A guerra no Médio Oriente, a legislação laboral e os efeitos da tempestade foram mote de conversa com Francisco Calheiros
O impacto da guerra no Médio Oriente, as consequências que os efeitos das tempestades na região centro poderão ter no mercado interno e legislação laboral foram os temas de uma conversa do Turisver com o presidente da Confederação do Turismo de Portugal, Francisco Calheiros, à margem do congresso da ADHP, em Elvas.
Que impacto é que esta nova guerra no Médio Oriente pode vir a ter no nosso turismo?
Acho que ainda é cedo para tirarmos conclusões. Aquilo a que nós nos habituámos nos últimos anos é que a questão geostratégica passou a ser completamente determinante. Lembro-me que aquando da invasão da Ucrânia pela Rússia, dizia-se que eram duas, três semanas, e já lá vão quatro anos, portanto, tudo é imprevisível. Quem acabou de chegar da ITB viu que os stands gigantescos de Israel, do Irão, da Arábia Saudita, estavam completamente vazios, o que significa que a situação se alterou e que há deslocalizações.
Gostaria de falar um bocadinho, quer do outgoing, quer do incoming. No outgoing, como se sabe, nós temos três destinos tradicionais de longo curso, que são Cuba, México e República Dominicana, e já sabemos o que é que se está a passar, está a haver uma deslocalização muito grande para o Brasil e para Cabo Verde.
Já no que diz respeito ao incoming, sendo nós um país periférico, aqui no cantinho da Europa, continuo a achar que não iremos ser muito afetados. Insisto numa nota que tenho vindo a deixar: para mim, ter um ano 2026 igual ao ano 2025 já é ótimo, e já tinha dito isto no ano passado. Nós não podemos continuar a crescer desmesuradamente e a verdade é que temos vindo a crescer de uma forma que todos achamos positivo, que é mais em valor do que em quantidade.
Uma nota também que eu não me canso de referir: o grande aumento das dormidas que houve em foi feito pelos portugueses, e isso voltou a confirmar-se em janeiro. Bem sei que são números iniciais, mas o facto é que voltou a verificar-se, e não venham dizer que se trata de meia dúzia de privilegiados, porque estamos a falar em 30 milhões de room nights de nacionais, é muita gente a dinamizar o turismo em Portugal.
“(…) é preciso é que os apoios cheguem às empresas afetadas para se possa continuar a recuperar”
Está preocupado com o que aconteceu na região centro e os efeitos que poderá ter em termos do mercado nacional, que é o grande mercado dessa região?
O principal timing era o Carnaval, que é muito turismo interno e houve algum impacto. Estou convencido que para a Páscoa terá havido alguns cancelamentos, mas estamos a recuperar. A nossa resiliência é gigantesca e agora o que é preciso é que os apoios cheguem às empresas afetadas para se possa continuar a recuperar.
Estive há dias numa reunião do Conselho Permanente de Concertação Social que tinha dois temas: um deles foi a apresentação do PTRR pelo ministro da Economia e, de facto, o Plano tem montantes muito significativos para que as unidades possam ser recuperadas, e isso é fundamental porque há hotelaria, há restauração, há lojas, há agências de viagens, que foram prejudicadas e é primordial que se recuperem, portanto, esperemos que a região centro não venha a sofrer um impacto muito grande.
Legislação laboral: “Estamos na cauda da Europa em muitos indicadores relativos a esta matéria”
Outro tema “em cima da mesa” é a legislação laboral. O que é que o turismo pode beneficiar com estas alterações que são propostas pelo Governo?
Para já, eu diria que nada, porque ainda não temos a certeza de haver um acordo. Estamos a trabalhar de uma forma que não me lembro de ter acontecido antes, as dezenas e dezenas de reuniões que houve é uma coisa inacreditável, tem sido feito um esforço gigantesco. Temos que nos lembrar que a última peça reformativa que temos é a Agenda do Trabalho Digno, uma agenda de má memória, porque penso que foi o único momento na história em que todas as confederações patronais se retiraram da Concertação Social, pelo que estão ali coisas muito desequilibradas. Esta ministra tem feito um trabalho notável no sentido de conseguir que possa haver um acordo, tem havido bastantes cedências por parte das entidades patronais e por parte do Governo, e agora está tudo nas mãos da UGT.
Acho que há questões que são fundamentais, porque nós somos uma atividade em que muito do trabalho é noturno, por turnos, implica fins de semana, etc, e há uma série de questões que são fundamentais para nós, como o Banco de Horas Individual, que está em cima da mesa.
Em termos de legislação laboral, inflexibilidade, despedimentos, estamos muito atrasados relativamente aos países da OCDE. Repare-se que ainda estamos a discutir a questão do outsourcing, quando já não há nenhum país na Europa que discuta o outsourcing – o outsourcing é completamente livre. Estou a dar este exemplo que até nem nos afeta muito a nós, a outros sectores afeta muito mais.
Estamos cauda da Europa em muitos indicadores relativos a esta matéria, e se queremos aumentar salários, porque todos reconhecemos que os salários em Portugal são baixos, temos que ter uma legislação laboral que seja mais flexível, que contribua para o aumento da produtividade, porque só aumentando a produtividade se aumentam os resultados e se pode aumentar a distribuição.
Tal como está neste momento, assinava por baixo a proposta de legislação laboral do Governo?
Completamente.


