A despedida de Pedro Costa Ferreira no encerramento do 50º Congresso da APAVT em Macau (na íntegra)
Não é hábito do Turisver publicar discursos na íntegra, mas este é diferente porque se trata da última intervenção do atual presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, Pedro Costa Ferreira, num congresso da APAVT, o 50º, que coincide com os 75 anos da Associação a que presidiu durante cerca de 15 anos, cargo que deixará em 2026. Leia abaixo as palavras de Pedro Costa Ferreira:
“Estes últimos dias, e na verdade todo este ano, foram carregados de história, uma história de cinquenta anos de congressos e de setenta e cinco anos de vida.
Uma história que, como escreveu um dia o saudoso Belmiro Santos, se confunde com a própria história do Turismo Português.
Uma história cujas raízes remontam, como todos sabemos, a 1840, data da fundação da agência mais antiga do Mundo, a agência Abreu.
Claro, uma história de altos e baixos, de felicidade e de dificuldades, de mar calmo e de grandes tormentas, sempre vencidas com trabalho, inteligência e inovação. Trabalho, inteligência e inovação que construíram um sector que vive actualmente os melhores números económicos de sempre, um sector que demonstra pujança económica, capacidade de liderança e modernidade.
Foram momentos emocionantes, em que, ao longo de todo um ano de comemorações, os representantes do extraordinário legado da APAVT reencontraram os que hoje lideram a mudança e os que amanhã construirão o futuro.
Quero agradecer a todas as equipas que nos ajudaram a construir mais esta etapa da nossa história.
Do lado de Macau, e do lado de Portugal.
A verdade é que entrávamos na APAVT, em vésperas de iniciar um congresso de mil pessoas do outro lado do mundo, e não percebíamos como tal seria possível, através de apenas cinco colaboradores. Foi possível, porque não são penas colaboradores, são extra-terrestres — obrigado, Ricardo, Fátima, Edite, Maria e Catarina, voltaram a surpreender tudo e todos.
—
Para terminarmos todo este percurso, dificilmente poderíamos ter escolhido melhor local — Macau.
Por três motivos fundamentais.
Desde logo, pela própria história de Macau, nos congressos da APAVT.
Macau, com este ano, passa simplesmente a ser a cidade que mais vezes organizou o nosso congresso, o que, por si só, já espelha de forma inigualável a relação que temos desenvolvido juntos, a nossa proximidade, a nossa visão conjunta, a harmonia dos nossos diálogos.
Depois, pelo hino à diversidade, à modernidade e à segurança, que representa Macau. Diversidade, modernidade e segurança podiam ser escritos numa só palavra – Turismo
Finalmente, pelo olhar para o futuro. Foi através de Macau que todos tivemos a oportunidade de abrir a porta do amanhã, envoltos num ambiente único de trabalho e cultura de serviço, uma porta para um dos mais importantes centros de inovação e liderança económica, o Oriente.
Por tudo isto, e porque tudo o que eu disser soará a pouco nos nossos corações, desejo simplesmente dizer “Muito Obrigado, Maria Helena”! – que história escrevemos juntos!
—
Uma história que, como em todos os momentos nela contidos, já olha para o futuro.
Um futuro empolgante e ao mesmo tempo, de algum modo, angustiante.
A Inteligência artificial vai mudar tudo, e isso talvez não seja uma novidade tão extraordinária se olharmos para a história do Mundo, mas vai mudar tudo a uma velocidade nunca vivida, colocando efectivamente em causa a estabilidade macroeconómica, toda uma estrutura social, e até um propósito de vida. As discussões à volta da imortalidade, a forte probabilidade de vencermos doenças até hoje invencíveis, a própria ideia de que o homem pode vir a nascer não para trabalhar, são um abalo nunca vivido em nenhuma fase da evolução humana.
Temos muitas dúvidas e naturais receios, mas temos também, ao nível empresarial e sectorial, a certeza de que, tudo em dúvida, não há melhor via de saída, do que a introdução metódica e estratégica da inteligência artificial nas nossas empresas.
Porque as questões da competitividade e da ligação próxima ao cliente, sempre tão bem resolvidas pelo sector da Distribuição Turística, serão das poucas a manterem-se intactas, modernas, indispensáveis.
Se me é permitido um desejo inocente, desejo que o futuro seja tão encantador como o são as apresentações sobre o futuro, do Sérgio Ferreira. Obrigado, Sérgio, pela tua constante disponibilidade para nos ajudares a pensar e a agir – A APAVT está em dívida para contigo.
—
Como desejo que os nossos políticos saibam resolver os problemas de um País,
.Que precisa de imigrantes, mas que atingiu nesta matéria o pior de dois mundos, não conseguindo nem controlar a sua entrada, nem acolhê-los como merecem.
.Que precisa de crescimento económico, mas que não o quer discutir nem planear
.Que precisa de integrar os colaboradores nas estruturas empresariais, mas que os amarra a centrais sindicais que não representam ninguém e a uma lei laboral que os trai, sugerindo que os defende enquanto estimula o trabalho precário e a dificuldade de mudar de emprego e de vida.
.Que precisa de infraestruturas aeroportuária e ferróviária, e se perdeu no labirinto das decisões, tentando apenas agora, acertar o passo.
.Que precisa de voltar a pensar e se perdeu no populismo fácil, na grosseria vulgar e na indigência intelectual
.Que precisa de olhar para o futuro das novas gerações e que as carrega com os fardos dos actuais erros e omissões.
:Que planeou um aeroporto para daqui a dez anos, e não consegue colocar polícias nas boxs do que ainda existe.
—-
No sector, sabemos bem o que queremos e para onde vamos
Na cultura, queremos ser respeitados como instrumentos de progresso e não ostracizados por falsas elites, carregadas de ridículo
Nas cidades, queremos ter um papel importante na organização da mobilidade, que corresponda à mais-valia que aportamos, no mínimo que corresponda às taxas turísticas que os nossos clientes pagam, sem qualquer controlo, escrutínio ou regra, não queremos ser vistos como intrusos
No lazer, queremos uma clarificação do mercado, que permita o acesso de todos a todos os modelos de negócio. Melhores mercados fabricam melhores empresas, que desenvolvem ainda melhores mercados.
No corporate, queremos parar a insuportável discriminação por parte das companhias aéreas, que continuam a aceitar os cartões de crédito dos nossos clientes, e a recusar os nossos. De uma vez por todas, aceitem antes que o consumidor é quem escolhe.
Enquanto mantiverem esquemas enganadores de acesso ao consumidor, manterão as fragilidades de competitividade que há muito os agentes de viagens ultrapassaram.
Na defesa do consumidor, queremos continuar a nossa trajectória de cooperação com a DECO, com a ASAE e com a ANAC. Os consumidores são os mesmos, temos evoluído muito, em conjunto, ao percebermos que empresas e tutelas estão do mesmo lado — do lado da defesa do consumidor e da construção de mercados mais eficientes.
Na Ectaa, a nossa confederação europeia, queremos manter a importante intervenção actual e preparar novas formas de colaboração
Vamos inaugurar uma nova sede, que fizemos questão que não nos fosse oferecida pelo Estado, foi comprada com o nosso dinheiro. Estaremos com isso mais próximos dos nossos associados e mais efectivos na defesa dos interesses do sector.
A APAVT vai continuar a crescer e a aumentar a sua influência, espelhando com isso o crescimento do sector e o aumento da influência do sector na economia portuguesa.
Como vai continuar a olhar o futuro.
Sai deste congresso o lançamento do primeiro programa de inovação aberta, no turismo, liderada por uma associação empresarial.
—
Estimados congressistas,
Se este é o momento de dizermos obrigado a Macau, a melhor maneira de interiorizarmos que a vida não pára, e que, assim que regressemos às nossas empresas, teremos de voltar aos nossos desafios diários, é dizer “olá Marrakesh!”
Já o disse ontem, Marrocos é um destino rico e diversificado, onde nos esperam experiências turísticas extraordinárias; Marrakesh é uma cidade cosmopolita, onde a tradição e a modernidade convivem, enriquecendo-se mutuamente, excelente exemplo de como deveriam ser todos os lugares do mundo; Os marroquinos são pessoa extraordinárias, próximas e amigas, serão a melhor companhia do nosso congresso.
Caros amigos,
Sabem todos que estou de saída, no próximo ano, sendo esta a minha última comunicação num congresso da APAVT.
Fazê-la em Macau, onde pela sexta vez a APAVT realiza o congresso anual, um hino ao encontro de culturas, uma cidade/turismo, é uma circunstância absolutamente feliz e especialmente agradável.
Ao longo de cerca de 15 anos, não fiz mais do que o cumprimento de um dever, que incluirei com gosto no meu curriculum. Na verdade, a APAVT foi sempre a prioridade e eu serei apenas mais um Presidente que por lá passou, razão pela qual pretendo ser muito rápido na despedida.
Mas sim, terei sido também um Presidente que nunca se escondeu. Que sempre soube que, como já escreveu a nossa querida Rita Marques, referindo-se à APAVT, “ser associativo é ser protagonista; é estar onde é preciso, antes dos outros; é acreditar que é possível, mesmo quando tudo parece ter falhado; é ter a coragem de continuar a construir, mesmo quando tudo parece impossível”. E acreditem, durante a Pandemia, quando o sector perdeu 77% da facturação, tudo pareceu impossível…
Um Presidente que preferiu ser líder, em vez de megafone dos outros; que preferiu construir em vez de apenas protestar; que tentou unir onde outros só tentaram afastar; que tantas vezes preferiu estar do lado da razão, do que ter razão; e que sempre tentou conciliar os interesses do sector com os objectivos de quem nos rodeia.
Um Presidente que cedo percebeu que só tem capacidade de unir um universo multifacetado, quem tem em conta os interesses dos mais fortes, para melhor estar livre para defender os mais fracos.
Um presidente que nunca se vergou aos interesses de ninguém e que construiu uma APAVT financeiramente capaz de não se vergar aos interesses de ninguém, no futuro. Porque sempre acreditei que é quando não temos de nos vergar, que estamos mais aptos a construir e a trabalhar em conjunto
Giorgio Armani disse um dia que “elegância não é sobre ser notado, é sobre ser lembrado”
Bem, tenho a consciência de que, aqui e ali, acabei por me fazer notar. Quero acreditar que, nesses momentos, a maioria de vós terá a bondade de compreender que as minhas funções, e a representação dos interesses do sector, me obrigaram exactamente a isso, a ser notado.
Por outro lado, quero acreditar também que serei lembrado pela maioria de vós como alguém que fez crescer a APAVT, que desenvolveu acordos e relações duradoiras, que abraçou sempre aquilo que nos dá vida, o Turismo, e que sai agora de cena, como pessoa credível e confiável.
À Fátima, à Edite, à Maria e à Catarina, obrigado pelo trabalho assertivo e competente. Nunca faltaram.
Ao Ricardo, obrigado por nunca me ter abandonado em nenhuma trincheira. Recordaremos os dois esta guerra, toda a vida
Ao Rui Colmonero e ao Pedro Santos, obrigado pelo trabalho, pela proximidade e também pela cumplicidade
Ao Tiago Raiano, obrigado pelo exemplo inspirador.
Dizem que a saudade é a memória do coração. Claro que vou ter imensas saudades vossas.”
Turisver em Macau a convite da APAVT


