Açores: Atividade turística continuou a “arrefecer” em fevereiro e saída da Ryanair já teve efeitos negativos na Páscoa
Em fevereiro, o número de dormidas nos alojamentos turísticos dos Açores voltou a descer, segundo dados divulgados pelo SREA, afetando todas as tipologias mas muito em particular o AL. Já para a Páscoa, a Hotelaria previa uma queda na ocupação e preços, com os efeitos da saída da Ryanair a fazerem-se já sentir.
Relativamente ao período da Páscoa, que é habitualmente um momento alto para a atividade turística, as perspetivas nos Açores não eram animadoras, com a hotelaria a antecipar uma ocupação mais baixa face ao mesmo período o ano passado e também uma descida nos preços – uma situação que poderá também resultar já do impacto negativo da saída da Ryanair.
Em declarações à RTP Notícias, no passado dia 1 de abril, Andreia Pavão, representante da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) nos Açores, apontava para esta Páscoa “uma ocupação a rondar os 50% e uma ligeira quebra também no preço médio”, pelo efeito da saída da Ryanair. “A saída da Ryanair reduz o número de lugares e há um efeito direto no preço” na medida em que “este ajustamento do mercado torna as viagens mais caras”, disse Andreia Pavão, acrescentando que “há menos lugares disponíveis para as pessoas virem [aos Açores] e não havendo voos, é normal que haja menos hóspedes e menos dormidas”.
Também em declarações à RTP Notícias, o presidente da Associação do Alojamento Local nos Açores, João Pinheiro, adiantou que, com base num inquérito realizado junto dos associados, “50% dizem que a ocupação está abaixo dos 50% e 30% não tem qualquer reserva”.
O impacto é também sentido no setor do rent-a-car, com Luís Rego, administrador do Grupo Ilha Verde a adiantar que a saída da Ryanair poderá representar “uma quebra de 30%” face ao ano passado.
Queda no número de hóspedes e dormidas dos mercados interno e externo afeta todas as tipologias alojamento
Os dados do Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA) indicam que no mês de fevereiro, no conjunto da hotelaria, alojamento local e turismo no espaço rural foram registadas 155,1 mil dormidas, número que reflete um decréscimo homólogo de 5,9%. A descida afetou o mercado nacional (85,6 mil dormidas, 52,2% do total e -1,8% em termos homólogos) mas principalmente os mercados externos (69,5 mil dormidas, 44,8% do total, e -10,6% do que no mesmo mês do ano passado).
O turismo açoriano está, assim, em contraponto com o que se verifica a nível nacional, com o SREA a alertar que “para o conjunto dos estabelecimentos de alojamento turístico, a variação homóloga mensal do total das dormidas diminuiu pelo quinto mês consecutivo”.
O mês de fevereiro levou até aos alojamento turísticos dos Açores 55.000 hóspedes, o que representa uma taxa de variação homóloga negativa de 5,5%. A estada média situou-se nas 2,82 noites, tendo diminuído 0,4%.
No acumulado dos primeiros dois meses do ano, as dormidas na RA dos Açores ficaram-se pelas 277,2 mil, – 7,4% do que no mesmo período do ano passado. Já as dormidas cifraram-se em 99,6 mil, -7,2% face ao período homólogo. Neste período, a estada média situou-se nas 2,78 noites (-0,2%)
Considerando o conjunto dos estabelecimentos de alojamento turístico, em fevereiro, a hotelaria concentrou 65,3% da totalidade das dormidas (101,3 mil dormidas, -0,2% em termos homólogos), seguindo-se o alojamento local com 31,3% (48,6 mil dormidas,-15,8%), enquanto o turismo no espaço rural concentrou 3,4% (5,2 mil dormidas, -8,5%)
“Nos últimos meses, as variações homólogas mensais das dormidas na hotelaria têm-se mantido praticamente inalteradas e com valores ligeiramente negativos por nove meses consecutivos. Por outro lado, no que respeita ao alojamento local, este segmento regista valores negativos pelo quarto mês consecutivo, com as variações das dormidas relativamente ao ano anterior a apresentarem uma tendência decrescente. O turismo no espaço rural regista também sucessivas variações homólogas mensais negativas desde outubro de 2025, embora com tendência crescente nos últimos dois meses”, indica o SREA.
Relativamente aos mercados externos, no mês em análise, a Bélgica (+23,5%), a Polónia (+8,8%) e a Áustria (+5,8%) apresentaram as maiores variações homólogas positivas nas dormidas. Por outro lado, os maiores decréscimos foram verificados nos mercados do Reino Unido (-45,6%), Espanha (-44,4%), Ucrânia (-35,3%) e Israel (-34,4%).
Os 8 principais mercados externos representaram 77,3% das dormidas de residentes no estrangeiro, com os EUA a continuarem a ser o maior mercado emissor, com 13,3 mil dormidas (+0,4%). A Alemanha foi o segundo, com 12,6 mil dormidas (-0,2%), seguindo-se o Canadá, com 10,1 mil dormidas (+0,6%).
O SREA chama, no entanto, a atenção para o facto de nas comparações homólogas, haver que ter em conta “os efeitos associados à estrutura móvel do calendário, ou seja, o período de férias associado ao Carnaval este ano ocorreu em fevereiro, enquanto no ano anterior se concentrou no início de março”.
Hotelaria
Em fevereiro, a hotelaria açoriana registou 101,3 mil dormidas (-0,2% do que no mesmo mês do ano passado) O mercado nacional garantiu 62,1 mil dormidas (-0,4%) e os mercados externos contribuíram com 39,1 mil dormidas (+0,2%). O número de hóspedes situou-se nos 41,1 mil (-0,2%). A taxa líquida de ocupação-cama atingiu 29,6%, (-1,2 pontos percentuais) e a taxa líquida de ocupação-quarto atingiu 38,2%, o mesmo valor do ano anterior.
Os proveitos totais, registaram uma variação homóloga positiva de 7,1%, atingindo 6,2 milhões de euros, e os proveitos de aposento tiveram uma variação positiva de 0,4%, totalizando 4 milhões de euros. O rendimento médio por quarto disponível (RevPAR) foi de 25,21€ e por quarto utilizado (ADR) foi de 65,94€.
Os dados do SREA indicam, também, que no acumulado dos dois primeiros meses do ano, a hotelaria, registou 179,1 mil dormidas (-1,8% em termos homólogos).
Alojamento Local
No mês de fevereiro, alojamento local registou 48,6 mil dormidas, -15,8% face ao mesmo período de 2025. O mercado nacional garantiu 21,5 mil dormidas (-6,7%) e os mercados externos contribuíram com 27,1 mil dormidas, -21,9%. O número de hóspedes situou-se nos 12,2 mil (-20,6%).
De salientar que, de acordo com os dados do SREA, 67% dos estabelecimentos de AL ativos reportaram que não tiveram hóspedes em fevereiro.
No acumulado de janeiro e fevereiro, o AL registou 89,1 mil dormidas, (-16,2% face ao registado no período homólogo).
Turismo no Espaço Rural
No mês em análise, o TER registou 5,2 mil dormidas (-8,5%), com o mercado nacional a garanti 2.000 dormidas (+14,5%) enquanto os mercados externos foram responsáveis por 3,3 mil dormidas (-18,6%). Os hóspedes foram 1.700, +1,4% do que no mesmo mês do ano passado
Os proveitos totais aumentaram 5,9%, para 556,7 mil euros, e os proveitos de aposento tiveram uma variação positiva de 8,8% para 432,6 mil euros. O rendimento médio por quarto disponível (RevPAR) foi de 32,87€ e por quarto utilizado (ADR) foi de 134,76€.
No período acumulado de janeiro a fevereiro, no turismo no espaço rural, registaram-se 9,0 mil dormidas, valor inferior em 14,5% ao registado no mesmo período do ano anterior.
Empresários açorianos falam em impacto negativo direto de 3,2M€ em fevereiro
Comentando os resultados do mês de fevereiro, a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD) mostrou-se preocupada com o “arrefecimento consistente da atividade turística na Região”, e estimou que a descida verificada na procura turística durante o mês de fevereiro terá gerado um impacto económico direto negativo de cerca de 3,2 milhões de euros que, englobando os efeitos indiretos, se poderá ter cifrado em 4,3 milhões de euros.
Em comunicado emitido no dia em que foram publicados os dados do SRERA, a associação empresarial frisa que “esta quebra na procura turística em fevereiro de 2026 traduz-se num impacto económico direto de aproximadamente 3,2 milhões de euros. Quando considerados os efeitos indiretos e induzidos na economia regional, o impacto total só deste decréscimo do mês de fevereiro ascende a cerca de 4,3 milhões de euros, refletindo-se ainda num impacto no Valor Acrescentado Bruto (VAB) estimado em 2,4 milhões de euros”.


