornal de Negócios no fim de semana, em que a responsável defendeu medidas urgentes de apoio ao setor da restauração e similares, tendo manifestado a sua apreensão relativamente ao impacto da guerra no Médio Oriente nos preços e na procura.


